Leugim: 12 – Vírus Zumbi (Parte 1)

Saíram da casa de swing por volta das quatro horas da manhã, embriagados e rindo a toa. Miguel abraçado a Rayanne e César abraçado a Eduarda. Chegando ao estacionamento, decidiram ir ao Motel mais próximo para finalizar a noite. Rayanne com César de carro e Eduarda na moto com Miguel. Pegaram quartos separados. Enquanto Eduarda estava no banheiro, Miguel a aguardava deitado na cama, só de calça. Alguém bate na porta. Era o serviço de quarto com garrafa de champanhe que ele havia solicitado. Pega, dá gorjeta ao rapaz e volta a cama. Eduarda sai do banheiro e vê um Miguel todo desajeitado levando surra para abrir a garrafa.

– Um a zero pra garrafa. – diz se aproximando aos risos.

– Não quer abrir nem a caralho essa porra. – fazia força o suficiente pro rosto ficar vermelho com a pressão.

– Me dá isso aqui. – toma a garrafa de suas mãos. – Aprende! – brinca.

E Miguel fica com cara de babaca ao vê-la abrir com tremenda naturalidade.

– Aprendeu? – diz ela enchendo as taças.

– Qual o macete?

– Jeito e talento!

Brindam e matam a taça juntos. Miguel a pega pela cintura e puxa ao seu encontro.

– Miguel… – diz Eduarda entre os beijos.

– Hum? – ainda beijando-a.

– Eu ainda sou sua quase amiga? – se afastou alguns centímetros olhando-o nos olhos.

Miguel com as sobrancelhas arcadas fica a encarando sem entender a pergunta.

– Lembra que disse que sou a pessoa mais perto de se dizer que é sua amiga? – riu. – Ou algo do tipo.

– O que tem isso? – dois passos para trás.

– Sou ou não?

Confirma com a cabeça antes de virar a taça goela abaixo.

– Por que apresentou seu pai pra Jully e não pra mim?

Miguel fica em posição de estátua a encarando, processando a informação que acabou de receber. Isso não vai acontecer em um quarto de motel. Pensa.

– Não vai dizer nada? – Eduarda insiste.

– Quer mesmo conversar sobre isso? – pergunta frio, se afastando até perto da porta do banheiro.

Ela puxa o lençol e enrola ao corpo. Miguel acende cigarro. Respira fundo ao perceber que ela realmente iria parar naquela conversa. Esfrega o rosto com a mão esquerda. Sentiu vontade de ignorá-la. Sair do quarto, pagar a conta e ir embora. Mas tinha que levar Rayanne embora. E não podia simplesmente entrar no quarto onde ela estava com César e dizer que já era a hora de partir e acabar com a felicidade do amigo.

– Desculpa. – diz Eduarda lhe tirando dos pensamentos. – O César já tinha me dito que você odeia ter que dar explicação a alguém… Só que… Não consegui evitar.

Ainda calado se vira em sua direção. Olho no olho. Um Miguel frio e uma Eduarda frágil, esperançosa por uma satisfação. Era a situação, naquele quarto feito para relações sexuais, algo parecido com discussão de relação. Eduarda prosseguiu:

– Pensei que… – desviou os olhos. – Estivesse rolando algo legal entre a gente. – volta os olhos a ele. Ainda do mesmo jeito e imóvel a encarando. – Sei que estou pondo tudo a perder contigo com essa conversa, mas… Se for pra perder tudo, quero ao menos respostas. Não precisa mais falar comigo ou olhar na minha cara depois disso, se não quiser.

Miguel começa a ficar nervoso. O cigarro mal acaba e ele já acende outro. Estava até trêmulo, não aguentava mais ter que ouvir aquilo tudo.

– Por que você tem medo de gostar de alguém? – Eduarda vai além.

Desvia os olhos para a porta do quarto, pensativo, esfregando dois dedos na testa, enquanto ela aguarda por uma resposta qualquer. Ele realmente não sabia como proceder com aquela situação. Sabia que sentia alguma coisa por ela e que como já havia assumido era a única mulher próxima a ele ver como amiga. O que faria? O de sempre? Afastá-la de sua vida como fazia com todas?

– Me dê ao menos uma explicação pra eu saber lidar com isso. Juro que depois que me der resposta, eu sumo da tua vida. – diz Eduarda com os olhos marejados, prestes a chorar.

Mas que porra de situação é essa? Pensa. Olhou-a. Aproximou-se da cama. Esfrega a nuca, nervoso. Desvia os olhos para a porta do quarto novamente. Realmente parecia a melhor opção sair sem dizer nada e ir embora. Passou a ponta dos dedos em uma das sobrancelhas. Estava em sinuca de bico sem tabela como saída. Voltou a olhá-la. Sentou na beirada da cama. Percebeu que alguma coisa havia mudado, só tentava perceber quando. Bufa.

