Ventura


01 -Vontade


Foi em um daqueles dias que a gente sente uma louca vontade de ir para longe. Longe de tudo e de todos. Deixa o celular em casa desligado, para que ninguém consiga entrar em contato ou deixar alguma ligação perdida, tentadora, que hora ou outra chame a sua atenção, dependendo de quem seja. Hoje, nenhum rosto conhecido irá me encontrar! Esse é o pensamento. E entrega, em bandeja, sua noite para o destino, o acaso, e seja lá o que for e o que vier. Qualquer novidade que aparecer será boa e bem-vinda. Se calhar de não dar em nada, não tem problema algum, pois o mais importante essa noite é estar longe de qualquer coisa que lhe pareça familiar, em algum lugar que nunca foi, e, de preferência, que não tenha escolhido a dedo, mas sim, por ventura.

Tomei banho gelado. No quarto, abri o armário com os olhos fechados e no tato escolhi o traje que vestiria para uma noite como essa, tão especial. Ao jogá-las na cama percebi que devia fazer isso mais vezes, pois nem sempre me agrada a combinação que faço com os olhos abertos. Aprontei-me, apaguei as luzes, tranquei a porta e saí. E vamos ao que interessa! Passei na padaria perto de casa e comprei maço extra de cigarros. Quantas vezes fiquei desesperado de madrugada procurando algum lugar aberto que vendesse cigarros? Quantas vezes a vontade era tanta, mas tinha que racionar os restantes, pois o sono não vinha e os comércios já estavam fechados? Enfim, fui para o ponto do outro lado da padaria e decidi que pegaria o primeiro ônibus que viesse. Nada de Vans, não me dou muito bem com elas, principalmente dentro, com aquele rapaz educado na janela estrangulando a língua portuguesa, aos berros: “Alcântara, segundo Extra, Sanzabel! Sanzabel dois real!”. Certa vez até brinquei dizendo: “Passa em Santa Isabel?”, mas não entendeu a piada. Pois é, eu tenho essa mania de fazer piadas sem graça onde só eu me divirto. E daí? Quem nunca?

Não demorou a surgir o primeiro ônibus, infelizmente para perto, mas fiz sinal. Mesmo estando longe de qualquer lugar que seria o meu destino final, a cada minuto que passava, só aumentava a ansiedade por descoberta, novos ares. Terra à vista, Colombo! Desci no ponto final e esperei por outro, que também não tardou a vir. Esse sim, me levaria para longe. Sempre o vejo passar, mas nunca tive que pegá-lo para ir a churrasco, aniversário, ou algum tipo de comércio que só tivesse em um dos lugares por onde ele passa. Assim que o ônibus adentrou região, que até então eu desconhecia, sentei perto do motorista e perguntei se sabia de algum bar perto de ponto, para que me facilitasse na hora de ir embora e não precisasse chamar táxi. Deixou-me em um bar com videokê, alegando ser ótimo, e que ele frequentava bastante. E brincou dizendo que não poderia me acompanhar, pois ainda tinha a última volta a fazer, mas talvez nos encontrássemos ali mais tarde. Mesmo aceitando a dica, fiquei receoso que pudesse ser um bar de motoristas e trocadores de ônibus… E que ele realmente aparecesse depois. Nada contra, mas não gosto de bares que são frequentados por um mesmo tipo de pessoas, rotuladas ou de certa forma, categorizadas, estereotipadas. Entende?

Fui adentrando com passos lentos, avistando bem cada detalhe do lugar e das pessoas. E o que posso dizer? Oito e oitenta. Nome? Bar do Ubirajara & Fiéis Amigos. Grande Bira, conhece? O ambiente não era nem grande nem pequeno, nem cheio e muito menos, vazio, nem sujo nem tão limpo. Parecia um ótimo “sujinho”. E nenhum sinal de uniforme, crachá, ou mochila de alguma viação. Menos mal, é aqui mesmo que ficarei. Não queria novidade? Cá estava ela.

Sentei em uma das mesas perto da saída, qualquer coisa era só levantar e saltar fora sem pensar duas vezes. Não foi difícil reconhecer o tão famoso Bira, que o motorista tinha mencionado, quando um homem gordo, com camisa cinza toda engordurada, bigode ruivo que escondia a boca, cabeça parecendo frente de praia e um pano pendurado no ombro, veio todo prático limpando a mesa e perguntando o que desejava. Bem simpático e amistoso por sinal, esse tal “Grande Bira”. Quando pediria por novidade, hesitei, retribui o sorriso amistoso e pedi cerveja estupidamente gelada. Dando ênfase no estupidamente, lógico.

Quando olhei para os fundos do local, onde ficava a máquina de videokê, avistei uma mulher me encarando com um semblante de quem estava ali há horas bebendo. O que não entendi era por que me encarava enquanto um homem a abraçava por trás e fungava seu cangote, seguindo seu ritmo lento, enquanto outro camarada cantava “O Ritmo da Chuva”, que por sinal, muito melhor na versão que ouvi cantada pela Fernanda Takai. Com certeza! Desviei o olhar quando Grande Bira chegou com a minha amada loira gelada, pôs o copo na mesa e o encheu com aquele talento que só os donos de bares têm: sem colarinho, na medida ideal. Parecia que aquela mulher tinha um ímã nos olhos… Um ímã oposto ao ímã dos olhos meus, que me atraía fortemente. Novamente olhei-a. Fitava-me com o mesmo semblante, ainda dançando lentamente e com aquele homem, aparentemente bêbado, grudado nas suas costas. Comecei a notar seus detalhes cima a baixo, seguindo seus traços corporais: aproximadamente um metro e setenta de altura; pele bronzeada de longe (devia ter ido à praia seis dias atrás, ou menos até, pois a marca do biquíni ainda era visível, porém não tão forte, mas, ainda assim, convidativa); cabelos negros e longos, daqueles ondulados que queriam ser encaracolados e faziam questão de deixar isso bem claro; trajava um tomara que caia preto, que deixava seu umbigo a mostra e avolumava bem seus seios médios, que deviam estar com um sutiã meia taça sem alça – não sei, mas era meu tamanho ideal se estivesse sem bojo, isso eu tenho certeza –; saia rodada de cor azul marinho, cheia de flores coloridas, que batia um pouco acima de seus joelhos – confesso que me deu tremenda curiosidade de ver pelo menos metade daquelas coxas. Deveria ser essa a sua intenção. Sabe-se lá, não? –; e nos pés, um simples par de havaianas pretas, que deveria ser tamanho trinta e cinco ou trinta e sete no máximo. Assim que meus olhos chegaram aos seus pés, voltei rapidamente aos seus olhos, que não dava para ver a cor de longe, mas o formato tinha um traço europeu lindo. Ela baixou a cabeça, soltou belo sorriso e voltou a me olhar. Ergui o copo no ar, na sua direção, sorri de volta e dei boa golada sem desviar os olhos dos dela. A cerveja desceu como água, uma sensação gostosa. Ou devia ser devido à sede que aquela mulher estava começando a causar em mim, além da sede que aqueles lábios bem delineados e pintados de rosa estavam causando? Sabe aquela boca que o lábio superior é pequeno e o inferior é carnudo? Perfeito. Já começava a imaginar aqueles lábios agarrados aos meus. Devia ter gosto de mel alcóolico. Uh.

Enquanto puxava o maço aberto, pensei: “O que pensa que está fazendo? Ela está acompanhada! Que loucura é essa?”. Acabei ignorando minha própria censura e continuei mantendo aqueles olhos presos aos meus. Hipnotizavam-me, mas eu também queria hipnotizar. Ainda não definimos quem é a caça aqui e é sempre mais legal ser o caçador. Na verdade não definimos nada, mas se alguém está para dar o bote no outro, tem de ser eu! Certo! Coloquei o maço na mesa após tirar um e acendê-lo. De repente ela vira para o homem agarrado as suas costas, cochicha algo em seu ouvido e vem em minha direção. Nesse momento pude notar como mexia sensualmente aquele quadril enquanto caminhava. Mais uma vez aquela imensa curiosidade de ver o que a saia rodada teimava em esconder e chamar tanto a minha atenção. Já me sentia criança querendo brincar com brinquedo de adulto. Sabe quando dizem: “Não mexe, senão pode quebrar” e já é aquela criança experiente que sabe que das outras vezes realmente havia quebrado? Era eu. Meu senso já tinha alertado para não mexer com aquele brinquedo, mas o que eu iria fazer agora que ele estava se aproximando?

– Boa noite. – ela diz, de frente para mim, atrás da cadeira no outro lado da mesa e passando a mão direita lentamente pela nuca. Tom de voz tentador, meio embriagado, que quase me fez fincar os lábios, fechar os olhos e imaginar aquela voz em um sussurro no pé do ouvido: “– Me possua!”. E se passa a ponta da língua em seguida, então, morri, já vejo a luz.

– Boa noite. – respondo me ajeitando na cadeira.

– Tem um cigarro? – olhou meus lábios e rapidamente voltou para meus olhos, apoiando as mãos no encosto da cadeira.

– Fique à vontade. – digo pegando o maço na mesa e estendendo em sua direção.

Tirou um e colocou o maço na mesa, do lado da garrafa:

– Tem fogo? – perguntou com o cigarro no canto esquerdo da boca, curvando-se na minha direção sobre a mesa, com as mãos palmeadas na mesma e sem querer ou por querer, chamou minha atenção aos seus seios.

Meu silencio e olhar me entregam. Ela sorri. Mais uma vez olha para os meus lábios e rapidamente volta a me encarar. Devia fazer parte da hipnose. Não é possível! Facilmente estava me seduzindo cada vez mais.

O isqueiro estava dentro do maço e com certeza o tinha visto. Tirei de lá e fui logo tratando de erguê-lo em sua direção. Risquei a pedra e dei-lhe fogo. Deu forte tragada olhando para a brasa. Tirou-o da boca com o polegar e o indicador da mão direita, erguendo pouco os outros dedos, como madame cheia de classe. Notei a marca de batom no filtro, o que me fez imaginar no meu pescoço, no colarinho da minha camisa. Não sou casado, não teria problema algum. Ela recua e fica novamente ereta. Não trocamos nenhuma palavra. Olhou para trás. Acompanhei seus olhos. Com certeza estava conferindo o que fazia o homem grude. E lá estava ele com o microfone na mão, escolhendo uma música no videokê.

– Esperando alguém? – me pergunta soltando fumaça, voltando os olhos para mim.

– Não.

– Posso? – puxou a cadeira.

– Fique à vontade.

Sentou, colocou os cotovelos na mesa, o braço esquerdo deitado com a mão no bíceps direito e o braço direito reto, com o cigarro nos dedos e a mão arcada. Ficamos minutos nos encarando como se nossos olhos estivessem tendo conversa, se conhecendo melhor, e, quem sabe, estivéssemos mesmo pensando nas mesmas coisas. Era tudo o que eu queria naquele momento, que aquele brinquedo quisesse brincar comigo e não quebrasse no final.

– Me acompanha na bebida? – pergunto.

Não sei como aquela pergunta saiu, mas ela assentiu com a cabeça. Acenei ao Bira e gesticulei que trouxesse outro copo. Continuamos em silêncio ao som do homem grude cantando “O Homem Bomba” da banda O Rappa no videokê. E essa música aumenta a adrenalina. Já ouviu? “Boom! Boom! Boom! O Homem bomba!”.

Ficamos nos encarando com nossos sorrisos sonsos até que Bira chegasse. Quando chegou com o copo, foi logo enchendo os dois, assim como fez quando cheguei, e colocou a garrafa de volta na “camisinha” (porta-garrafas).

– Nunca te vi por aqui. – diz ela curvando-se pouco.

– Nunca a vi em lugar algum. – retruco, jogando com peteleco a guimba na direção da rua.

Sorri e acompanha com os olhos a guimba voando até se espatifar ao chão. Volta a me olhar, passa a mão direita pela testa ajeitando os cabelos:

– De onde és? – pergunta.

Continuei calado. A canção acaba e ela olha para trás, obviamente a conferir, mais uma vez, o que o homem grude iria fazer. E lá estava ele escolhendo outra música. Pague uma e cante duas. Virou-se na minha direção. Bebeu. Passou a língua nos lábios, limpando pouco da espuma sem tirar os olhos dos meus. Era como se estivéssemos em um jogo, duelo, em que uma piscada ou olhada para o lado, poderia ser vital. O que ela não sabia é que, nesse faroeste de troca de olhares, eu era o Clint Eastwood com meu olho esquerdo bem calibrado, e o Charles Bronson com meu preciso olho direito.

– Seu marido? – me atrevo.

– Não. – riu, baixando os olhos para o copo.

– Namorado? – insisto.

Silêncio. Continuou sorrindo. Não sei se sabia o quanto aquilo estava me fascinando cada vez mais e mais e mais…

– O que o trouxe até aqui? – pergunta me tirando do transe.

– Sabe aqueles dias que a gente sente uma louca vontade de ir pra longe de casa, atrás de alguma novidade? – puxei um cigarro do maço e o acendi, fazendo mistério à toa. – É bem por aí.

Solta sorriso malicioso enquanto olhava para brasa queimando no meu cigarro ao ser tragado. Acho que devia ser admiradora de brasas, calor e essas coisas. Sabe?

– E você? – pergunto.

– Sabe aqueles dias que a gente sente uma louca vontade de ser uma novidade? – me olhou com semblante tão sexy, que quase caí da cadeira. Senti até aquele arrepio gostoso subindo pela nuca.

Olhei para o homem grude, que agora já cantava olhando para nós, ali, a sós, e esquecia bastante a letra da música ou de se concentrar nela. Já era sem ritmo, agora, então. Voltei os olhos para ela, e não sei o que deu em mim, mas:

– Quer ir para outro lugar? – encarei o homem grude guardando o microfone na máquina. – Responde rápido!

– Por quê? – perguntou assustada franzindo a testa, estranhando a pergunta repentina, ou por algum outro motivo mesmo. Não altera o produto.

– Ele está vindo! – levantei rapidamente e coloquei o maço e o isqueiro no bolso.

– Quero! – matou o copo em uma golada só e levantou. – Mas e a conta?

– Vai ficar na dele. – digo segurando em sua mão.

Saímos correndo do bar, como dois adolescentes vivendo romance proibido ou dois comparsas, amantes, fugindo da polícia. Suspeitos de um crime perfeito, como canta o gênio Humberto Gessinger em sua música Pra Ser Sincero. Como não conhecia nada pela região, pedi para que ela nos levasse ao ponto e pegássemos o primeiro ônibus que aparecesse para qualquer lugar, sem se preocupar com onde ele iria. Averiguei e lá estava o homem grude correndo, ziguezagueando, quase caindo pelas tabelas e gritando algo difícil de entender, nem me interessava saber. Vou deixar por conta da sua imaginação. Mudei os planos ao ver um táxi parando na calçada. Entramos rapidamente, fechamos as portas e gritei que nos levasse para longe, o mais rápido possível. Deve ter olhado pelo retrovisor e entendido mais ou menos a situação, pois saiu cantando pneu com o carro. Então, no banco de trás, nos beijamos ardentemente pela primeira vez. Como era quente aquele beijo. Como eram suaves aqueles lábios perfeitos e sedentos por minha língua. Não tinha gosto de mel alcóolico, mas de cerveja mesmo! Antes dos meus olhos, minha mão direita matou boa parte da curiosidade de ver, sentir, pelo menos metade daquele par de coxas, enquanto a mão esquerda sentia toda maciez daqueles longos cabelos ondulados, que, como já disse, queriam ser encaracolados.

