Leugim: 10 – Peter Pan (Parte 1)

Ao bater das nove horas, Miguel abandonou seus pensamentos, lembranças e a piscina, abriu o freezer e, finalmente, as cervejas acabaram. Só restavam mais três doses de uísque, pois Jesus e Jully deram fim a vodca. Sem problemas, até por que, tinha mais bebidas em seu estoque pessoal. Preparou duas doses e foi acordar o pai. No caminho, como geralmente jantava fora, Irina o abordou perguntando se iria sair ou se ficaria para o jantar. Raramente ficava em casa a noite, mas estava sem ânimo e resolveu de imediato que ficaria, mas que ela não se preocupasse, pois pediria pizza. Com isso, Irina anuncia ter findado suas tarefas daquele dia e que iria dormir. Despedem-se. Ela o nota emotivo, mas prefere não comentar. Sabia que ele não era de desabafar quando perguntavam se havia algo errado, era mais do tipo de já chegar falando o que estava acontecendo, quando sentia-se a vontade para o tal.

Miguel entra no quarto de hospedes em que seu pai cochilava, todo esparramado na cama, de peito para cima. Coloca uma das doses na cabeceira de cama, pousa a mão que não segurava o copo em seu peito e o sacode. Jesus resmunga ainda dormindo, mas abre os olhos. Miguel anuncia a hora e ele levanta. Olha para o lado e avista a dose. Pega e mata em uma golada só. Espreguiça, levanta e sai do quarto. Miguel o acompanha.

– Está bom pra dirigir? – pergunta.

– Sim. Essas duas horas eram exatamente o que eu precisava.

Entram no quarto de Miguel, para que Jesus pegasse seu traje formal.

– Como foi a reunião hoje? – pergunta aos risos.

– Um sucesso. – entra na brincadeira.

– Andei pensando sobre as coisas que disse.

– O casamento do seu irmão?

– Também. – pensativo olhando as duas pedras de gelo no copo. – Já somos dois homens feitos, por mais que sejamos água e óleo. Não tem motivo o Gabriel não me convidar, assim como não há motivo para eu não ir. Afinal de contas, a gente querendo ou não, somos irmãos e… Parecendo ou não, mesmo sangue.

– Exatamente! – orgulho, prendendo o cinto da calça. – Sabia que esse dia chegaria. Pode ser agora… Ou até mesmo, você poderia fazer as pazes com ele antes do casamento. Só assim, evita qualquer tipo de clima ruim no dia.

– Consegue um encontro entre eu e o Gabriel?

– Sim. Vou mexer uns pauzinhos e a gente resolve isso.

– Beleza. – diz Miguel as suas costas o ajudando a pôr o terno.

– Ajuda na gravata também.

– Será que ele vai topar? – prepara o nó da gravata.

– Vamos nos manter esperançosos que a resposta seja sim e dentro dessa sua linha de pensamento. Não há por que dois homens se tratarem como duas crianças.

Depois que seu pai foi embora, Miguel pegou o celular e pediu pizza portuguesa. Foi até a cozinha, abriu a geladeira e encontrou garrafa de vinho aberta. Tirou-a e conferiu. Meio litro pronto para degustação. Pegou taça de cristal no armário e foi a sala de estar. Jogou-se no sofá, cruzando as pernas na mesinha, encheu a taça e colocou a garrafa no chão. Acendeu seu cigarro e o pousou no cinzeiro que estava no braço direito do sofá. Pegou o controle, ligou sua TV de cinquenta e cinco polegadas e colocou no canal de luta. Meia hora depois, o interfone toca. Vai até a cozinha e confere no monitor das câmeras de segurança. Era o entregador de pizza. Dá zoom na câmera, na direção do nome da pizzaria estampada na jaqueta. Correto. Aciona o botão do portão automático. Assim que ele passa pelo portão, aciona que feche e corre até seu quarto, atrás da carteira. Volta com a mesma pressa até a porta. Pega a pizza, paga e dá gorda gorjeta. Tranca a porta e vai a cozinha. Coloca a pizza na pia e abre o portão. Aguarda o entregador passar e aciona o fechamento. Pega prato em uma das gavetas do armário, coloca três fatias e volta a sala. Aquela noite seria para relaxar e ver TV. Sem saída, sem mulheres ligando e nada mais. Mal terminou de comer, pegou no sono no sofá.

Seu celular o acorda. Confere as horas. Onze e sete da mesma noite. Olha o visor. Era César.

– Me dê um ótimo motivo pra ter me acordado, maldito! – mal humorado.

– Ah, para. Você? Dormindo uma hora dessas? Vai chover água benta!

– Passei o dia com meu pai hoje e já bebi o suficiente.

– Fiquei sabendo.

– Além do mais, não estou com saco pra sair hoje. – e então digere a informação: – Como assim ficou sabendo?