– Tudo bem, Eduarda. Você quer saber por que eu sou assim? É isso? – a encara mais frio que aparentava antes.

Chegou a sentir calafrio com o olhar invernal que ele a lançou. Manteve-se em silêncio, esperando que prosseguisse.

– É muito relativo e não quero ficar meia hora falando… – diz ele. – Mas, em resumo, não consigo me apaixonar por ninguém e não quero que ninguém se apaixone por mim.

– Eu não conheço um ser-humano na face da Terra que nunca tenha se apaixonado por alguém, Miguel. Isso é impossível.

– Parece mentira, mas é verdade.

– Qual o problema de alguém se apaixonar por você?

– Por que isso me assusta pra caralho, Eduarda. – se exalta soltando verdades que não queria que saíssem.

Silêncio. Ela tenta se aproximar. Miguel levanta e se afasta da cama.

– Eu não entendo porra nenhuma de amor? Fato! – e repentinamente começa a falar sem parar. – O que sei é vago e não explica nada. Quando você pergunta pras pessoas, elas te respondem coisas sem sentido. Se transformam em crianças. E pelo que sei, se alguém te ama e você não consegue retribuir aquilo… A pessoa sofre. Não quero ninguém sofrendo por minha causa. A última coisa que quero na minha vida é fazer alguém sofrer. Então, isso me assusta pra caralho… Saber que a pessoa faz planos pra que você mude… Que um dia consiga retribuir o que ela sente e todo aquele blábláblá que vem junto. Não quero isso pra mim. Não espero mudar… Não quero mudar! – parou de falar.

Desde que ele falou “a pessoa sofre”, Eduarda já chorava e só percebeu agora.

– Eu não queria sentir nada por você. – assume entre o choro. – Quando te conheci eu percebi que você não valia nada, que só mesmo uma noite casual de bom sexo ou não, e boas gargalhadas… Mas como eu também não queria nada com ninguém, então éramos perfeitos um para o outro.

– Isso é verdade. – senta na cama, misteriosamente mais calmo. A abraça, afagando seus cabelos carinhosamente. – Me perdoe por eu ser assim.

– Mas não é sua culpa. – acaricia seu rosto lentamente. – É que depois que ficamos pela primeira vez, eu curti… Muito! Fui para outro País e só pensava em você. Alguma coisa me fez ver esperança de que pudesse ter sido recíproco. E eu realmente fiz planos de que uma hora ou outra você fosse mudar, que iríamos ficar juntos… Não me importa se não sente nada por mim. Ficaria contigo e me foderia pra isso.

– Não daria certo, Duda. Eu não te faria feliz, nunca.

– Faria sim!

– Não faria. Tudo bem que se eu tivesse que ficar com alguém, hoje, esse alguém seria você… Talvez. Ia sim ser bacana no início. Mas uma hora ou outra eu iria pular do barco.

– Não ligo.

– Não! Não é legal, Duda. Tenta entender. – faz pausa procurando palavras. – Não sou homem de uma mulher só… Sou de todas. Você sabe disso.

Eduarda se ajeita na cama. Usa o lençol para limpar as lágrimas. Recompõe-se.

– Me promete uma coisa?

– O quê?

– Se um dia você mudar… Casa comigo? – pergunta com cara de adolescente apaixonada pela primeira vez.

– Caso. – sorri.

– Posso abusar um pouco e pedir outra coisa?

– Pode.

– Não me afasta da sua vida.

Não responde. Esfrega o rosto com as mãos:

– Céus, Duda, que situação você resolveu nos meter hoje.

– Por favor, Miguel. Eu juro que isso nunca mais vai acontecer. Vou agir como naquele último dia na piscina, como se não sentisse nada por você, continuar levando amigas pras festinhas na tua casa. Tudo o que você quiser!

– Não é certo você fazer isso com você mesma. – só aí, mais do que antes, enxergava nela tudo que havia acabado de relatar sobre como “aquilo” afetava as pessoas.

– Não me importa. Juro!

– Você quem sabe.

– Obrigada. – o abraçou forte. – Vamos terminar o que viemos fazer? – sorri maliciosa com a maquiagem toda borrada pelo recente choro.

– Acho que é a primeira vez na minha vida que vou negar fogo.

– Ah, não…

– Depois de tudo o que houve nesse quarto, não parece mais um quarto de Motel. Vamos beber, dormir e ir embora de manhã. – puxa o lençol e se ajeita debaixo dele. – Outro dia a gente termina isso.

Eduarda deita em seu peito. Ele a cobre.

– Me desculpe por isso.

– Relaxa. Eu que sou escroto.

– Ainda bem que você sabe. – ri.

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