Minutos depois o motorista me pergunta onde era o longe que queríamos. Respondi que já estava ótimo. Paguei e descemos do táxi. Mas onde estávamos? Nem ela sabia. Muito menos nos importava. Olhamos ao redor e avistamos Motel do outro lado da rua. Adoro taxistas sagazes! Antes mesmo que perguntasse algo, já foi puxando minha mão, sugerindo que entrássemos. E vou eu pensar duas vezes?

No quarto, tive certeza que as roupas sempre nos enganam. Era muito melhor do que eu poderia imaginar. Vi uma Deusa tirar a capa de mulher na minha frente, na “minha” cama! A noite foi maravilhosa e muito mais do que esperava. Como era bom o sexo daquela Deusa. O beijo, o toque, o gemido, a respiração ofegante no pé do ouvido. Tudo! Sem exceção! É fato que cheguei a pensar que estava sob o efeito de alguma droga alucinógena, em uma viagem louca e espetacular rumo ao Nirvana. Mas era real! Dormimos e quando acordei, me deparo com um bilhete ao meu lado na cama, em cima do travesseiro que aconchegou seu sono pós-sexo surreal, talvez só para mim:

“Creio que a noite foi tão maravilhosa quanto esperávamos que fosse. Quem sabe em algum outro desses dias loucos, que a gente vai pra longe atrás de novidade ou querendo ser novidade, não nos encontremos novamente, por ventura…”.

Assim mesmo. Sem deixar nome, beijo, telefone… Só vontade.


02 – Brinquedo


Passei meses tirando alguns finais de semana para vez ou outra passar disfarçado pelo local do nosso primeiro encontro, ver se dava sorte de encontrá-la novamente, ou, quem sabe, encontrasse seu sapatinho de cristal. Quando desisti de procurar, foi aí que a reencontrei. E sabe o que é melhor? Foi em um daqueles dias que a gente sente uma louca vontade de ir para longe… Longe de tudo e de todos, atrás de novidade. Assim que entrei no ônibus, ao passar pela catraca, pude reconhecê-la de costas sentada sozinha na parte esquerda do meio, olhando para a rua pela janela. Impressionante! Sentei no banco de trás e colei meu nariz em seus cabelos, inspirei profundamente, sentindo o mesmo perfume e creme capilar daquele dia. Senti-me vampiro analisando a presa perfeita que acabou de encontrar.

– Doces ou travessuras, querida? – sussurro por cima de seu ombro direito.

Como quem tivesse tomado pequeno susto ou sentido subir arrepio na nuca, se esticou toda no banco, jogando lentamente a cabeça para trás do encosto, soltando suspiro lento e carregado:

– Não acredito. – disse, sem virar.

– É o mesmo perfume daquele dia. – digo fechando os olhos e tendo flashes do final daquela noite.

– É o que uso quando quero ser novidade. – leva as mãos para trás, laçando minha nuca e me puxando para mergulhar o rosto em seus ondulados.

– Bom! Muito bom mesmo… – inspirando novamente aquele cheiro gostoso. – Pois hoje é outro daqueles dias que estou à procura de novidade. – encostei a testa nas costas de sua cabeça, por cima dos cabelos, roçando a ponta de meu nariz em sua nuca.

– Será que tem como ser novidade duas vezes? – pergunta com a voz tremida e baixa, juntando os ombros, encolhendo o pescoço.

– Tem! E como tem. – sussurro. – Naquele dia foi embora e não deixou nome, nem telefone, nem nada.

– Sentiu saudade foi? – voz mais firme, tentando resistir as minhas carícias.

– Vontade!

Sentou-se de lado e ficou com o rosto de frente. Finalmente, contato visual. Aquele olhar de moleca marota fatal. Ficamos nos encarando como da primeira vez, em silêncio, mas dessa vez estava com sorriso tentador nos lábios, de quem sabia manipular bem os efeitos que conseguia causar em mim, pobre mortal a seu serviço, carnalmente!

– Onde vai? – pergunta.

– Acha mesmo que sei? Nem olhei o número desse ônibus… Só fiz sinal e cá estou.

– Então é assim que faz? – morde o lábio inferior. – Me conta como fez naquele dia? Como foi parar em um lugar que não conhece? – cruza os braços sobre o encosto do banco e apoia o queixo neles. Seu rosto estava quase vinte centímetros longe do meu e os seus olhos pareciam penetrar a minha alma.

– Ainda em casa desliguei o celular e decidi que pegaria o primeiro ônibus que surgisse… – não conseguia tirar meus olhos de seus lábios pintados com batom cor de pêssego. – E desceria em qualquer lugar que eu desconheço. O primeiro que peguei só passava por lugares que já tinha até enjoado de frequentar. – subi meus olhos aos dela. – Foi o segundo ônibus que me levou a “lugar qualquer que fosse”. – brinco aos risos. – Pedi sugestão ao motorista, e me aconselhou aquele bar.

– Interessante. – aproxima mais um centímetro do meu rosto, e, agora, não tirava os olhos dos meus lábios, pintados com o tom mais natural de: “me cala e me beija”.

– E você? – pergunto antes de tentar aproximação.

Recua bem na hora que tento arrancar-lhe um beijo. Segurava no encosto do banco com os braços esticados, aquele sorriso tentador e, dependendo do ponto de vista, sarcástico, sem dizer uma única palavra. Ficamos nos encarando. Não sei dela, mas eu estava cada vez mais sedento por aquele beijo de Deusa, louco para que se despisse logo de mulher e me levasse ao Paraíso.

– Senta aqui ao lado meu, vem. – diz ajeitando-se no banco.

Rapidamente levanto e sento. Enquanto admirava sua beleza, ela olhava para a rua pela janela. Parecia que, novamente, estava sob o efeito de sua hipnose. Não conseguia dizer nada, só vislumbrá-la ali ao meu lado, cheirosa, despertando desejos carnais. Era fato que tinha me apaixonado por aquela novidade fascinante e misteriosa. Aquela Deusa vestida de mulher mortal… Fatal! Dentro de um lindo vestido vermelho a transformando em minha Rainha de Copas. E eu de bobo, querendo ser Rei! De repente me olha:

– Queria que tivesse deixado meu nome e telefone naquele bilhete? – humedece suavemente os lábios com a língua.

Assenti sem tirar meus olhos daquela cena em seus lábios.

– Tive uma ideia. Me encontrou hoje, de novo, e sem querer, certo?

– Corretíssimo, minha cara.

Olhou para a rua por alguns segundos e voltou a me olhar com sorriso adolescente e sapeca:

– Faremos o seguinte. – passa a mão direita nos cabelos, parando no pescoço. – Continuaremos deixando esses encontros por conta do destino. Sempre que nos encontrarmos, saberemos algo novo sobre o outro no fim do encontro… – volta os olhos para a rua. – Lembro-me de ter visto algo parecido em um filme… Só não lembro o nome.

– Lembro-me do filme, mas… Como assim?

– Hoje, por exemplo.  No final desse encontro, vou lhe dizer algo sobre mim. Minha cor predileta, nome, data de nascimento… Sei lá! – ri. Me encara. – Mas entendeu a ideia?

Respiro fundo, cruzo os braços:

– Interessante. – solto forte o ar dos pulmões.

– E você me diz algo sobre a tua pessoa. – passa lentamente a palma da mão direita no meu rosto. Que pele macia! Me fez até fechar os olhos involuntariamente.

– Gostei. Gostei do jogo. – continuo de olhos fechados sentindo seus dedos saírem aos poucos de meu rosto. – E se não nos encontrarmos mais? E se nosso próximo encontro demorar anos? – eu e meus “e se”.

– Seja o que o destino quiser. – me dá um selinho. – Sabe-se lá o que reserva para nós? – pisca e levanta. – Vamos, venha! – puxa a cordinha do ônibus. – Algo me diz que devemos descer aqui. – ri – Anda! – passa na minha frente e vou logo atrás, sem pensar duas vezes.

Descemos perto de uma praça em um lugar qualquer e desconhecido, pelo menos para mim. Era uma daquelas praças movimentadas e com muitos bares, e que sempre ficam cheias até altas horas da madrugada. Entreolhamo-nos e ela sorriu.

– Que tal?

– Estou contigo e não largo.

Sentamos à mesa do bar mais próximo, que por sinal era o mais vazio e mais “chique”. Por incrível que possa ser, parecia até daqueles bares de filme americano, mas ao ar livre. O garçom veio, passou pano na mesa e nos perguntou o que beberíamos. Apenas olhei-a, que logo pediu uma Antártica bem gelada e dois copos. Já eu, pedi porção de churrasco misto e de fritas.

– Com fome? – ela pergunta franzindo a testa.

– Para distrair o estômago. – ajeito-me na cadeira, sem graça com a pergunta e me sentindo acima do peso. Palhaçada.

Acendi um cigarro e antes de colocar o maço na mesa, reparei que ela tinha paquerado a brasa como na primeira vez que nos encontramos. Dessa vez, sem pedir, foi logo pegando e tirando um. Curvou-se em minha direção, ainda sentada, e dei-lhe fogo novamente. E lá estavam seus olhos presos, por segundos, na direção da brasa, aumentando a minha curiosidade.

– Notei que sempre que acende um cigarro, você fica olhando pra brasa.

– E você não? – sorri jogando a fumaça para o lado. – Assim sabemos que está realmente aceso. – brinca.

– Mas até quando outra pessoa acende você fica namorando a brasa.

– Sério? – faz uma careta engraçada e cruza os braços sobre a mesa, como da primeira vez. Parecia que estávamos repetindo tudo. Como se estivéssemos encenando a mesma peça em outro teatro.

Afirmo com a cabeça.

– Nunca reparei isso.

– Tenho mania de ficar notando pequenos detalhes.

O garçom chega com a cerveja e dois copos. Coloca-os sobre a mesa, os enche e diz que as porções demorariam por volta de dez minutos. Pegamos nossos copos e erguemos no ar:

– Um brinde… – dizia até ela completar a frase.

– Ao acaso! – e bebe.

– Ao acaso. – concordo e a acompanho. – Mas me diz… – coloco o copo na mesa. – Eu lhe disse como fiz da última vez e você não me disse como foi parar naquele bar. – queria saber sobre o homem grude.

Continuou calada. Tinha essa mania de responder com silêncio, sorriso tentador e me encher de interrogações e exclamações com os olhos. Aquilo me dava uma sensação maravilhosa de ficar no impasse de perguntar ou admirá-la em silêncio. Mas sempre preferia esquecer a pergunta e continuar mantendo aquela interessante conversa de olhares e sorrisos. Notei um Jukebox no bar.

– Olha que bacana. – aponto para a máquina e faço piada: – Aqui não tem videokê, mas temJukebox.

Solta gargalhada gostosa:

– Vai pôr algo para eu ouvir?

Olhei para a máquina, depois para ela. Por fim voltei os olhos para a máquina, levantei e fui. Aquele velho esquema de quatro músicas por dois reais, e ainda podia ganhar cerveja, se estivesse com sorte. Mas minhas fichas de sorte estavam todas com aquela Dama de Copas. Sabe como é… Certo? Fora que é sempre nessas máquinas, que, às vezes, a gente encontra artistas e músicas que não lembra mais a existência. Comecei a ver tanta coisa boa, que há tempos não ouvia, e fiquei sem saber o que pôr. Demorei tanto, que minha Deusa veio até mim. Senti sua mão esquerda pousar suavemente nas minhas costas.

– Não encontrou nada bom?

– Pelo contrário, tem tanta coisa boa que há tempos não ouço… – passava as páginas. – Agora estou com uma dúvida cruel sobre o que pôr para ouvirmos. Tem alguma preferência?

– Faz o seguinte. – segura em meus ombros e me vira de frente para ela, ficando assim, de costas para a máquina. – Vou passando e você diz quando devo parar. – olhava para o visor. – Na página que parar, eu enumerarei os artistas e irá escolher um número… Daí eu lhe direi o número de faixas que tem e escolherá uma. Simples e fácil, não?

Cá entre nós… Foi uma ideia de mestre! Que criatividade! Gostei de cara e concordei. Fechei os olhos e fiquei ouvindo o “tec-tec-tec” frenético que as teclas faziam enquanto ela batia nelas com força e rapidez.

– Para!

– Um, dois, três ou quatro?

– Um.

– Treze faixas.

– Sete.

E começou a tocar “O Astronauta de Mármore”, da banda Nenhum de Nós.

– Está aí uma banda que não ouço há séculos. – digo, virando-me de frente para a máquina.

– Vira de novo para escolher a próxima.

Repetimos aquele procedimento até terminar de escolher as canções. Quando voltamos para a mesa, as porções de churrasco misto e de fritas já estavam à nossa espera. Ao som da nossa playlist aleatória, e misteriosa para mim, fui aos poucos descobrindo o que tinha escolhido. Devoramos o aperitivo e três garrafas de cerveja. As pessoas ao redor deviam estar achando que éramos casal mudo, pois não trocávamos nenhuma palavra, apenas olhares e sorrisos maliciosos, uma golada e outra, um cigarro ou dois, e uma seduzida ou outra com as fritas. Maravilha!

Tocou músicas que não ouvia há tempos, como: “Uma noite” da banda Tihuana;Espere por mim morena” do Gonzaguinha; e “Vá morar com o Diabo” da Cássia Eller. Pedimos outra cerveja e acendemos juntos nossos cigarros, no mesmo fogo. Ela, como sempre, namorando a brasa.

– É engraçado. – digo enquanto espero o garçom.

– Eu olhando para a brasa? – brinca aos risos.

– Não. Na verdade, também. É que a gente mal conversa, quase não fala nada.

– Isso lhe incomoda? – me encara com expressão diferente, que até então eu desconhecia. O garçom enche nossos copos, coloca a garrafa na camisinha e sai.

– Não! Na verdade gosto… E muito.

– É muita novidade pra você? – passa lentamente a ponta da unha do indicador no lábio inferior de um sorriso extremamente sexy.

– Pra ser sincero, está sendo sim. – não consegui tirar os olhos daquela cena. – Mas nunca é demais. Meu coração é forte, aguenta.

A unha deu lugar para a língua humedecer os lábios, seguido de uma mordiscada no lábio superior. Nossa! Como aquilo me esquentou. Fiquei mudo e hipnotizado. Quando levou o cigarro à boca e deu uma tragada, consegui voltar meus olhos aos dela.

– Você é muito sexy, mulher! – confesso com a respiração prestes a ofegar.

Apenas sorriu como se fosse óbvio, e eu o último a perceber o que era capaz de causar, principalmente em mim. Passou as mãos no cabelo, olhando para o chão ao seu lado esquerdo e eu só acompanhando cada novo detalhe que me apresentava. Madeixas de cabelo caem por cima do lado direito do rosto, sombreando o mesmo. Olhava-me por detrás deles enquanto passava a mão na nuca. Tinha um jeito de olhar que me deixava com louca vontade de manter aqueles olhos presos em mim por horas, mas ela sempre só deixava durar poucos segundos, como se quando eu estivesse perto de flutuar para longe da realidade à nossa volta, ela se fazia de chão e fixava meus pés nela, e eu voltava para o planeta Terra. E não foi diferente nem durou tanto tempo, ela logo se ajeitou na cadeira, jogou os cabelos para trás e sorriu maliciosa me encarando.

– Quer ir para outro lugar? – pergunta. – Responde rápido!

Lembrei logo. Era o mesmo que eu havia dito no nosso primeiro encontro, mas não sabia se ela queria encenar aquele dia em papéis diferentes ou se só estava usando a mesma pergunta, sem querer. Arrisquei na primeira opção:

– Por quê?

