Leugim: 10 – Peter Pan (Parte 2)

Acordou por volta das nove horas. Olhou para um lado e para o outro. Localizou-se. Irina já havia levado os talhares, a garrafa vazia, desligado a televisão e arrumado a sala, com exceção do sofá. Levantou e foi à cozinha atrás de água. E lá estava Irina lavando a louça.

– Bom dia, meu amor. – brincou.

– Bom dia, Mi. – responde simpática.

– Irina… – abriu a porta da geladeira. – Estava lembrando aqui agora… – tirou uma garrafa d’água. – E seu filho, tem dado notícias?

– Ele ligou ontem de manhã. E obrigado por perguntar.

– Como está na faculdade? – abre a garrafa.

– Bem, pelo que disse. Estava todo empolgado e cheio de histórias pra contar, mas tinha pouco crédito no celular pra falar. Só falamos o necessário. E ele disse que quando voltar vai ficar um dia inteiro te contando as aventuras dele por lá.

– Bacana. Também estou ansioso por sua volta daqui há alguns anos. E quantas vezes vou ter que repetir que pode ligar a hora que quiser pra ele sem se preocupar?

– Ah, eu não gosto de incomodar. Ligação internacional é cara.

– Você não incomoda. Pelo contrário, você toca minha vida pra frente aqui em casa.

– Mesmo assim, Miguel, eu não me sinto bem em ligar.

– Tudo bem, eu respeito isso. – abre a geladeira e guarda a garrafa pela metade. – Mas sempre que quiser muito falar com ele, sinta-se bem para ligar. Ou, se for melhor pra você, eu ligo pra ele e te passo.

– Combinado.

Irina engravidou de seu filho quando tinha vinte e sete anos, porém, o pai não quis assumir e sumiu do mapa. Sua família não aceitando aquilo, a mandou para fora de casa. Desde então, sempre deu duro na vida para conseguir sustentar os dois. Quando Miguel foi morar ali e colocou o anúncio no jornal, estava desempregada e com um filho de onze anos. A vaga era praticamente a oportunidade de seus sonhos, pois diminuiria suas despesas. Moraria no local, então não teria que pagar contas e com isso, sobraria mais dinheiro para investir nos estudos do filho. Mas com quem seu filho ficaria? Creche? Não havia ninguém a quem pudesse pedir ajuda. O que custava tentar aquela vaga? Na pior das hipóteses não conseguiria o emprego. Na melhor, conseguiria o emprego e levar o filho junto.

Ligou para o anunciante e agendou horário em que seu filho estivesse na escola. Quando chegou ao local e viu que era jovem de dezoito anos, suas esperanças se foram por água abaixo. Aquele jovem mimado nunca deixaria que seu filho fosse junto, mas, assim como tinha pensado antes, não tinha nada a perder. Foram até a sala, sentou no sofá de dois lugares e ele no de três que ficava ao lado, formando L.

– Então, Irina, como pode ver é uma casa enorme pra se cuidar e sinceramente… – riu. – Não tenho vocação nenhuma para tarefas do lar.

– Sua casa é muito bonita, senhor.

– Por favor, só tenho dezoito anos. Aceito até que me chame de filho, mas nunca me chame de senhor. – brincou.

– Desculpa.

– Nada. Estou brincando. Pode me chamar de Miguel.

– Tudo bem, Miguel.

– Não sei também como funciona pra saber se uma empregada-governanta e seja mais lá o que for que eu precise, é boa ou não. Se existe currículo, o que se deve perguntar na entrevista… – dizia cheio de trejeitos. – Então vou mais por eu gostar ou não da pessoa. E já gostei de ti assim que bati meus olhos. – sorriu. – Podemos começar hoje? Vou a sua casa de carro buscar suas coisas e trazemos logo.

– Jura? – pergunta espantada.

– Por que não?

– Tem um “porém”…

– Se for o salário, eu estou disposto a pagar o dobro do que geralmente pagam.

– Jura? – sentia o queixo sujando no chão empoeirado.

– Tudo bem que não faço ideia de quanto seja, mas posso ligar pra algumas pessoas e me informar. Mas, ainda temos o “porém”?

– Sim. Eu tenho um filho pequeno, de onze anos, e não tenho com quem deixá-lo.

– Ué. Só trazer ele junto. Que mal há? – diz Miguel agindo com tanta naturalidade que fez praticamente o seu queixo, agora, abrir um buraco no chão e achar petróleo.

– Tem certeza? – não acreditava que estava sendo tão tranquilo e fácil, de certa forma.

– Irina, você não tem ideia do quanto estou desesperado pra encontrar alguém realmente disposto a cuidar dessa casa e da minha humilde pessoa. – riu. – Preciso de alguém que me ajude com que minha mãe em hipótese alguma pense que eu precise dela.

– Juro que você nem vai reparar que meu filho mora aqui comigo. – ignora a parte sobre a mãe.

– E por que não? Eu adoro crianças. Tenho uma irmã da mesma idade do seu filho. Ela é um anjo. – sorriu orgulhoso. – Qualquer dia ainda terá oportunidade de conhecê-la. Mas, agora, que já cuidamos do seu “porém”… Qualquer coisa que precisar para o seu filho, você pode me pedir também.

– Já sei. – e começa a olhar para um lado e para o outro. – Isso aqui é uma pegadinha, não é?

– Por que seria? – diz Miguel achando graça de sua reação.

Desde então, Irina era extremamente grata por tudo que Miguel fazia em sua vida. Ficou mais fácil ter onde morar, dar a melhor educação para Patrício, seu filho, e juntar dinheiro para que ele fizesse faculdade nos Estado Unidos. Fora o fato de que, nos sete anos que seu filho viveu ali com eles, Miguel sempre agiu como se fosse irmão mais velho. Levava e buscava na escola, acompanhava Irina ao médico e etc. Sabia que aquilo era raro e via como uma oportunidade em um milhão. Hoje em dia já nem o via mais como patrão, tinha amor por ele como se fosse seu segundo filho. Tanto é que realmente tinham intimidade como se fosse mãe e filho, por mais que não aparentasse. Sabia que independente do que falassem sobre ele ou sobre o que ele mesmo falava sobre si, ou até das coisas que fazia, Miguel era apenas um Peter Pan e dono de um coração gigantesco. Que no fundo havia uma boa explicação para o seu jeito quando o assunto era mulher e relacionamento amoroso.

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