Leugim: 11 – Lovers Club All Night (Parte 1)

Enquanto Irina terminava de preparar o almoço, Miguel recebeu ligação de seu pai solicitando que comparecesse a um restaurante perto da empresa, pois conseguiu a tal conversa com Gabriel. Tomou seu banho, se aprontou e saiu de carro. Passou no Supermercado, comprou cinquenta litros de cerveja e voltou. Colocou vinte no freezer da piscina e guardou as restantes na despensa. Foi até o quarto, pegou sua jaqueta de couro e dois capacetes. Voltou ao quintal e saiu em sua Harley-Davidson Heritage Softail Classic. Pegou a estrada rumo ao local combinado. Vinte e sete minutos de viagem. Guardou o capacete, travou a roda e acionou o alarme. Respirou fundo e entrou no restaurante. Cumprimentou o simpático maitre que já o conhecia por seu pai e irmão almoçarem ali há anos, e o acompanhou até a mesa onde os dois estavam. Assim que os avistou percebeu a surpresa nos olhos de Gabriel ao vê-lo. Chegando a mesa, seu pai com um sorriso enorme levantou e o abraçou.

– Olá, meu filho.

– Ele não sabia que eu viria?! – cochicha em seu ouvido durante o abraço.

Jesus finge não ouvir.

Gabriel levanta e friamente estende a mão. Miguel o cumprimenta e solta um sorriso de canto. E não trocam uma palavra. Ao sentarem:

– Gabriel, você deve estar surpreso por seu irmão ter aparecido repentinamente… – diz Jesus. – Mas quis fazer esse encontro surpresa, já está na hora dos dois agirem como homens um com o outro.

– Falar um com o outro ou não, não significa que eu ou ele agimos como criança ou como homem. – diz Gabriel ríspido.

– Você não entendeu o que eu quis dizer.

– Sim, eu entendi. Só o que não gosto é de não ter sido informado sobre isso.

– Você não viria, Gabriel. – diz Miguel.

Gabriel o encara deixando bem claro que não lhe tinha perguntado nada e volta os olhos ao pai:

– Qual a finalidade disso? – limpa os cantos da boca com guardanapo.

– Vocês pararam de se falar na adolescência por motivos infantis. Acredito que hoje ambos mais maduros, não há motivo para continuarem. – diz Jesus.

Silêncio.

– Precisam se conhecer novamente, então vou deixá-los a sós… – levanta. – Já terminei o meu almoço. – e se retira da mesa.

Gabriel volta sua atenção ao almoço e Miguel fica olhando sem saber o que fazer ou dizer. Ao perceber que seu irmão está ignorando sua presença, acena ao maitre. Pede o prato da casa e caneca de trezentos ml de chope.

– Pegue uma mesa pra você, essa aqui já está reservada. – diz Gabriel.

– Vai mesmo fazer isso?

– Fazer o quê? – o encara.

Miguel respira fundo.

– Estou falando sério, não me obrigue a chamar o segurança. – Gabriel insiste.

– Porra, Gabriel. Não ouviu nada do que nosso pai acabou de falar?

– Eu sei o que você quer.

– Quê? – franze a testa sem entender qual poderia ser a suposição.

– Imagino que meu pai tenha lhe falado que vou casar e como você adora festas, não quer perder essa… Mas sinto desapontá-lo, pois não terá bebida alcoólica. – sorri irônico. – Na verdade não sinto nada.

– Cara! Sério? – respira fundo procurando manter a paciência. – Sério que você ainda é o mesmo babaca de anos atrás?

– E você ainda é o mesmo alcoólatra desonroso de anos atrás?

– Alcoólatra é o meu pau!

– E continua não sabendo dialogar sem soltar alguma palavra inapropriada ou insulto. Miguel e suas agressões verbais! Penso agora quantos minutos tenho antes das agressões físicas.

– Ah vá, Gabriel. – ri. – Sinceramente? Eu fico feliz pra caralho por não ter virado um mauricinho engomadinho, babaca e “frescurento” igual a você.

– Nunca vai aprender mesmo. – olha para o alto na diagonal esquerda. – Se tirasse a mesada do meu pai, você estaria em qual sociedade agora?

– Porra, para com isso. – se cala ao ver o garçom vindo com sua caneca de chope.  – Obrigado. – dá golada carregada. – Vamos ao menos tentar se entender e ficar em paz por nosso pai. – continua assim que ele sai.

– Miguel, nós não temos nada em comum. – cruza os talhares sobre o prato. – Assunto, gosto, ideal, cabeça, filosofia, livros… Nada! – levanta. – Se quer ir ao casamento, que vá. Só tenta não fazer nada que estrague o dia mais feliz da minha vida. E muito obrigado por me fazer perder a fome. Sempre consegue estragar alguma coisa, nisso você é bom. – e saí.

– “O dia mais feliz da minha vida”. – imita-o fazendo voz fina e trejeitos afeminados, assim que o irmão some da vista. – Se foder, seu merda! Como um casamento tem como ser o dia mais feliz da vida de um homem? – vira a caneca em uma golada só e gesticula ao garçom que lhe traga mais uma.

Nervoso e estressado pela rápida troca de elogios com o irmão, bebia o chope como se fosse água no deserto. Na quarta caneca o garçom vem com o prato.

– Coloca pra viagem, por favor, perdi a fome… – anuncia. – Traz outra caneca e fecha a conta, por favor.

Celular toca. Tira do bolso e olha para o visor. Era seu pai. Ignora e guarda o celular. Confere as horas. Duas e sete. Mal tira o cigarro da carteira e o maitre vem correndo solicitar que não acenda, pois é proibido fumar no local. Ainda irado pelo ocorrido, fica alguns segundos o encarando, como se ele tivesse culpa de algo. Guarda o maço e coloca o cigarro atrás da orelha, sem tirar os olhos em chamas de cima do rapaz. O pobre maitre que não tinha nada a ver, engole seco e se afasta. O garçom chega com a conta, sacola com a quentinha e a última caneca de chope. Miguel vira de uma só vez, confere o valor. Só tinha o seu almoço e os chopes. Coloca o dinheiro dentro do envelope e dá dez reais de gorjeta. Pega a sacola e sai do estabelecimento. Na calçada olha para um lado e para o outro. Avista um morador de rua. Tira o cigarro da orelha e o acende. Vai até ele:

– Aqui, senhor. – o entrega a sacola.

Pega, inspira perto da boca da sacola. Fecha os olhos, maravilhado com o cheiro fresco.

– Muito obrigado. Que Deus lhe dê em dobro.

– Se realmente existisse um Deus, estaríamos na mesma situação. – se afasta.

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