Solta uma gargalhada gostosa e bate palmas mudas:

– Muito bom. Você lembra.

Foi a minha vez de rir alto, não aguentei. Tive até que pôr as mãos na boca para tentar abafar.

– O que houve? – pergunta curiosa, sem entender minha reação.

– Me lembrei da gente correndo e o carinha lá vindo atrás da gente, ziguezagueando todo bêbado, quase caindo, e aos berros.

– Foi realmente engraçado. – olha para o lado.

Controlei a risada e me ajeitei. Respirei fundo. Dei um gole carregado e enchi nossos copos.

– Falando nisso… Encontrou com ele depois daquilo? – tento retomar minha investigação.

Negou com a cabeça enquanto puxava um cigarro do maço. O acendeu. Preciso dizer que namorou a brasa? Enfim…

– Agora é sério. – disse antes que eu fizesse outra pergunta. – Quero recordar aquele ótimo fim de noite. – outro sorriso malicioso e aquele olhar tentador que já deve estar me deixando chato.

– E para onde vamos?

– Ué… Não é pegando a primeira condução que aparecer para qualquer lugar?

– Será que tem algum motel por aqui pela região? – olhava ao redor.

– Não sei. – fez uma pausa. – Mas podemos fazer o seguinte… – olhava para um ponto fixo atrás das minhas costas, com a cabeça erguida e expressão pensativa. – Tem um táxi parado bem ali. – apontou com a mão direita.

Virei-me e voltei a olhá-la após avistá-lo.

– Podemos pedir para que nos leve ao Motel mais próximo.

– Ou podemos ir lá pra casa. – aposto na sorte, esquecendo que estava toda nela.

– E estragar toda a brincadeira? Definitivamente não! – meneava a cabeça.

Ficamos nos encarando sem dizer nada, até que ela levantou, pegou a bolsa tiracolo e passou as alças no ombro:

– Vai ficar parado? – joga o cigarro longe. – Paga a conta enquanto vou ao banheiro. – lançou-me uma piscadela e saiu.

Fiquei ali, completamente estático, olhando seu quadril dançando em direção ao banheiro. Para mim, por mais que eu tenha começado aquilo tudo, era estranho. Cada vez mais ela conseguia causar efeitos, que até então, eu desconhecia. Parecia até filme ou livro… Tanto faz. Já tive paixões, me envolvi em muitos relacionamentos… Mas aquilo ali era completamente diferente de tudo que já tinha vivido. Estava me envolvendo com alguém que eu sabia bem cada detalhe do corpo, do beijo, do sexo, dos trejeitos… Já até podia fazer tutorial bem feito! Porém, não sabia nome, endereço, telefone, os livros prediletos, os artistas em comum e os eteceteras que havia naquele brinquedo – que por sinal, não tinha quebrado na primeira noite –, naquela Deusa, na minha Dama de Copas. Minha? Oi? Então…

Minutos depois que entrou no banheiro, levantei e fui até o balcão. Paguei a conta e fiquei na calçada do bar esperando. Quando chegou, deu-me a mão sutilmente. Olhei-a. Sorriu corada com os olhos fechados. Foi um sinal de que tudo aquilo que eu estava sentindo, poderia muito bem estar se passando dentro dela também, mas, acho que ela sabia disfarçar melhor, o que já não era o meu caso. Não sei o que deu em mim, quando vi, estava beijando-a na testa. Sou aquele tipo de cara que realmente leva a sério sobre um beijo na testa ser sinal de respeito, afeto. E só faço isso com familiares, namorada, noiva ou esposa de algum amigo… Ou por quem estou apaixonado.  Antes que dissesse alguma coisa, corri:

– Ele está vindo. – improviso aos risos.

Corremos até onde se encontrava o táxi. O motorista, que estava encostado no capô do carro lendo jornal, não entendeu nada quando nos viu entrando e fechando as portas. Entrou todo afobado no carro, e com os olhos arregalados nos encarou perguntando o que estava acontecendo. Aos risos dissemos que não era nada e pedimos para que nos levasse ao Motel mais próximo. Não sei se não gostou da brincadeira ou se estava brigado com a esposa ou se aquele mau humor era normal, mas não foi bem amistoso o jeito que se despediu após nos deixar na frente de um Motel, aparentemente, mal localizado.

Enquanto subíamos a rampa de entrada:

– Onde será que estamos? – pergunta.

Era uma rua sem boa iluminação e deserta.

– Não faço a mínima ideia.

– Pelo preço que te cobrou, deve ter nos deixado onde Judas se perdeu pela primeira vez na vida, quando ainda era uma criança inocente e inofensiva, não negava nem pão. – solta uma risada gostosa. – Só para nos sacanear pela brincadeira.

Entramos e fomos correndo para o quarto. Meu coração já disparou só ao abrir a porta e saber que estava prestes a ser levado ao Paraíso, e que uma Deusa surgiria a minha presença em alguns segundos. Enquanto ela se despia, pude notar bem, detalhes que não havia percebido na primeira vez e que só intensificavam a sua imagem de Deusa nua. Sua beleza era fora do comum, em curvas bem feitas, pele macia, sorriso angelical e, algumas vezes, pervertido. Não tinha erro, realmente não era mulher comum ou normal. Melhor, não era mulher. Já disse, repito e insisto, e já estou sendo chato com isso… Era uma Deusa!

O beijo estava mais doce, o toque tinha mais vontade, o gemido estava mais alto, a respiração ofegava mais, e eu estava mais entregue que da primeira vez. Não preciso dizer que novamente conseguiu me dar o melhor sexo da minha vida. Preciso?

Horas depois paramos para descansar. Éramos daquele tipo que depois de uma boa, teria de haver a pausa para o cigarro e relaxa. Fiquei sentado com o lençol por cima das pernas e ela deitada sobre elas, olhando-nos pelo espelho no teto:

– Pode me dar dinheiro para o táxi? – pergunta soltando a fumaça pelo canto da boca. – Dá última vez foi caro. – sorri. – E imagino que agora vai ser mais.

– Posso sim, com certeza. Se quiser eu te reembolso pelo que gastou na última vez.

– Não… Não precisa.

Com cuidado tirei sua cabeça de minhas pernas, coloquei um travesseiro no lugar e fui até onde minha calça estava jogada. Tirei a carteira do bolso e dedilhei as notas.

– Setenta está bom?

– Não. – ajeitou-se na cama, deitando de bruços. Abraçou o travesseiro e olhou em minha direção sorrindo. – Cinquenta está.

– Tem certeza?

– Absoluta!

– Positivo, então. – tiro a onça. – Vou colocar aqui na sua bolsa.

– Tudo bem.

Coloquei a carteira de volta na calça, os cinquenta em sua bolsa e voltei para a cama. Sentei ao seu lado. Enquanto a mão esquerda segurava o cigarro já na metade, a mão direita navegava pelos seus cabelos. Ela de olhos fechados, sentindo minhas carícias.

– Sabe que estou gostando muito desse nosso jogo? – com aquele sorriso angelical, que era um dos motivos de minhas mortes recentes.

– Eu também. É completamente diferente de qualquer coisa que eu já tenha vivido.

– Exatamente! – abriu os olhos. – É isso que torna mais interessante… E acho que era isso que você queria dizer naquela hora.

O silêncio reinou enquanto nos encarávamos. Era fato, a paixão já tinha tomado conta de nós. Só não sei especificar se era paixão pelo jogo ou pelo jogador, mas, naquele momento, isso pouco importava. Quando matamos o cigarro, começamos a matar a vontade que foi ressuscitada com mais vigor. E mais uma vez, me levou ao Paraíso, sem pudor algum.

Acordei no meio da madrugada com o barulho da porta do banheiro. Estava arrumada, com sua roupa de mulher, e pelo visto já iria embora. Olhei para o lado e não tinha bilhete. Voltei os olhos para ela, que agora me olhava da porta do quarto.

– Já vai? – pergunto com a voz sonolenta, me espreguiçando.

– Está na minha hora. – abriu a porta.

– Mas e o lance de sabermos algo e tal? – fico deitado de lado, com o cotovelo pousado na cama e a cabeça apoiada na palma da mão.

– É verdade… – fechou a porta e veio na direção da cama. – O que tem pra mim?

– Como assim? – pergunto sem entender.

– O que vai me dizer de ti? – sentou na beira da cama.

– Não sei. – me ajeito sentando no meio, de frente para ela.

– Me chamo Dominique. – diz estendendo a mão.

– Logan. – cumprimento-a.

Nesse momento, parecíamos duas crianças se conhecendo no primário.

– É sério? – perguntou fazendo cara engraçada, descrente.

– Já estou acostumado com esse tipo de reação. – sorrio sem jeito. – Ninguém nunca acredita que meu nome é Logan. Meu pai era muito fã do Wolverine.

– Aquele dos X-Men?

– Exatamente. – coço a cabeça, embaraçado. – E pode rir. Mas gosto do meu nome.

– É bem diferente. Então… Tem que gostar mesmo. – levanta. – Bom, meu querido Logan. – sorri. – Até a próxima. – e foi caminhando na direção da porta.

– Como tem tanta certeza que nos encontraremos de novo? – pergunto intrigado com sua certeza. – Podia deixar seu telefone. – aposto na sorte outra vez, ela podia ter voltado para mim na hora da despedida.

– Acredite no destino. – abre a porta e me olha. – No próximo encontro, quem sabe eu não lhe dê meu número. – pisca e vai embora.

E fiquei ali na cama feito criança abandonada. Brinquei mais uma vez e não quebrou. Será um bom sinal?


03 – Caçador


Depois daquele dia, tudo que veio a seguir me fez pensar ter sido o último encontro, e que tinha desperdiçado a única chance de mudar o jogo a meu favor, poder fazer contato e tomar as rédeas do destino. Se tivesse insistido em ter seu telefone, poderia estar sendo eu quem determinava quando seria o próximo encontro, local, data e hora. Até por que, já não era novidade, mas sim vício! E dos bons! Estava completamente viciado, entregue, vulnerável e não havia como negar. Precisava que aquele brinquedo fosse definitivamente meu. Tinha de ser!

Durante um ano e meio me envolvi com outras pessoas, mas a cabeça sempre estava naquela Deusa. Os novos beijos não eram tão quentes, os toques não tinham a mesma vontade, os gemidos não eram tão prazerosos e a respiração não ofegava tanto quanto a dela, nem a minha era a mesma. Me sentia outra pessoa. Nesse momento já havia desistido de dizer a mim mesmo que não estava viciado, foi quando a realidade caiu de verdade. Precisava daquilo nem se fosse por uma nova última vez ou por apenas cinco minutos. Só mais uma dose, por favor! Será que existia algum D.A.? Dominique Anônimos, ou algo parecido? Se existe, é o que estava precisando naquele momento. Mas quem tinha o telefone? Até hoje, nem pensei em procurar no Google, o novo pai dos burros, na minha humilde opinião. Dicionário contente-se em ser, agora, o avô dos burros!

Quando estava próximo de completar dois anos, a reencontrei. Não era um daqueles dias que a gente sente louca vontade de ir para longe. Longe de tudo e de todos, atrás de novidade. Era uma daquelas minhas novas noites, que a esperança nunca morre e você vê a mesma pessoa em todos os rostos pelas ruas e avenidas, fissura sem igual. Sei lá. Mas aquele rosto do outro lado da rua, daquela mulher em um mesa de bar, soltando fumaça por sorriso sem outro igual e me encarando… Era ela! Definitivamente era ela! Sozinha com garrafa de cerveja e o copo pela metade. Seu cabelo estava pouco mais curto que o de costume, ela com blusa cor lilás escuro e saia preta, daquelas saias que começam no umbigo e terminam no meio das coxas… E que coxas, não? De longe não dava para ver os sapatos. Mas de que importaria saber se eram sapatos, chinelos, galochas ou botas de cano longo com esporas? Sapatos sempre são pertinentes só para as mulheres. O que me importava era que o destino acertou, outra vez, mesmo tendo demorado tanto… E põe ênfase nesse tanto! Então, mesmo assim, muito obrigado, destino.

Atravessei a rua, ainda desacreditado. Até por que, vai que estava começando a ficar louco o suficiente para ver miragens, como água no deserto? Como sorria para mim, e como aquele sorriso tinha me causado gostoso arrepio e suave calafrio… Tinha que ser ela, não podia ser outra. Só tive certeza absoluta quando cheguei bem próximo à mesa. Alívio!

– Boa noite, Logan. – diz, me encarando com aqueles olhos… Ah! Aqueles olhos!

– Boa noite, Dominique. – digo, com sorriso de orelha a orelha. Não dava para segurá-lo, nunca fui bom ator.

– Senta. – aponta para a cadeira à sua frente. – Fique à vontade, por favor.

Agia como se soubesse que nos encontraríamos ali, naquele dia, naquele horário, naquele instante… Naquele tudo! Impressionante! Nesse dia comecei a desconfiar que pudesse ser cigana, bruxa ou feiticeira. Sentei tentando esconder o quanto estava embasbacado e desacreditado. Dessa vez, foi ela quem acenou para o garçom e gesticulou que trouxesse outro copo.

– Como vai, você, Logan? – pergunta. E como adorei ouvi-la dizendo meu nome.

– Sinceramente… – sorrio involuntariamente junto de suspiro de alegria. – Melhor agora.

O garçom pôs o copo na mesa e saiu.

– E você, Dominique? – pergunto enquanto encho meu copo. Como era bom chamá-la pelo nome. Pelo menos isso, não?

– Estou bem.

E me deixou sem saudade daquele sorriso angelical, que já me matou várias vezes.

– Quanto tempo…

– Quase dois anos, não é? – pega o maço na mesa e me oferece cigarro. – Quer?

– Sim, e não. – sorrio pegando cigarro de meu maço. – Raramente me encontrará sem cigarro… E seu maço é branco. – acendo e ela me deixa matar outra saudade: a de vê-la paquerando a brasa do meu cigarro. – Sou mais chegado a filtro vermelho.

– Me esqueci desse detalhe.

– Só fumo branco quando estou sem e só tem gente com filtro branco por perto, mas é preciso fumar dois pra matar a vontade de fumar um vermelho.

– Entendi. Não disse que nos encontraríamos novamente? – agora era aquele sorriso malicioso que até então nunca tinha me impactado tanto quanto naquela noite. Devia ser por conta da enorme abstinência.

– Cheguei a pensar que não nos veríamos novamente… – assumo sem graça. – Admito.

– Compreendo. Tanto tempo se passou…

– Não ter conseguido seu telefone tem me destruído esse tempo todo. Mas hoje é o dia que terei seu telefone. – sorrio encarando-a. – Não é?

– Então… – sorri de volta, ignorando meu verde. – Indo pra mais uma daquelas noites?

– Não. – olho em seus olhos. – Não tenho mais noites daquelas há tempos. – mato o copo em uma golada, cheio de sede. – E você? – encho nossos copos.

– Também não tenho mais noites como aquelas.

– Já tenho a novidade perfeita e não preciso mais procurá-la, só preciso conseguir seu telefone. – bang!

É… Eu sei. Maldita afobação! Mais uma das vezes que as palavras saem sem autorização da boca. Quando fui ver já era tarde para fincar os dentes e calar a boca, morder as palavras antes de formarem a frase. O silêncio reinou. Ficamos nos encarando calados. Não era nenhum dos olhares já trocados antes, era novo. Não sei se posso dizer que desconhecíamos até então, mas posso afirmar que eu desconhecia. Seus olhos não estavam tão otimistas, seguros e firmes como os de sempre. Parecia que eu tinha dito algo que a matou por dentro e quebrou suas defesas externas, pois era visível a mudança. Cheguei a pensar que, naquele exato momento, tinha acabado de jogar tudo para o alto e findado o nosso jogo… Game over, motherfucker! Temi que se eu não dissesse algo para mudar de assunto, ela iria levantar, pedir a conta e ir embora sem dizer adeus, sem olhar na minha cara.