– Que passou o dia com seu pai, ué.

– Isso eu entendi, César. Mas como ficou sabendo?

– A tal de Jully contou pra Duda, que contou pra mim.

– Espera… – se ajeita no sofá, desliga a televisão, organiza os fatos. – O que exatamente ela falou?

– Que passou o dia contigo e com seu pai hoje.

– Passou porra nenhuma. Ela não ficou nem uma hora. Sei lá.

– Bom… Pelo que a Duda me disse que ela disse… Você a convidou pra sua casa, apresentou seu pai, que é um amor de pessoa e de pai, que riram muito juntos, conversaram bastante sobre lugares, vida e Miguel, e blábláblá.

– Mentira! – se exalta. – Não foi bem assim.

– A princípio eu não acreditei, mas como ela disse o nome do teu pai pra Duda, tive que acreditar.

– Porra nenhuma, César. Desde quando eu apresento mulher pro meu pai?

– Eu sei.

– Então? Cacete!

– O que houve na verdade?

– Marquei com ela nem sabia que meu pai viria hoje. Na hora que ele ligou eu esqueci completamente dela. E você sabe que a ordem é que qualquer mulher que apareça me procurando, na faixa dos dezoito aos quarenta anos, é pra Irina deixar entrar. Quando vi, ela já estava aqui dentro. Eu ia pôr ela pra correr, mas meu pai quis conhece-la.

– Por quê?

– Por quê? O óbvio, né, César? Meu pai é doido pra me ver amarrar o burro com alguém. Você sabe disso.

– Isso é. A Duda está morrendo de ciúmes, você não faz ideia.

– Por quê?

– Por quê? O óbvio, né, Brutus? – diz aos risos. – Você diz pra ela que era a única mais próxima de ser sua amiga e em menos de vinte e quatro horas apresenta uma mulher ao seu pai?

– Foi completamente sem intenção. Mas, porra. Espera aí! – se levanta indignado. – Que se foda a Eduarda! Tomar no cú, rapaz! Não devo explicação da minha vida pra ela. Se eu apresento ou não alguém, ela não tem nada a ver com isso. Se foder!

– Opa! Pega leve, meu camarada.

– Mas é. Que se foda!

– Calma Miguel.

– Sabe que eu odeio fofoquinha e ter que ficar dando explicação pros outros. Então, vá se foder você também! – e desliga.

Nervoso, começa a ir para um lado e para o outro da sala, falando sozinho e digerindo toda aquela informação. Em momento algum passou pela sua cabeça que explodiu a bomba certa no lugar errado.

– Onde já se viu uma coisa dessas, rapaz? Ficarem controlando o que faço ou deixo de fazer… E aquela Jully, também, filha da puta! Estou te falando, Miguel, mulher é foda! – bateu com a costa da mão direita na palma da mão esquerda cinco vezes, acompanhando as palavras: – Mu-lher é fo-da! A outra, só por que você bêbado fala uma merdinha que nem deveria ter saído da sua boca, já se acha no direito de reivindicar… – e então a ficha caiu. Ligou para César. – Irmão, me perdoa. Descontei em você.

– Tudo bem. Já me acostumei a suas crises.

– Desculpa mesmo. Sabe como eu piro com esses assuntos.

– Relaxa, está tudo em casa. E eu sabia que ia ligar pra se desculpar… Seria pior se não tivesse ligado, pois, aí sim iria me surpreender.

– Vamos esquecer esse assunto então?

– Lógico. Até por que, não liguei pra falar disso.

– Diga lá, o que era? – senta no braço esquerdo do sofá.

– Estava pensando em ir ao jogo amanhã… Vamos?

– Mas o Vasco só joga domingo, mula.

– É o do Fluminense, animal, pela Libertadores.

– Só vou a jogos do Gigante, meu caro, sabe disso. Fora que toda quinta eu tenho compromisso. Esqueceu?

– Ah! Da sua casa lá, né?

– Exatamente. Alguém tem que ir naquela porra pessoalmente, né? Ver como estão as coisas, se o negócio vai bem e etecetera. Além de dar aquela curtida de “Boss”.

– Entendi. Se não tivesse jogo eu iria contigo, mas vou ver se a Duda não está a fim de ir depois do jogo ou sei lá. E hoje, vai ficar em casa mesmo?

– Sim. Mas de repente você tem alguma proposta que me tire do sofá. – ri.

– Pior que nem tem nada interessante. Só um churrasco aí de uns colegas e por aí vai. Nem vale a pena sair de casa por eles.

– Então, beleza. Vou voltar pro meu querido sofá e assistir uma pancadaria.

– Bom divertimento caseiro.

– Beleza. Qualquer coisa… Call me, motherfucker!

Ligou a televisão, deitou no sofá. Pegou no sono novamente.

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