– Desculpa. – digo, totalmente sem graça.

– Tudo bem. – diz sem jeito, olhava para o copo na mesa. – Não tem problema.

– Saiu sem querer. – não conseguia manter meus olhos nela, como sempre fazia. Olhava-a, e quando correspondia, eu desviava para a pequena poça que se fazia debaixo da garrafa.

– Relaxa. – com tom confortador.

Fiquei desconfortado mesmo, com a situação que eu trouxe à tona, sem querer. Até que de repente ela coloca a mão esquerda sobre a minha e aperta com suavidade:

– Isso não irá afetar em nada nosso jogo, fique tranquilo.

– Tem certeza? – ainda cabisbaixo e parecendo cachorro abandonado, criança que não quer tirar as rodinhas da bicicleta ou dormir com a luz apagada e a porta fechada.

– Não sei o que se passa contigo. – fez pausa. – Mas… – sorri. – Acho que é recíproco. – acaricia minha mão. – Então. Repito. Fique tranquilo.

Consegui manter meus olhos nela. Odeio achismo, mas aquele ali eu gamei! Agora era ela que estava sem graça. Aquilo me deu revigorada estupenda, e depois de um silêncio com mais daquela nova troca de olhares, agimos como se nada tivesse acontecido. Aos poucos tudo foi voltando ao normal e finalmente voltamos ao jogo.

– Pra você ver como não é um daqueles dias. – diz aos risos, olhando tudo em volta. – Eu sei bem onde estamos hoje.

– Ah, é?

Fiquei curioso, pois não era longe de onde eu morava e também sabia bem onde estávamos. Acendi um cigarro só para conferir se tudo realmente tinha voltado ao normal. E creio que sim, pois ela namorou a brasa. Viva!

– Sim. – olhou em volta outra vez. – Tem um motel pra lá. – disse apontando na direção do meu ombro direito e com aquele sorriso malicioso no rosto.

Conhecia o motel. Inclusive, já conhecia pelo nome a maioria dos funcionários de todos os turnos. Já até sai com uma das atendentes… Mas não vem ao caso.

– Então hoje não estamos mais na mão do destino? – brinco.

– E quem disse que não? – morde o lábio inferior.

Fiquei em silêncio encarando-a.

– Mora por aqui? – arrisco.

Agora sim, tive certeza que tudo havia voltado ao normal. Não me respondeu… Foi daquele jeito que vira-mexe fazia quando lhe perguntava algo. Ficava calada me olhando e eu preferia esquecer a pergunta que tinha feito. Lembra? Não foi nem um pouco diferente. Ficamos em silêncio, sorrindo e se encarando. Mas algo me fez insistir na pergunta, precisava matar aquele gato, ainda tinha algumas vidas para gastar.

– Me diz… Mora por aqui?

Se morasse, seria fácil investigar e em alguns dias descobrir onde era. Mas ela me solta sorriso maroto e continua sem responder. Dou-me por vencido. Tudo bem, eu me rendo, mulher!

– Por que não vamos logo para o Motel? – ela é bem direta.

– Só se for agora!

Pago a conta e na volta, não me deu a mão como na última vez, mas laçou meu braço direito com seus braços e pousou a cabeça em meu ombro. Dessa vez vi bem quando a beijei na testa, mesmo estando com os olhos fechados na hora. Já não me importava demonstrar o quanto estava apaixonado, quase fazendo gráfico do quanto aumentava e aumentava de acordo com os encontros, as trocas de olhares e os nossos eteceteras. Paixão aos pacotes, vendidos e endereçados em seu nome, e meu coração estava sobrecarregado de trabalho, quase chegando na hora de começar a vender amor… Só para ela, a única matriz, sem filial!

Não corremos, fomos caminhando calmamente rumo ao nosso fim de noite. Parecíamos casal de namorados andando pela rua. Percebi que, em nenhum de nossos encontros, nunca havia reparado o quanto a noite sempre parecia bela, o céu estrelado e a lua linda. Às vezes, gostavam de contemplar, como holofotes, o ar da graça de uma Deusa na Terra. Assim como eu sabia, a lua e as estrelas deviam saber que era difícil ver uma dessas por aí, andando meio distraída com um molambo mal vestido feito eu – mesmo sendo normal em histórias da mitologia grega –. Ou, quem sabe, a lua e as estrelas se mordiam de inveja. Chegamos ao motel. Percebi que achou estranho, ao mesmo tempo engraçado, quando o recepcionista simpaticamente chamou-me pelo nome antes de pegar nossos documentos. Pegou mal, mas nem me importei com a gafe. E Dominique só foi matar seu gato quando entramos no quarto: – O recepcionista é amigo seu? –Não. – sorri imaginando o que passava pela sua cabeça. – É que… – jogo a isca, pensativo. – Digamos que já vim algumas vezes. – e não consigo pescar palavras melhores. – Ah, então tem carteira VIP? – brinca aos risos. – Sim e ao mesmo tempo não. – fecho a porta. Segurou firme na gola da minha camisa com as duas mãos e me puxou com força ao seu encontro. Foi tão bom matar a saudade do beijo mais quente que já senti na vida. O único que era capaz de, ao mesmo tempo em que tirava o ar, o dava de volta para mim. Como se eu respirasse o ar que ela soltava e em seguida ela o tomava de volta. Nessa bela sincronia, entre beijos, mordiscadas e “pegadas”, fomos despindo-nos da cabeça aos pés e esbarrando em tudo que havia no caminho até a cama. Pobres obstáculos. Nunca iriam nos parar! Matei a saudade e a vontade. Juro que é a última vez que digo que novamente me proporcionou o melhor sexo da minha vida! Sei que está começando a perder a graça e que não preciso mais repetir, até por que, já estava deixando de ser sexo… Para mim, já estava começando a virar amor. Fazer amor… Fizemos amor… E faremos outro, depois desse. Amém! Sentados nus na cama, naquela nossa pausa de descanso e tabagismo, eu com meu filtro vermelho e ela com seu filtro branco, resolvi não adiar mais: – Me diz logo seu telefone, vai. – Mas já? – Antes que o próximo encontro dure mais dois anos. – quase demonstrando meu desespero. Silêncio. Levantou lentamente da cama, me olhando com olhar tentador. – Vamos deixar o telefone para um futuro próximo… Ainda há outras coisas a serem ditas antes. – sorri mordiscando o lábio inferior. – Se lhe der meu telefone agora, pode estragar toda a brincadeira. Não queria insistir. Se insistisse, deixaria bem claro o tamanho que era o meu medo de não vê-la novamente, o que não deixava de ser absoluta verdade. Meu vício, minha Deusa, Dama de minhas Copas, novidade mais quente! – O que tem pra mim hoje? – pergunto. Começou a dançar sensualmente na frente da cama, me deixando todo embasbacado, salivando de desejo, olhando fixamente seus movimentos, deslizando as mãos lentamente por aquele maravilhoso corpo nu. Vai Deusa, não para. Não para! – Tenho vinte e quatro anos. – sorri. – E você? – Vinte e seis. – respondo de imediato, hipnotizado, mas pensando: “Ah, mas que porra. Por que logo a idade? Isso é injusto!”. Mas já estava tão envolvido naquela dança que não consegui revogar meus direitos. Direitos! Talvez fosse essa a intenção da dança: me distrair para aceitar qualquer coisa, qualquer migalha. Virou-se de costa para mim, apoiou as mãos no joelho e começou a mexer o quadril sensualmente, desenhando o número oito no ar. Minha cabeça seguia os movimentos daquele bumbum volumoso, duro-macio e assassino! Jogou os cabelos para as costas e ficou me encarando com olhar convidativo. Não aguentei. Bem que queria aguentar mais. Avancei como caçador e colei-me nas suas costas.


04 – Zebra


No dia seguinte já estava preparado para vê-la novamente só depois de dois anos ou mais. Cheguei a pensar em procurá-la nas redes sociais que eu fazia parte, ou até jogar seu nome no Google, mas não fazia o perfil de quem se ligava ao mundo virtual. Fora que, sem um sobrenome, quantas Dominique de vinte e quatro anos eu encontraria? Não me restava nada além de esperar o próximo encontro. As rédeas ainda eram todas do pregador de peças, destino, que dá doce quando quer e tira antes de você terminar.

As semanas foram passando e já não a procurava. Sabia que hora ou outra iríamos nos encontrar, principalmente depois da última. Assim como não tinha mais daquelas noites de sair em busca de novidade, também não tinha mais daquelas noites de sair em busca daquela novidade perfeita. Só o que era inevitável controlar: saudade, vontade, os sonhos e os flashes dos três encontros. Em uma de minhas madrugadas de insônia, cheguei a criar um blog como autor anônimo, sempre acompanhado por uma garrafa de Jack Daniel’s, um maço de Marlboro vermelho e uma playlist variada de músicas que me deixam… Melancólico. Assumo. No blog eu falava dela, como me deixava, sobre o que eu sentia, e os nossos encontros, sem me aprofundar no assunto, mas vira-mexe fantasiando um novo, que na verdade era como gostaria que fosse o próximo. Não a chamava pelo nome, apenas por Nick… Pois assim pareceria apelido carinhoso comum para alguém de nome Nicole.

Certo dia até recebi comentário em um dos posts. Alguém dizendo ser ela e que também sentia extrema saudade. Meu coração disparou quando deixou e-mail no comentário, pedindo para entrar em contato. Rapidamente abri minha caixa de e-mails e logo mandei um: “Por favor, me mande seu número, preciso vê-la novamente, ou me liga, pode ser a cobrar, mas liga”. E deixei meu número. Bom… Sabe como o álcool nos deixa… Bastante sinceros, não é? Em demasias até.

Assim que respondeu o e-mail com número de seu celular, liguei. Era sábado, por volta das nove horas da noite. Infelizmente era alguém querendo ser ela. Aquela voz não era a que eu já estava viciado em ouvir nos encontros e nos sussurros. Não teria como ser tão diferente pelo celular, por mais que a de muitas pessoas mude bastante. Foi aí que decidi parar de atualizar o blog e comecei a escrever em um caderno, só para mim e mais ninguém. Quem sabe um dia, se nós resolvêssemos ficar juntos, eu… Bom… Olha só o que a paixão faz… Fascinante!

Quase um ano depois do nosso último encontro, encontrei-a solitária passeando no Shopping à noite, parando vez ou outra na frente de alguma loja de roupas ou de sapatos ou de bolsas. Eu estava saindo do banheiro quando a vi passar distraída e imensamente linda. Não acreditava muito bem no que estava vendo. Era inverno, ela estava radiante: casaco de lã e gola alta cor azul marinho, as mangas puxadas até os cotovelos; seus cabelos estavam mais longos, metade saindo debaixo de um gorro também de lã e da mesma cor do casaco; vestia calça jeans bem justa; botas marrons de cano longo; e uma bolsa de tiracolo. Fui seguindo-a de “não muito longe nem muito perto”. De repente quando parou na frente de outra loja, pelo reflexo da vitrine percebi que me olhava sorrindo. Droga! Fui descoberto. Ainda bem que nunca pensei em seguir carreira de Detetive, não me daria bem em nenhum caso.

– Boa noite, Logan. – diz sorrindo.

– Boa noite, Dominique. – me aproximei, encarando-a pelo mesmo.

Ainda pelo reflexo na vitrina, agora mais nítido, ela me olha lentamente dos pés à cabeça e se vira, ficando de frente para mim:

– Você está lindo! – olhava para os meus lábios.

Lindo? Foi a primeira vez que a ouvi dizer aquilo. Cheguei a tremer e não foi de frio. Não estava vestindo nada de mais ou diferente do que sempre usei. Lembro que nesse dia vestia… Acho que: camisa vermelha por baixo de um confortável Giorgio Armani marrom; calça Skinny de cor azul marinho; e um tênis Nike SB de cano longo, que não saía do meu pé. Adorava aquele tênis, assim como os dois alargadores de 10 mm que só tiro para lavar, nunca troco por novos. Preguiça, talvez nem questão de vaidade ou por serem belos. Quanto ao cabelo, desde os meus dezenove anos que não mudo o corte estilo couve-flor. A barba deixo sempre na máquina um e não é para aparentar mais idade, mas por gostar mesmo. Certa vez fiz pesquisa na internet e descobri que a maioria das mulheres interessantes tem queda por barba cerrada e que há uma página no Facebook chamada: “Faça amor, não faça a barba”.

– Olha quem fala. – olhei-a da cabeça aos pés. – Está cada vez mais maravilhosa. Como consegue essa proeza?

Abraçou-me forte pousando a cabeça no meu peito, com os olhos fechados:

– Você é um amor.

Fiquei estático, sem dizer nada. As palavras se escondiam debaixo da língua. Não vamos sair daqui! Meus braços automaticamente a laçaram e meus se fixaram nela, ali em meus braços, pelo reflexo na vitrine. Alguém pode tirar uma foto, por favor? Afastou-se e segurou em minha mão esquerda com a sua direita. Foi a primeira vez que a vi de forma doce e meiga. Acho que aquela história de que meu coração iria começar a endereçar pacotes de amor no seu nome, já estava acontecendo naquele momento. Sentia-me como se tivesse voltado à adolescência e na minha frente estava a primeira paixão, primeira namorada, a futura mãe dos meus cinco filhos. Parecia que era de porcelana, e a segurava com delicadeza, como se realmente fosse.

– O que faremos hoje? – pergunta.

– Não sei. – olhei para um lado e para o outro procurando alguma dica.

– O que veio fazer no Shopping?

– Tive um dia tedioso… – bufo ao relembrar dos problemas que me levaram até ali. – Aí vim dar uma caminhada, passar na livraria para ver se encontro algo interessante para ler e comer alguma coisa antes de ir pra casa.

– Mora ou trabalha aqui perto?

– Na verdade nenhum dos dois. – começamos a caminhar de mãos dadas. – E você?

– Vim fazer compras. – fez pausa. – Mas até agora não vi nada que realmente me interesse. – não tirava os olhos das vitrines.

– Sério? – fiquei espantado e surpreso ao ouvir “não vi nada que realmente me interesse”.

– Sim… – olhou-me com as sobrancelhas arcadas. – Por que essa cara de surpreso?

– Pelo que sei sobre as mulheres, quando elas vêm ao Shopping para fazer compras, tudo que veem pela frente querem comprar.

E tive que ficar sem graça ao ver a cara que fez, como se eu tivesse falado algo absurdo. Mas vai dizer que a maioria não é assim?

– Que absurdo! – diz com tom sério. – Eu não sou assim.

Não falei?

– Desculpa, não quis ofender.

– Tudo bem. Não ofendeu. – sorri amistosa me trazendo alívio. – Não suporto gente que sai comprando tudo que vê pela frente, sem saber se vai ou não usar ou se realmente precisa. Por isso demoro a escolher. Não quero algo que chegando em casa vou deixar de lado ou usar só uma vez.

– Eu também sou assim.

– Que bom. Mas e aí? Pra onde iremos?

– Estava pensando aqui em pegarmos um cinema, depois jantarmos em um restaurante que tem no quarto piso e ter aquele fim de noite maravilhoso. – olhei-a. – E aí?

– Ótimo! – sorri apertando minha mão.

Fomos para a parte do cinema que havia no Shopping. Dominique escolheu um Romance que estava em cartaz e começaria às nove e meia. Como ainda eram oito e quarenta, sugeri dar uma passada na área de jogos para passarmos o tempo. Fiquei impressionado quando se empolgou mais do que eu com a ideia. Segurou minha mão e saiu correndo me puxando. Realmente estávamos feito dois adolescentes naquela noite. Eu com dezesseis e ela com quatorze… Ou um pouco mais. Não faz diferença, faz?

Só no fim de nossa jogatina que fui descobrir o motivo de sua empolgação. Deu-me uma lavada de cinco a um no Aero Hockey, gastou menos Continue do que eu no Cadillacs And Dinosaurs (e olha que joguei com o Mustapha-apelão e ela com a Hanna-bate-em-ninguém) e ganhou a Zebra na primeira tentativa na máquina grua de pegar bicho de pelúcia, depois de eu ter falhado seis vezes tentando pegar o maldito bicho Panda. Tem ideia do quanto isso é frustrante para quem passou boa parte da infância perturbando os pais a fim de liberarem verba para ir à parte de jogos sempre que estavam no Shopping? Não é nem questão de machismo, mas sim de quem teve boa parte da infância jogando Cadillacs And Dinosaurs, não só no Shopping, mas nos fliperamas perto de casa, perto da escola… Se você sabe bem como é, sabe o que passei e a cara que fiquei depois daquela surra.

– Você é boa com jogos. – assumo perplexo.

– Que nada. – me abraça forte. – Só está falando isso pra me agradar, seu bobo.

– Não! Juro que é verdade. – e começo a enumerar nos dedos: – Cinco a zero no joguinho de disco ali… – aponto para a máquina de Aero Hockey. – Gastei três Continues no Cadillac, jogando com o Mustapha-apelão da porra… – enfatizo o personagem. – E você gastou um com a mulher que mais apanha no jogo… – respiro fundo e continuo: – Tentei pegar o bicho Panda seis vezes na garra. – aponto para a mesma. – E você pegou a Zebra na primeira tentativa! – levo as mãos à cabeça. – Como isso? Como pode uma coisa dessas, mulher? Você é muito viciada!

Antes de terminar de falar, ela já estava em gargalhadas.

– Me diz… Como consegue? – brinco entre trejeitos.

– Para de besteira. – me abraça forte. – Você que é um lindo! Me deixou ganhar e agora está fazendo cena pra eu me sentir A jogadora.

– Não! Eu juro! Não sou tão romântico a esse ponto… Principalmente quando se trata de jogos. Tanto é que ainda estou perplexo com você ter conseguido jogar tão bem com aHanna. – essa parte falei bem “sério”.

– Sério? – arqueou as sobrancelhas.

– É a pessoa mais viciada que já conheci na face de toda a terra que pisei! – brinco aos risos.

E cai em gargalhadas de novo. Laçou meu braço direito com o esquerdo e não desgrudou da Zebra no braço.

– Obrigado pela Zebra. – me dá beijo na bochecha. – Vamos logo para o cinema, já são nove e dez.

Compramos pipocas, dois copões de refrigerante e fomos para a sala onde passaria o filme. Sentamos na última fileira, nas duas cadeiras do meio. As luzes já estavam apagadas e passava o informativo pedindo para desligarem os celulares e todo aquele blábláblá.

Era um daqueles filmes que até o cara mais frio e insensível do mundo deixaria escapar uma lágrima pelo canto do olho e não teria como dizer que foi um cisco ou algo do tipo, pois todos os caras insensíveis que estivessem naquela sala, estariam com o mesmo cisco no olho, então… Impossível! Quando o filme acabou, ela chorava de soluçar agarrada no meu braço esquerdo, com a Zebra no colo, e lamentava:

– Ele não tinha que morrer, eles se amavam tanto! – dizia dando fungadas de nariz. – Não gostei desse final! Esse filme é muito chato!

Parecia até eu quando criança chorando pela morte do Mufasa no filme O Rei Leão. E, sinceramente? Se eu fosse dizer algo, diria: “– Concordo plenamente!”. Preferi ficar calado, limpar seus olhos cheios de lágrimas e consolá-la. Incrível como ela estava sensível naquele dia. Todo mundo já tinha saído da sala e lá estávamos nós dois, do mesmo jeito desde que o filme terminou. Não parava de chorar e eu cada vez mais sem saber o que fazer ou dizer, até que um dos funcionários do cinema, vulgo “lanterninha”, veio e pediu para que saíssemos, pois já abririam as portas para a próxima sessão. Só para você ter ideia do quanto demoramos a sair daquela sala.

Foi correndo até o banheiro, abraçada a Zebra, enquanto fiquei plantado lá fora esperando, completamente comovido com sua reação. Dava para ouvir seus soluços diminuindo aos poucos. As pessoas que passavam pela porta do banheiro, olhavam assustadas e em seguida na minha direção, me fazendo ficar com tremenda cara de babaca sem reação. Alguns olhavam com expressão que me passava a mensagem de: “Por que você terminou com ela, seu monstro?” ou “Por que você a traiu? Seu insensível!”. Foda isso. Foda ruim!

Fiquei impressionado com sua sensibilidade naquele dia, e, admito que assustado também. Quando saiu do banheiro, estava sem maquiagem, com a cara avermelhada e os olhos cansados de tanto chorar. Deu-me até dó vê-la naquele estado. Abraçou-me forte e não dissemos nada, só um suspiro mútuo de alívio. Meio que a ficha caiu: “Acabou, foi só o diabo de um filme muito tocante!”.

– Vamos jantar logo. – diz após pigarrear.

Para mim, iria querer ir embora, mas realmente aquela mulher não era nem de perto parecida com todos os tipos de mulheres que já conheci e me envolvi. Não sou nenhumMartinho da Vila, mas já tive mulheres…

Fomos ao quarto piso. Era um restaurante com ambiente ao estilo Francês – tenho certa fissura por tudo que carrega a bandeira francesa e não sei qual é a raiz desse problema –, com fotos, quadros e etc. Entramos e notei seus olhos curiosos percorrendo todo o local, igual criança em museu de artes.

– É um Restaurante Francês? – pergunta olhando para o enorme quadro da Torre Eiffel que tinha na parede da mesa que o garçom escolheu para sentarmos.

Oui, chérie. – diz o garçom simpático forçando ter sotaque francês falando português e com cara de mexicano-australiano-nordestino. – O que vão ‘querrer’, oui?

– Assim que escolhermos lhe chamo novamente.

Ficou olhando-o se afastando e assim que sumiu da vista, curvou-se na minha direção sobre a mesa:

– De que ele me chamou? – pergunta curiosa com as sobrancelhas erguidas.

– “Sim, querida”. – digo achando graça. – Escolhe o que iremos comer.

Conseguia ver seus olhos por cima do cardápio aberto à sua frente, de cabeça para baixo. Aos poucos foi franzindo a testa cada vez mais, com semblante de quem não estava entendendo patavinas do que estava vendo.

– Logan… – me olha com expressão entediada. – Tem um monte de nome estranho aqui. – volta os olhos para o cardápio. – Como vou saber o que é de comer ou não? Isso é Japonês ou Francês? Não gosto de peixe cru! – faz cara desconfiada. – Vai que eu peço rato achando que é galinha? No Japão eles vendem baratas no espetinho, sabia?

– Me esqueci desse detalhe. – com muita luta consegui segurar o riso. – Desculpa. – peguei o outro cardápio que estava na mesa.

Fechou o que estava em sua posse e o colocou sobre a mesa. Cruzou os braços. Bufou. Olhava para um lado e para o outro e a mesa começou a dar leves tremidas conforme seus joelhos a tocavam pelo bater de pés inquietos no chão. Olhei-a por cima do cardápio e confirmei o seu tédio.

– Não gostou daqui? – pergunto fechando o cardápio.

– Ah… – outra bufada. – É muito chique pra mim, Logan. – apoiou os cotovelos na mesa. – Prefiro ir pra um sujinho da vida, beber uma cervejinha brasileira e comer bastante fritura brasileira. – ri. – Faz mais a minha cara, sabe? – olha em volta. – Aqui não pode nem fumar… – curvou-se em minha direção. – E eu já estou ficando nervosa com tanta frescura. – sussurrou.

Nesse momento fiquei me perguntando onde estava àquela sensibilidade toda que vi minutos atrás, após o fim do filme.

– Tudo bem. – levanto. – Vamos pro sujinho que tem aqui na calçada do Shopping. É até bom por ser perto do ponto.

– Agora está falando a minha língua. – sorri e estica os braços para o ar, vibrando.

Saímos dali direto para o bar na esquina do Shopping. Sentamos em uma das mesas na calçada e ela colocou a Zebra em cima da cadeira ao nosso lado. Quando o garçom se aproximou, pedimos cerveja, dois copos e uma porção de frango a passarinho.

– Bem melhor não? – sorri feliz da vida, acendendo seu cigarro.

Apenas sorrio de volta. O garçom trouxe a cerveja, colocou os dois copos e a camisinha na mesa. Encheu-os e encaixou a garrafa.

– Falta o copo da minha querida amiga Zebra aqui. – diz apontando para o bicho com uma expressão tão séria que até eu acreditei que o bicho de pelúcia fosse beber.

– É sério? – pergunta o garçom depois de longos segundos conferindo se era realmente uma Zebra de pelúcia a quem Dominique se referia.

– Nossa! – correu com as mãos para a cabeça do bicho. – Não dê ouvidos a esse garçom insensível, querida Zebrinha. – volta os olhos para o garçom, faz cara feia. – Pode fazer esse favor ou está difícil? Se for rápido eu agradeço, se demorar eu espero!

– Me perdoe… Tudo bem. – diz o garçom saindo assustado.

Assim que saiu, ela olhou-me e caiu nas gargalhadas. Não sei se pela cara de assustado que eu fazia ou se pela situação que acabara de criar.

– O que foi Logan? – e não parava de rir.

– Você é muito doida, mulher! – foi a minha vez de rir.

O garçom voltou correndo com um copo e colocou na mesa, tratando logo de enchê-lo. Saiu com expressão de medo olhando para Dominique. Devia estar pensando: “Essa louca acabou de fugir do hospício”. Peguei meu copo, ela o dela e o da Zebra, e erguemos no ar, batendo um no outro de leve:

– Um brinde a essa noite maravilhosa que estamos tendo. – diz. – E a nossa querida amiga Zebrinha!

– Exatamente! – acompanho.

– Logan… – dá forte tragada no cigarro, olhando para a brasa. – Me fala um pouco mais sobre você. – e joga a fumaça na minha direção.

– Como assim? – pergunto circulando o copo na pequena poça d’água que tinha feito com o suor do copo na mesa.

– Sei lá. – dizia entre trejeitos: – O que você faz da vida… Se você tem filhos… Se você é casado… Essas coisas.

Pela primeira vez foi a minha hora de ficar em silêncio olhando-a, só não sabia fazer daquele seu jeito. Queria ter certeza se era realmente o que tinha acabado de ouvir. Será que queria findar nosso jogo? Será que se contasse pouco sobre mim, me diria sobre ela? Será que hoje conseguiria seu telefone? Finalmente as rédeas do destino seriam minhas? Aposto ou não na sorte?

– E aí? – insiste.

– Estou pensando…

– E o que o senhor está pensando?

– Se também vai me contar sobre você. – digo encarando-a após acender um cigarro e colocar o maço em cima da mesa.

– Quem sabe? – sorri misteriosa. – Não faça nada esperando reciprocidade, faça apenas o que te deixe tranquilo.

Ficamos em silêncio por mais um momento, naquela conversa de olhares que adorávamos. Só findou na hora que pediu outra cerveja. Assim que o garçom encheu os copos e saiu:

– Como já sabe, meu nome é Logan… Faço vinte e sete em Setembro…

– Virginiano?

– Sim.

– Continua, está ficando interessante.

– Meus pais morreram num acidente de carro, quando eu tinha treze anos… Fui criado pela minha tia madrinha até os dezoito, quando passei a morar sozinho.

– Nossa! – arregala os olhos. – Eu sinto muito.

– Tudo bem. – sorri a fim de confortá-la ao assunto. – Já superei isso faz tempo.

– E trabalha com o quê? Fez ou faz faculdade?

– Não fiz faculdade e sou escritor de fracassos. – sempre faço piada de mim mesmo, é automático.

– Escritor de fracassos? – franziu a testa.

– Digamos que quase ninguém compra meus livros, mas dá para sobreviver com as vendas.

– Ah, não fala isso. – cruza os braços sobre a mesa.

– Já leu algum de meus livros? – olhei-a nos olhos.

– Não sou muito chegada em leitura.

– Entendi.

– Casado? Tem filhos?

– Nenhum dos dois. Agora me fala de você. – aposto. – É a sua vez.

Tentou escapar daquele jeito que até aquele dia me fazia ceder e esquecer a pergunta, mas estava decidido a colher aquelas informações. Precisava delas! Afinal de contas, falei sobre mim e precisava sim de reciprocidade quanto a isso. Que mal tem? Não foi muita coisa, mas foi mais do que nos últimos encontros. Poderia me dizer a metade, já me deixaria satisfeito.

– Me conta. – cruzo os braços sobre a mesa e curvo na sua direção, olhando-a nos olhos. – O que faz da vida? Tem filhos? É casada? Mora com os pais? Fez ou faz faculdade? Trabalha com o quê?

Calada com a cabeça baixa, me olhando com um olhar quase quarenta e três… Vinte um e meio, podemos dizer. Quando ia insistir na pergunta, ela começou a falar, imitando meu jeito.

– Como já sabe, meu nome é Dominique. – sorri. – Fiz vinte e quatro anos agora em Abril. – passa uma das mãos nos cabelos, ajeitando-os para trás. – Nasci em Osório, no Rio Grande do Sul e vim para o Rio com dezoito anos, tentar ganhar a vida e… – parou repentinamente.

– O que houve? – pergunto ansioso e preocupado ao notar seu semblante mudar da água para o vinho.

– Nada. – diz cabisbaixa olhando para o copo na mesa.

Preferi não insistir. Sabia que algo sobre ser do Sul e ter vindo para o Rio tentar ganhar a vida, não fazia bem. Tinha algo errado ali entre os dois, ou no depois, mas resolvi mudar de assunto:

– Água parada dá dengue, sabia? – brinco apontado para o seu copo.

Olhou-me. Olhou para o copo, depois para a Zebra. Por fim, olhou para mim novamente e soltou sorriso forçado:

– Verdade. – mata o copo em uma golada só e o enche novamente.

Ficou aquele clima chato. Não me olhava nos olhos, não dizia nada e eu também não sabia o que dizer. Era quase como o mesmo clima chato que caiu sobre nós quando disse que já tinha a novidade perfeita. Lembra? Agora era três vezes pior. Tirei a garrafa vazia da camisinha e pedi outra ao garçom. Assim que chegou, eu mesmo fiz questão de encher nossos copos, para despachá-lo logo.

Passou as mãos lentamente pelo rosto, acendeu outro cigarro, deixando bem claro seu nervosismo, e se ajeitou na cadeira. Seus olhos entristecidos colaram nos meus olhos curiosos, mas que sabiam que aquela curiosidade não poderia ser morta. Não agora, muito menos hoje. Vamos economizar essa vida do pobre gato.

– Acho que vou embora. – anuncia.

Fiquei completamente sem reação. Não esperava ouvir aquilo. A noite ainda não tinha terminado. “Como assim? Não pode ir embora agora. O que houve? Ficou muito estranha do nada.” foi o que quase disse. Na verdade era o que queria ou deveria ter dito, mas sabia que seria tremendo estúpido, visto como estava o clima ali e a sua expressão. Ou conseguia torná-lo em um clima suave novamente ou ela partiria. Pense rápido, Logan!

– Aconteceu alguma coisa?

Não respondeu nada, apenas desviou o olhar, que agora estavam fixos na fila que se fazia no ponto de ônibus.

– Se quiser conversar, estou aqui pra te ouvir.

– Não é nada. – diz com um tom frio.

De repente começou a tocar dentro do bar “Bed of Roses”. Só aí reparei que havia Jukebox lá nos fundos.

Bon Jovi! Faz tempo que não ouço.

Olhou para dentro do bar, na direção da máquina:

– Vai colocar música?

Não sei o que estava havendo. Não me olhava e aquilo me torturava.

– Quer que coloque?

– Queria escolher uma, mas não sei se tem.

– Fale qual vai querer. – dou uma golada e me levanto. – Se tiver, eu coloco.

– “Folhetim”.

– Boa!

Puxei a carteira e fui até a Jukebox. Coloquei uma nota de dois e comecei a minha busca pela música desejada. Acabei encontrando-a em um CD de clássicos da MPB, mas, cantada por uma artista que eu desconhecia até então. Com muita dificuldade escolhi as três que queria, peguei outra cerveja no balcão e voltei na direção da mesa. Mas para minha surpresa e decepção, Dominique não estava lá. Só encontrei um bilhete debaixo da Zebra de pelúcia.

“Desculpe-me. Acho que o nosso jogo acabou!”

Pois é… Deu Zebra!


05 – Volta


Sinceramente? Nos primeiros meses depois daquele último encontro, foi uma tortura sem igual. Não sabia se tinha dito ou feito algo de errado, de mau gosto, ou que ela não tinha apreciado. E aquela maldita Zebra de pelúcia não me ajudava em nada! Não consegui abandoná-la lá no bar como Dominique fez. Tive que trazê-la para morar comigo, mesmo querendo ter trago a Deusa ao em vez da porra do bicho. Também não queria arriscar em ser o primeiro a deixar uma Zebra de pelúcia ficar desabrigada, na rua, sem teto, órfã. Poderíamos começar a nos dar bem… Um dia.

Foram madrugadas e madrugadas pensando e repensando. Não dava para simplesmente se conformar em não saber o motivo. Quem consegue essa proeza no estado em que me encontrava? Tudo bem que realmente seria melhor do que saber que dei motivo ou algo parecido, mas… Não! Não podia ser o último encontro, e o jogo não podia acabar daquela maneira. Queria ao menos um Continue ao em vez de ir direto ao Game Over, e poderia muito bem ter sido o dia em que ela me daria o telefone, colocando em minhas mãos as rédeas do destino. Logo agora que estava ficando cada vez melhor e tão próximo de… Bom… Entendeu?

Até hoje, relembrando meu estado, parece que foi ontem que voltei para a mesa e encontrei aquele bilhete debaixo da bunda da Zebra beberrona. Fiquei bebendo com um bicho de pelúcia, até tocar a última música que escolhi. Mas não prestei atenção nelas.

Foi difícil retomar a vida sabendo que agora, mais do que nunca, poderia não vê-la novamente. Minha Deusa, meu vício, melhor sexo, melhor beijo, melhor jeito, melhor sussurro… Melhor companhia! Sabia que agora só a encontraria se a visse antes que me percebesse. Teria que contar com sua distração caso o destino nos colocasse dobrando lados opostos de encontro à mesma esquina, atravessando a mesma rua, pegando o mesmo ônibus, pois, se me visse antes de percebê-la, com certeza fugiria, se esconderia, sumiria da vista, pegaria a primeira condução que viesse… Saco! Estava perdido.

Três anos depois, lá estava eu lançando um livro baseado no pouco que vivemos, mas com final feliz, independente dos altos e altos do durante, sem os baixos do fim. Não a ponto de ser baseado em fatos reais, só incrementei as partes que mais gostei em algumas das situações dos dois personagens e mais nada. Tudo bem que minha personagem principal tinha descrição idêntica à de Dominique, mas só eu e o meu assessor sabíamos disso. Lembra quando parei com o blog e comecei a escrever só para a minha humilde pessoa? E as vezes que escrevia fantasiando como queria que fosse o próximo encontro? Então, acabou se transformando nesse novo livro. Não era bem nós, mas no romance eu me chamava Pierre e ela Marie, a história acontecia em Paris, por volta dos anos oitenta. Meu personagem principal era um jovem jornalista que estava começando a carreira no pequeno jornal da cidade, e minha personagem principal, uma jovem garota de programa. Só que não foi ela quem lhe contou sobre esse pequeno detalhe… Pierre, coitado, descobriu sozinho, em uma noite que foi, sem querer, com seus amigos na boate onde Marie trabalhava. Naquela noite o mundo caiu para os dois, pois ele nunca imaginava que um dia se apaixonaria por uma garota de programa, e ela nunca imaginava que ele fosse descobrir seu verdadeiro trabalho, que até então dizia ser de enfermeira para justificar seu “plantão”. Pior foi quando um de seus amigos contratou os seus “serviços”. Enfim… Não vou contar sobre o livro, pois vai perder a graça. Certo? Juro que mesmo assim teve final feliz e está até meio escrachado na sinopse, não me importo. Certo dia vi uma matéria com um escritor renomado, e em parte dela, dizia que a maioria de seus leitores preferem seus livros que tem o tal bem bolado final feliz, independente da trajetória que se sucedeu até ele. Como meu primeiro termina com mortes e o segundo realmente não teria como ter mortes, pois mais parece um livro de relatos sobre a experiência de se tornar responsável por si mesmo, não teria graça se o terceiro tivesse final triste. Poderia até parecer que sou fissurado por finais infelizes, mortes, e um escritor totalmente depressivo que não está satisfeito em ver seus personagens respirando por muito tempo, sendo mais felizes que ele. Conheço muito escritor que assume amar matar os personagens que criou, os faz sentir na pele o que é ser Deus. Já eu, ainda não cheguei a esse ponto, nem faço o tipo de “escritor-serial-killer”. Por mim eu os colocava em uma máquina que os transformassem em pessoas reais, e os que morreram, daria um jeito de trazê-los de volta à vida e depois, em pessoas reais.

O lançamento foi na livraria do primeiro andar daquele Shopping que a encontrei pela última vez. Meu romance estava com moral boa e teve ótima divulgação, graças ao meu magistral assessor. E lá estava eu sentado em uma cadeira atrás de uma mesa, com caneta na mão direita, estojo com algumas reservas e uma enorme fila de pessoas com meu livro nos braços, querendo autógrafo. Não sei se tinha finalmente escrito grande sucesso ou se eram méritos da Editora de médio-grande-porte, ou do meu assessor, com toda aquela divulgação. Será que era um bando de gente comprando o livro pela capa? Não importa. O que importa é que estava entrando grana e quem realmente lesse, leria um bom romance baseado na meia-verdade que vivi com minha Dama de Copas, mas não saberiam disso. Legal, não? Não teriam como ter ideia que boa parte daquele livro, realmente aconteceu, não em Paris, mas aqui no Rio de Janeiro mesmo. E os personagens andavam bem vivos por aí e sem final feliz. Com um final infeliz ou pausa torturante! Final trágico, para mim, com certeza, pois era o personagem vivo que andava cabisbaixo desde o fim da relação. Acho que é por isso que prefiro os finais infelizes… Não fogem da realidade.

Não olhava para a cara de quem colocava o livro aberto em minha mesa para que eu autografasse. Andava vendo minha Deusa em qualquer rosto feminino que me lançasse sorriso. Colocavam dizendo o nome e eu autografava com pressa, automático feito robô ligado ao gerador de energia mais potente. Frio da minha parte, eu sei, mas não via a hora de ver aquilo findar, para que pudesse ir a minha casa comemorar sozinho com as duas garrafas de Jack Daniel’s que estavam me esperando completamente nuas no meu minibar. Mas o mundo a minha volta parou quando um livro aberto surgiu e:

– Dominique.

Fiquei feito estátua com caneta na mão e o coração socando o peito feito lutador de MMA, querendo sair e abraçar aquela pessoa, mesmo sem meus olhos me dar certeza de quem era. Não queria tomar coragem e levantar a cabeça. Queria tomar coragem para agir naturalmente e autografar, mas quando as pessoas atrás dela começaram a reclamar pela demora, respirei fundo e a encarei. Sim, era ela! Não era uma de minhas miragens. Meus olhos se arregalaram na hora e quase senti meu coração tentando rasgar meu peito para pular em seus braços. Não autografei. Escrevi a primeira coisa que me veio à mente: “Por favor, me liga! Pode ser a cobrar” e deixei o número do meu celular logo embaixo. Entreguei-lhe o livro. Ela abriu, olhou e sorriu. Olhou-me nos olhos, deu uma de suas típicas piscadelas e foi se afastando lentamente. Continuei autografando, agora mais rápido que antes, com o nitro ligado, os outros livros que iam colocando sobre a mesa e não tirava meus olhos dela, que estava perto da saída, me olhando e rindo da minha situação. Não sei se estava autografando bem ou corretamente, mas… Tirando o dos desenhistas, que sempre fazem uma carinha engraçada e bem bolada, já viu algum autógrafo bonito? Já recebi em letra de forma de um ídolo que encontrei bêbado! Então, o meu que não seria o primeiro, principalmente depois daquilo.

Dominique apoiou as costas na porta da livraria, tirou um pequeno bloco de notas da bolsa, escreveu algo e jogou na minha direção. Abri e estava escrito: “Fica tranquilo, estarei lá fora te esperando. Beijos”. Comecei a autografar e olhar para o relógio… Autografava e olhava para o relógio. Ainda eram dez e vinte. Droga! Ela podia fugir novamente e eu ali “perdendo meu tempo”. Tinha que continuar fazendo aquilo até as onze em ponto, como foi determinado pelo meu assessor e a Editora. Quando bateu dez e cinquenta e nove, levantei rápido:

– Onze horas gente, acabou por hoje, sinto muito. – balançava os braços no ar e sorria amistoso. – Minha mão já está doendo. – o que não deixava de ser verdade. Depois que adquiri meu notebook, perdi a prática e o costume.

Fui ziguezagueando às pressas entre a multidão que tentava me parabenizar pelo livro e as que saiam lentamente. Encontrei-a do lado de fora do Shopping, fumando seu filtro branco. Estava com o cabelo mais curto que o normal (batia nos ombros) e estava com prancha. Trajava jaqueta jeans, saia rodada de cor branca, e nos pés, sandálias da mesma cor da saia. Acendi meu cigarro enquanto me aproximava:

– Quanto tempo… – digo parando ao seu lado.

– Três anos. – diz sorrindo, olhando para o chão fixamente. Balançava o quadril para frente e para trás inquieta, era bem perceptível seu nervosismo.

Olhava-a daquele jeito ao meu lado. Como o tempo era bom para ela, cada vez mais linda. Eu já não era o mesmo, estava chegando aos meus trinta e com cara de trinta, enquanto ela estava com seus vinte e sete e com cara de vinte. Deve ser coisa de Deusa, sabe? O que sei é que estava mais linda do que da última vez que nos vimos.

– Mudamos nossos cortes. – comenta com risada baixa e gostosa, tentando puxar assunto.

– Pois é… Já estava na hora de largar o corte couve-flor. – brinco aos risos.

– Ficou bem assim com o cabelo baixinho. – finalmente me olhou, e na direção dos meus lábios. – Essa barba que realmente nunca deve tirar… Fica muito bem em você. – me olhou nos olhos.

Fomos tomados pelo silêncio. O nervosismo daquele momento nos fez acender um cigarro quase que ao mesmo tempo. Rimos ao olharmos um para o outro puxando o maço. Quando nossos olhares se chocaram, os sorrisos se fecharam em uma expressão séria e ao mesmo tempo triste. De repente me abraça forte, fazendo deixar cair o maço de cigarros no chão:

– Eu senti tanto a sua falta. – confessa antes de mim.

– Também… – a apertava bem em meus braços, não queria correr o risco de deixá-la fugir novamente. – Muito!

Sem me soltar, levanta a cabeça e me olha com os olhos marejados. Não resisti e a beijei. Nossa! Foi melhor do que todos os outros que já tinha recebido dela. Parecia que aquele exato momento, o céu nublado tinha aberto as nuvens negras como cortinas, para que a plateia de estrelas nos visse ali, juntos novamente. “Morra de inveja Lua, minha Deusa está de volta”.

Após o beijo mais lindo, peguei o maço de cigarros no chão:

– O que aconteceu naquele dia? – não resisti e deixei sair.

Passei três anos tentando descobrir o motivo. E qualquer coisa que pensasse ou especulasse, sabia que não devia ser nem a metade do que realmente poderia ser. Tinha que ouvir de sua boca, definitivamente! Chegou a hora!

– Temos muito que conversar. – deu-me selinho. – E prometo que não irei e nem quero fugir de novo.

Tinha tanta certeza no seu tom de voz, que não tinha como não acreditar.

– Estava me preparando para ir direto pra casa depois daqui. Tem umas garrafas de uísque me esperando lá pra comemorar. – tomo coragem e lanço a isca: – Não quer vir comigo?

– Tudo bem, vamos! – automaticamente. Pesquei!

Estava fantástico e parecia sonho. Aquilo tudo não podia ser possível, mas era. O jogo tinha acabado, mas tinha a sensação de que estávamos prestes a começar um novo. Ganhei meu Continue! Finalmente! E talvez nesse, nós seriamos quem dita o rumo desse nosso barco e toma as rédeas do destino. A canoa não vai virar!

Fomos para o ponto e pegamos o ônibus, rumo a minha humilde residência. Sentamos lá trás e matamos mais ainda a saudade dos beijos, durante toda a viagem, até chegar ao ponto perto de onde moro. Quando descemos, acho que nem reparou que era perto de onde nos encontramos na terceira vez. Mas que diferença faria agora se já estava indo diretamente a minha casa?

Paramos no portão de entrada do meu prédio, que logo foi aberto quando o porteiro me identificou. Cumprimentei-o enquanto caminhava até a porta do elevador. Apertei o botão.

– Nunca iria imaginar que mora num lugar como esse.

– Minha tia disse a mesma coisa. – ri ao lembrar de quando minha tia veio conferir de perto onde tinha me engalfinhado.

– Por quê? – franziu a testa.

– Pra ela, escritor e músico são termos novos pra vagabundo.

Soltou sua gargalhada, que logo foi silenciada pelas suas duas mãos. O elevador chegou e entramos.

– Qual andar, seu bobo? – pergunta levantando a mão direita na direção do painel.

– Nono.

Aperta o botão.

Enquanto subíamos, ajeitava o cabelo se olhando pelo espelho que tinha no fundo do elevador.

– Você não disse o que achou do meu novo corte de cabelo. – me olhava pelo espelho.

Virei-me, olhando-a através dele:

– Não sei se já te disse, mas sou fã de cabelos ondulados ou encaracolados.

– Já imaginava. – sorriu voltando a atenção para os cabelos. – Mas estava na hora de mudar. Veja só você. – virou-se de frente. – Também mudou bastante. – olhava-me dos pés à cabeça.

– Pois é. Já você, mesmo com esse corte novo ainda parece ter vinte anos. – beijei-lhe a testa. – Linda!

– Quem me dera. – sorriu com os olhos fechados. – Já estou começando a sentir o peso da idade. – brincou com uma das mãos nas costas e a outra, tremendo, simulando estar segurando bengala, simulando senhora de idade.

– Queria eu ainda aparentar vinte anos, agora que estou nos trinta e com essa cara de trinta. – brinco aos risos.

– Fica tranquilo que ainda está um gatão bem sexy.

O elevador para no nono andar. Tiro minhas chaves do bolso e abro a porta do apartamento novecentos e três, que estava uma bagunça só. Roupas espalhadas por toda a sala, no chão perto da janela, no sofá, em cima da TV, do rádio…

– Realmente é a casa perfeita de um homem solteiro. – diz olhando tudo ao redor, antes mesmo que a pedisse para não reparar a bagunça.

– Sabe como é, né? Minha casa não está acostumada a receber visitas ilustres e inesperadas. – faço graça.

Mesmo que dissesse para não reparar a bagunça, de que adiantaria? Quem tem o hábito de reparar, repara. E quem não tem, às vezes repara só por que você salientou a ideia de não reparar. Mas é inevitável não soltar sem querer esse maldito “Só não repara a bagunça”. Quando somos criança, de tanto ouvirmos os adultos dizendo, a gente abstrai esse hábito e fica difícil largá-lo depois de velho. Raramente quando me lembrava disso, ao receber visita, brincava dizendo o contrário: “Repara a bagunça”. Foi assim que perdi o hábito.

Fui colhendo as roupas espalhadas e jogando-as no meu quarto. Sentou no sofá enquanto fui até o minibar que tinha perto da janela. Peguei a primeira garrafa de Jack, dois copos e coloquei na mesinha que tinha na frente do sofá.

– Vou pegar gelo na cozinha. Vê se não some daqui. – brinquei.

– Não vou. – sorri. – Pode ter certeza.

Chegando à cozinha, enquanto abria a geladeira e tirava a fôrma de cubos de gelo, vários pensamentos me rodearam a cabeça. Se ouvisse qualquer barulho na sala ou da porta, ela teria partido. Rapidamente joguei os cubos de gelo dentro do pequeno balde metálico com um pegador dentro e voltei para a sala. Foi um alívio vê-la ali, linda, comportada e sorridente, a me olhar do sofá. Coloquei o balde entre os copos e sentei ao seu lado. Duas pedras de gelo para mim, mais duas para ela e enchi nossos copos até a metade.

– Um brinde ao nosso reencontro. – diz erguendo o copo no ar, sem rodeios.

Sempre tomava a iniciativa nos nossos brindes e eu sempre concordava. Dessa vez:

– E ao meu livro.

– Exatamente, ao seu livro. Como poderia me esquecer? – bateu de leve na testa.

Peguei o controle do rádio em cima da mesa e liguei na MPB FM, minha estação predileta. Som ambiente e nós dois ali no sofá, bebendo Jack Daniel’s. Que maravilha! Só ficaria melhor se dissesse que queria ficar comigo, e de agora em diante, até que a morte nos separe.

– Apesar da bagunça, sua casa é bonita. – brinca olhando para as cortinas vermelhas que balançavam bastante por conta do vento. Sempre esqueço as janelas abertas quando saio. Já perdi as contas de quantas vezes cheguei e encontrei o chão húmido e fedorento.

– Dá pra chamar de lar. – brinco.

– Fico feliz pelo seu livro.

– Como me achou?

– Vi a divulgação no jornal. – sorri. – Não resisti e fui lá hoje só pra te ver. – baixou os olhos para o copo.

Silêncio.

– Quando peguei o livro e li a sinopse. – calou-se por alguns segundos, brincava de girar as duas pedras no copo com o dedo indicador. – Você se baseou no que vivemos, não? – olhou-me.

Apenas sorri ao ouvir aquilo. Com certeza seria a única pessoa que saberia daquilo, além de meu assessor e eu, como já disse antes. E o mais incrível, era que nem foi preciso lê-lo, foi só pela rápida lida na sinopse.

– Gostou do seu nome?

– Gostei. Do seu também. Mas prefiro Logan. – sorri.

Levantei e peguei o cinzeiro que estava em cima do rádio. Coloquei em cima da mesa e sentei novamente. Acendi o cigarro. Quando a olhei, ela desviou o olhar para o copo de uísque na mão. Lembrei-me da Zebra. Fui ao meu quarto, peguei-a e voltei:

– Nós sentimos sua falta. – digo erguendo a Zebra com uma mão.

– Zezé! Você a guardou. – seus olhos brilharam. – Nossa querida amiga Zebrinha! – parecia criança com as mãos juntas rente ao queixo.

Sentei ao seu lado e entreguei-lhe o bicho de pelúcia.

– Ela tem me feito companhia desde aquele dia. Por que foi embora? – eu e minha maldita mania de não saber a hora de matar a vida do gato.

– Sei que foi estúpido o que fiz. – olhava para a Zebra em seu colo. – Mas eu estava com medo de me envolver mais do que devia ou do que podia.

Silêncio. Ela acendeu seu cigarro.

– Sei que só piorou minha situação, pois desde então eu só consigo pensar em você. – me olhou com os olhos marejados. – Sinto falta de tudo!

Não sei como, mas ouvir aquilo me fez bem e nem quis ouvir mais nada. Agarrei-a e nos beijamos ali mesmo no sofá, fazendo sanduíche na pobre Zebra. Seu copo caiu no chão derramando uísque e as duas pedras de gelo no tapete:

– Seu tapete! – sussurra entre os beijos, olhando para o chão.

– Não importa! – calei-a com um novo beijo. – Essa Zebra que está machucando a minha barriga. – digo puxando o bicho de pelúcia e colocando em cima da mesinha com o rosto virado para a janela.

O calor foi rapidamente se intensificando. Tirávamos nossas roupas às pressas, feito dois desesperados e como se fosse algo que nunca deveria estar sobre a pele. Joguei longe as almofadas, conseguindo assim, mais espaço no sofá. Era a primeira vez que seu beijo tinha gosto da minha bebida predileta: uísque! Combinação perfeita, pois mesmo assim, ainda era aquele beijo maravilhoso que só encontrava naqueles lábios, naquela mina de ouro: os lábios da minha Deusa Dominique. E a cada “Que saudade que eu estava disso” sussurrado no ouvido, eu ficava mais louco de prazer. A casa foi ficando ainda mais bagunçada e pequena, conforme fomos matando a saudade em todos os cômodos e objetos que proporcionavam certo apoio para um de nós.

Minha Deusa estava de volta, e agora não iria mais deixá-la partir. Não mesmo!


06 – Quebrou


Quando acordei, estava deitado de lado e de frente para a parede da janela. Assim que dei conta da realidade, estiquei o braço para trás. Inevitavelmente, sorriso de orelha a orelha já pela manhã, ao sentir minha mão tocar no belo e macio par de coxas de Dominique. Não foi sonho. Ajeitei-me, virando de frente para ela debaixo do edredom, que dormia feito anjo em sono profundo. Passei a mão direita lentamente pelos seus cabelos, tirando as mechas caídas em seu rosto. Sabe aquele suspiro apaixonado que envolve alegria, orgulho e uma penca de sentimentos bons? Soltei um desses naquele momento. E depois de alguns minutos contemplando-a, beijei-lhe a testa e levantei da cama, ainda com aquele sorriso de orelha a orelha, parecia estar com cãibra facial.

Só quando saí do quarto, vi a hora. Eram oito horas da manhã e o cheiro da noite anterior ainda se fazia presente na sala. Abri bem as cortinas (as janelas já estavam escancaradas desde o dia anterior) e fui até a cozinha preparar o café da manhã. Rosquinhas amanteigadas com café bem quente e amargo que só eu sei fazer. Não tem nada de especial, a única diferença é que em qualquer lugar sempre prefiro o meu. Coloquei na bandeja e voltei ao quarto. Deixei a bandeja no criado mudo, tirei de leve o edredom, deitei ao seu lado na cama e a acordei com beijos estalados subindo a sua barriga.

– Bom dia. – digo assim que se mexe, anunciando ter acordado.

– Bom dia. – com a voz embriagada de sono, se espreguiçando, sem abrir os olhos. – Que horas?

– Vai dar oito e meia. – pego a bandeja e me ajoelho ao seu lado. – Preparei o seu café da manhã.

Abriu os olhos, conferiu o que tinha na bandeja e sorriu. Ajeitou-se na cama, sentando e terminando de se espreguiçar. Enrolou parte do edredom nas pernas e coloquei a bandeja sobre elas. Como estava linda com a minha camisa preta com a cara do John Lennon em preto e branco estampada na frente, e que nela, mais parecia vestido largo. Era a minha camisa predileta no corpo de uma Deusa. Quer combinação melhor? Se fosse embora, não lavaria aquela camisa… Nunca! Mas, espera, não vai, prometeu não ir.

– Você é um amor. – me beija. – Adoro essas rosquinhas amanteigadas.

Foi logo pegando a xícara de café e enfiando três rosquinhas no indicador da outra mão. Enquanto mastigava, vez ou outra assoprava o café e sugava, fazendo pouco barulho. Já eu, quase não comia, bebia meu café e ficava olhando-a, com a cara amassada, os olhos lutando para se manterem abertos, parecendo até japonesa, e a fome por rosquinhas amanteigadas.

– Muito suculentas. – diz com a boca cheia. – Qual é a marca?

– São de fabricação caseira. – digo depois de boa soprada no café. – Há muito tempo atrás comprei um pacote com uma senhora no ônibus… Daí sempre que a encontro eu compro muitos, pois são realmente deliciosas.

– Tem bastante aí? – pergunta antes de levar outra à boca.

– Sim, fique à vontade para comer quantas quiser.

– Posso levar algumas?

– Sim. – ri, achando graça dela agindo feito criança comendo especiarias da vovó antes de ir embora.

Assim que terminou, levantei e coloquei as xícaras vazias na bandeja.

– Vou à cozinha e já volto. Quer mais alguma coisa? – pergunto todo prestativo e com bom humor além do normal.

– Pega meu maço na sala? – sorri angelicalmente enquanto se espreguiçava novamente.

– Tudo bem.

Fui até a cozinha e coloquei a bandeja na pia junto do monte de louça acumulada. Na volta, passei na sala, peguei nossos maços, o cinzeiro e fui ao quarto, acendendo meu filtro vermelho no caminho.

Quando entrei, lá estava ela dobrando o edredom que nos confortou o sono durante a madrugada. Agora dava para ver melhor o quanto estava linda com aquela camisa. A visão melhorava quando levantava os braços erguendo o edredom para dobrá-lo ao meio e aparecia sua calcinha branca de renda, me dando uma bela visão daquele belo par de coxas e aquela bunda empinada. Coloquei seu maço e o cinzeiro no meio da cama e sentei, observando-a calado.

– Estou curiosa sobre seu livro. – diz laçando o edredom dobrado com o braço esquerdo.  – Como se baseou no que vivemos… – abre o armário. – Não posso me conter só com a sinopse. – enfia o edredom no primeiro espaço que encontra e fecha o armário.

– É só ler o exemplar que comprou.

– Não lembra que já lhe disse sobre eu não ser muito chegada em leitura? – virou-se de frente para mim com as mãos na cintura, fazendo cara engraçada de como se fosse minha obrigação saber que não iria ler livro algum, independente dele ser meu ou não. – Você não pode me contar a história toda?

Involuntariamente desligado, com os olhos presos as suas coxas, não digo nada.

– Logan? Olha pra mim. – acena aos risos na direção do próprio rosto. – Eu estou aqui em cima. – estala os dedos múltiplas vezes.

– Oi? – olhei-a.

– Me conta a história do livro, Logan. – leva as mãos à cintura e fica batendo o pé direito no chão. Pirracenta.

– Mas a graça toda está em lê-lo. – amasso o cigarro no cinzeiro. – Não é tão grande. – volto minha atenção para ela. – O que custa lê-lo, Nick?

– Se eu for parar pra ler, vou demorar quase um ano. – ajoelhou-se na beira da cama. – E é bem capaz de não terminá-lo. – deitou-se sobre minhas pernas. – Conta, vai.

Não tinha como não contar. Mesmo doendo um pouco saber que nem um livro meu com um pouco de nossa história ela leria. Também não tinha como resistir àquela cara que fazia, conseguiria até fazer com que eu comprasse o mundo todo só para dar-lhe de bandeja.

– Tudo bem. Tudo bem. – me ajeito na cama.

– Oba! – comemora deitada erguendo os braços para o ar.

Fiquei quase duas horas contando a história do livro. Até que foi bom contar e ir reparando as suas reações faciais até a metade da narrativa, pois fui me empolgando e meio que só conseguia me concentrar em imaginar as cenas e continuar narrando. Os impactos que algumas partes a causavam, eram bem interessantes e às vezes intrigantes. Notei também que, por mais que o livro fosse meu, eu gostava bastante da história vivida por Pierre e Marie. Mesmo sabendo que pode vir a ser tachado como certo clichê, de que já existem livros parecidos e tudo mais. Na verdade, via como contado com outros olhos ou vivido de forma diferente, pois nada é totalmente igual. Não sei explicar e não acho necessário perder tempo explicando isso. Concorda? Até por que, quem nunca viveu uma história igual, e ao mesmo tempo diferente, à de outra pessoa?

– O que achou? – pergunto assim que termino de contar, estranhando sua expressão séria, já que o final da história é bonito e feliz. Final feliz! Oh! Happy day…

Nesse momento fiquei pensando se não deveria ter feito um final feliz que fizesse o leitor chorar de emoção. Se ficassem, no fim do livro, com o mesmo semblante que tomou conta do rosto de Dominique, iria cair nas garras da crítica negativa e não venderia nada conforme os leitores repassem sua experiência com o livro.

– Gostei… – desvia os olhos para o teto. – Realmente é uma boa história.

– Não é o que sua expressão facial está dizendo.

– É que estou impressionada com a história. – cruza os braços, pensativa.

– Que bom que gostou. Eu acho uma pena só metade do livro ser baseado na gente. – brinco. – Mas quem sabe o próximo não seja completo? – beijei-lhe a testa. – Talvez a continuação… Já pensou? Pode se chamar Ventura, por conta de tudo que já aconteceu e tem acontecido.

Sorri. Pega o maço na cama, levanta e vai até a janela do quarto. Abre as cortinas e a janela. Fico observando-a como bem gostava fazer. Tira um cigarro e depois de um tempo olhando para dentro do maço, vira-se na minha direção e:

– Pode jogar o isqueiro? – estende a mão.

– Segura. – pego e jogo em ângulo alto.

Pega no ar. Acende o cigarro e joga o isqueiro de volta na cama. Debruça na janela, cruzando os braços no mármore. Segurava o maço na mão esquerda, o cigarro na direita e olhava para a rua.

– A vista daqui de cima é bem bonita.

– Realmente. De noite é melhor ainda. Principalmente quando o céu está bem estrelado. – me levanto e vou até ela. – Se dormir aqui de novo, pode conferir.

Solta um riso baixo e frouxo. Abri mais a janela e apoiei meu cotovelo direito no mármore, ficando de frente para ela, ao seu lado. Virou o rosto para mim e ficamos calados, olho no olho. Como aquela mulher era linda até sem maquiagem. Lembro que certa vez um tio meu disse que só se tem certeza que uma mulher é linda, depois de vê-la acordar e sem vestígio algum de maquiagem, nenhuma máscara. E é verdade, garanto. Tinha acabado de ter essa certeza quanto ao que ele me disse. Nunca fez tanto sentido, nem já havia reparado isso nas outras mulheres que me envolvi. O sol ainda fazia questão de tocá-la de um modo que deixava bem mais nítidos os seus suaves e belos traços faciais. Como ela era bem desenhada: sobrancelha bem feita; lábios amarronzados e sem batom; cabelos alvoraçados e já perdendo a prancha; nariz fino, pequeno e um pouco arrebitado; na bochecha, mesmo sem sorrir já esboçava um pouco daquelas covinhas que tanto sou fissurado e apaixonado.

– Logan… – diz acabando com a minha viagem.

– Diga.

– Os personagens são baseados em nós dois. – junta as sobrancelhas. – E metade do livro… No que vivemos. – Seu rosto estava ainda virado para mim, mas seus olhos pareciam buscar algo na rua. – Certo?

– Correto!

– O Pierre é você cuspido e escarrado. – olhou-me. – Não é?

– Nem tanto. Por quê?

– Você também se apaixonaria por uma garota de programa? – pergunta com expressão séria.

– EU? – bati no peito, me espantando com a pergunta. – Me apaixonar por uma puta? Lógico que não! Está maluca, Dominique? – solto gargalhada quase maléfica. – No livro é no livro. – me debruço no mármore, olhando para o anúncio na traseira do ônibus parado no ponto. – Nessa parte já sou completamente diferente do Pierre. Muita coisa até! Onde já se viu, se apaixonar por mulher que faz sexo por dinheiro, que não se preza, e se duvidar, pode ser uma casa de doenças sexualmente transmissíveis? Loucura! Quem se arriscaria a isso na realidade, fora de um livro? Hipocrisia dizer que sim! Ainda mais por que, com certeza, é muito difícil uma mulher dessas se apaixonar por alguém. Só em livro e filme que essas coisas acontecem… São fantasias… Mera ficção. Realidade é realidade. – olho um rapaz ajudando a senhora atravessar a rua. – Fora que, quem vai querer estar com alguém, que algumas horas atrás fez sexo com outro ou outros? Que tem uma enorme lista de homens no currículo e na cama… Sinceramente eu não teria essa coragem toda. – solto outra gargalhada, achando graça daquela ideia. – Também tem o fato de que… Quem vai querer ser um corno assumido? Concorda comigo? Bate aqui. – e me viro com a mão no ar esperando um high five.

Silencio.

Quando a olho, seus olhos estavam arregalados e cheios de lágrimas, a mão esquerda na boca e a direita pousada ao coração. Seu rosto parecia cachoeira. Falei tanto que não sabia se tinha dito algo de errado ou se tinha exagerado. Será que fui extrapolei no meu eu preconceituoso? Será que não foi boa ideia a Marie ser puta na ficção? Cheguei a pensar na hora, mas já deve ter percebido, não? Às vezes fico pensando que qualquer pessoa já teria percebido e que sou inocente, no fim das contas. Se duvidar, percebeu lá no primeiro, segundo capítulo, enquanto eu, só percebi agora, no sexto capítulo… E ao vivenciá-lo. Trágico.

– O que foi? – pergunto assustado com a cena.

Dominique cai de joelhos no chão com o rosto mergulhado nas mãos. Chorava e soluçava. Fiquei tão assustado que a única coisa que me passava pela cabeça era que tinha dito alguma merda. Sempre digo. Me empolgo e vou, vou… Até dar merda. Por que não agora? Ajoelho-me e a abraço.

– O que… – dizia até ela me empurrar com força.

– Sai de perto de mim, seu monstro! – gritou histérica.

Fiquei em estado de choque, sentado no chão e vendo-a ali naquele estado. Não estava entendendo patavinas do que estava acontecendo. É difícil de acreditar, mas realmente a ficha só começou a cair quando ouvi da sua boca, com todas as palavras:

– Eu sou garota de programa, Logan! Garota de programa! – gritava esmurrando forte o próprio peito.

Foi aí que comecei a perceber que Pierre realmente era eu cuspido e escarrado, como ela disse.

– Não! Você não é. Não é só por que eu coloquei no livro, que eu acho que você seja. Não pense uma coisa dessas, Dominique. É só um personagem, não tem nada a ver.

Tentei abraçá-la outra vez, mas começou a me bater descontroladamente.

– Sai de perto de mim! Sai de perto de mim, seu ogro machista e primata! Homem das cavernas! – gritava. – Você me acha suja, sem sentimentos e uma casa de doenças sexualmente transmissíveis. – foi ficando cada vez mais difícil.

Na primeira brecha consegui imobilizá-la em meus braços. Debatia-se, gritava e tentava sair, mas a prendia firme. Era a única coisa que consegui pensar em fazer naquela situação, enquanto digeria a informação lentamente. Calado, apenas ouvindo a voz em minha mente dizendo repetidamente: “Ela é prostituta! Larga ela! Apaixonou-se por uma puta, assim como no livro! Otário! Babaca! Seu merda! Se fodeu!”. Não sabia o que fazer muito menos o que dizer. Se falasse alguma coisa naquele momento, com certeza, por conta daqueles pensamentos, diria algo como: “Caralho! Não é que você é puta mesmo!? Que merda, hein, Dominique!?”.

Quando começa a se acalmar, a solto. Levantou-se ainda chorando, mas sem soluços. Tirou a camisa, jogou no chão e saiu do quarto. Continuei imóvel no chão. Olhei a camisa e senti nojo, assumo. Automaticamente aquela voz na cabeça disse: “Uma puta usou tua camisa predileta do John Lennon! Veste lá, otário”. Peguei a camisa e joguei do outro lado da cama, para que não ficasse diante dos meus olhos. E a voz continuava: “Uma puta deitou na tua cama, e pior, contigo! Se apaixonou por uma vagabunda!”. Parecia até loucura. Mergulhei a cabeça nas mãos, não conseguia olhar para nenhum canto do quarto, só para o escuro que se faz presente quando os olhos se fecham, se escondem das cores à nossa volta. E como eu queria me esconder naquele momento. Sentia vergonha de mim mesmo por me ter permitido tamanha “gafe”.

Um filme começou a passar em minha cabeça. Meu subconsciente realmente tinha tirado a hora para pregar peça e me enlouquecer. Começou me lembrando de quando a conheci e foi seguindo adiante. “Aquele homem grude devia ser algum cliente ou o cafetão! Um dos dois, com certeza! Na segunda vez, ela devia estar indo trabalhar quando a encontrei no ônibus, por isso que pediu dinheiro para o táxi. Às vezes ficou com vergonha de dizer que era pelo serviço prestado, e não pela condução. Naquele dia no bar, devia estar fazendo ponto e esperando aparecer algum cliente bacana. Na quarta vez… Deve ser por isso que ela foi embora… Se cansou de ficar fazendo tantos serviços gratuitos. Pode ser, também, que achava que eu era algum bacana rico que ela poderia enganar e dar golpe ou qualquer coisa do tipo, mas quando viu que era mero escritor fracassado, sem futuro e sem muito a oferecer, resolveu partir. Daí agora que soube desse livro, com toda aquela divulgação, deve ter imaginado que minha vida ia dar AQUELA elevada financeira. Filha da Puta! Não, espera… Filha puta!”

Voltei para o quarto quando apareceu no portal da porta, toda arrumada e preparada para ir embora. Não conseguia olhá-la na cara, só para a sombra que seu corpo fazia na frente do armário.

– Eu vou embora Logan. – fez uma pausa. – Não precisa se preocupar, pois a puta aqui vai sumir da tua vida… Eu prometo!  Não precisa amar uma puta cheia de doenças. – fungada de nariz. – Mas fique sabendo que lá fora há uma puta que te ama… Se um dia você conseguir lidar com isso e perder esse preconceito escroto… – outra pausa. – Me procura e a gente conversa… Mas dependendo do quanto demorar, eu posso realmente não voltar! Tchau!

Saiu. Quando ouvi a porta da sala bater forte, comecei a chorar igual criança que pagou caro em doce estragado. Demorou, mas o brinquedo quebrou. Papai estava certo, é coisa de gente grande.


07 – Aparências


Horas deitado no chão do meu quarto, pensando nas últimas horas que vivi e repensando os últimos encontros que tivemos. Como podia tudo melhorar e piorar radicalmente em menos de vinte e quatro horas? É incrível! Quando nos reencontramos ontem tudo estava tão surreal. E agora estava em queda livre no mais obscuro poço sem fundo, e, sabia mais do que ninguém, que não haveria mão para segurar, me puxar ou evitar a minha queda. Só restava observar um orgulho ferido descer ladeira a baixo, rumo ao núcleo da Terra.

O quarto foi ficando mais escuro conforme a noite aos poucos dava seu sinal de vida. Sentia-me iludido, traído, vencido, ingênuo, fraco, inocente e preso a barbante puído. “Por que logo você? Por que eu? Por que nós? Por que não fomos conjugados corretamente?”. Eram os pensamentos frequentes quando tomei coragem para sair daquele estado depressivo, jogado ao chão feito lixo, ao estilo “Vermes, venham e me comam!”. Peguei o maço em cima da cama e saí do quarto. Era inevitável não relembrar a noite anterior conforme meus olhos passavam pelo sofá, pelos outros detalhes da casa e aquela maldita Zebra desgraçada na mesinha. Fui até a cozinha, joguei fora todos os pacotes de rosquinhas amanteigadas e a xícara que ela tinha usado. Peguei um dos copos sujos na pia, lavei, tirei duas pedras de gelo na geladeira e coloquei no copo. Voltei à sala. Peguei a última garrafa de Jack Daniel’s e sentei no chão, na frente do sofá, ficando de costas para ele. Na minha frente, quase colada a mim, estava a minha mesinha de centro, e em cima dela um copo vazio que passei a utilizar como cinzeiro, aquela Zebra lazarenta e a garrafa cheia ao lado do meu copo.

Parecia que a televisão desligada passava a temporada dos nossos últimos encontros. O fracassado seriado: “Eu, Pierre, vulgo trouxa terrestre, mamífero alcoólico”. Não conseguia tirar meus olhos da televisão, desligar os pensamentos e parar de me torturar. “Quantas garrafas de Jack terei que matar para te esquecer?”. Pensei em determinado momento, quando fui encher o copo. Estava realmente disposto a enfiar a cara na bebida, ficar bêbado e esquecer aqueles problemas todos, nem que fosse só por um dia ou algumas horas. Precisava de alguma distração, mas estava difícil.

Novos pensamentos começaram a vir conforme a embriaguez se intensificava. Em momento de fraqueza comecei a pensar: “Será que se pedisse ela deixaria de ser puta? Mas aí não adiantaria nada, pois já tem se deitado com vários nesses anos todos”; “Preciso fazer exame de sangue urgentemente… Será que vou pegar alguma doença?”; “Será que algum dia vou conseguir esquecê-la?”; “Acho que estou sendo injusto”; “Deus, por que você não existe?”. Até que cheguei a um ponto da embriaguez que só conseguia chorar.

– E agora? O que faremos? – pergunto a Zebra. – Você também não ajuda em porra nenhuma… Sabia? – dou golada do copo. – Concorda comigo que foi maior sacanagem da parte dela ter nos enganado esse tempo todo? Não podia ter dito no início? – fico pensativo. – Acho que você já sabia… – com ódio, encaro o bicho. – Zebra safada e traiçoeira! Meretriz feito a dona! – mergulho a cabeça nas mãos, cravando os dedos em meus cabelos. – A quem eu quero enganar? Você é um bicho de pelúcia que carrega a porra do cheiro dela!

Por volta da uma hora da madrugada, levantei e fui ao quarto procurar um novo maço, pois o meu já tinha acabado. Revirei todo o quarto e nada. Pelo menos não tinha mais aqueles pensamentos ao olhar para a cama e para a camisa do John no chão, que peguei e decidi vesti-la a fim de ir à rua, na padaria da esquina. Peguei calça e cueca no armário e fui ao banheiro. Debaixo do chuveiro, conseguia esconder as lágrimas que vira-mexe insistia em cair pelo rosto quando me lembrava de toda aquela situação. No fim do banho resolvi dar basta. Chega! Já tinha passado e acabado, não aconteceria novamente e não iria mais vê-la, então não teria motivos para me preocupar com nada. Tinha um livro para dar mais atenção do que dar moral a problemas menores, e a uma prostituta safada que me enganou. Tudo bem que o livro seria um dos motivos que mais manteriam meus pensamentos naquela mulher, mas, devia pensar e agir como profissional e seguir em frente com meu trabalho. Aquela chuveirada estava fazendo bem para trazer pouco do meu eu sóbrio de volta e minha ‘sanidade’.

Terminei o banho, vesti a roupa e voltei para o quarto para pegar a carteira e o celular. Havia quatro ligações perdidas do meu assessor. Coloquei a carteira e o isqueiro no bolso, desliguei as luzes, saí e tranquei a porta. No elevador, liguei de volta, sem me preocupar com a hora. Felizmente estava acordado. Disse que tinha conseguido uma entrevista em um daqueles talk-shows que passa de madrugada, e que, inclusive, era no meu favorito. Aquela notícia chegou na hora certa e ajudou a levantar o humor, fodido. Decidi que deveria comemorar, e seria como naqueles dias que a gente sente uma louca vontade de ir para longe… Longe de tudo e de todos, atrás de novidade. Mas dessa vez, sinceramente, não me importaria se fosse parar em um lugar conhecido, desde que não a encontrasse. Não poderia ser como das outras vezes, pois fui deixar nas mãos do destino e veja bem no que deu no final, afinal. Bela apunhalada pelas costas, isso sim. Muito obrigado pela pegadinha, destino, você é o cara!

Comprei dois maços na padaria e fui ao ponto de ônibus. O primeiro que veio era para o Centro do Rio. Durante o caminho fiquei pensando em onde iria quando chegasse à estação. Lapa? Copacabana? Garage? Ou outro lugar? Chegando, resolvi pegar o metrô e ir a Copacabana, parar em um dos quiosques de frente para praia e curtir a beleza local. Talvez conseguisse pôr no mar todos aqueles pensamentos, como se fossem oferendas paraIemanjá, mesmo não crendo. Quem sabe talvez existisse mesmo e levasse tudo?

Desci do ônibus e fui caminhando pela rua, fumando meu cigarro, pensando na vida. Inevitavelmente meus pensamentos vira-mexe paravam em Dominique, principalmente quando alguma prostituta passava por mim. Acho que mesmo se tivesse escolhido a Lapa, iria passar por isso, e o Garage… Bom, é do lado da mundialmente famosa Vila Mimosa. Talvez não devesse nem ter saído de casa, para início de conversa, pois algumas vezes sentia meu sangue ferver e uma louca vontade de gritar, pôr tudo para fora, como se uma daquelas garotas de programa que passavam por mim sorrindo fosse Dominique. Conseguia me controlar fechando os olhos, respirando fundo e continuando minha caminhada.

No quiosque, pedi água de coco para limpar a alma, e cerveja. Santo remédio! Sentei-me à mesa de frente para o mar. Como é bonito, de noite, ver o mar completamente deserto e as estrelas no céu se deitando no horizonte como uma enorme manta negra. E a lua… “Pois é lua, acho que não mais verá aquela mulher. Sinto muito e conforme-se com isso. Tudo bem para você?”. Pensei. Na verdade era o que queria que a lua me dissesse naquele momento. Bebi toda a água do coco e comecei minha cerveja. Mal dou o primeiro gole e já aparece uma mulher ao meu lado:

– Posso sentar? – me aborda, a garota simpatia.

Olhei-a. Linda! Cabelos loiros lisos e longos, com mechas castanhas, seios não muito pequenos, quadril bem desenhado e belo par de coxas. Trajava tomara que caia branco, embaixo de uma jaqueta jeans com as mangas dobradas até os cotovelos, calça jeans escura e sapatos brancos.

– Fique à vontade. – digo depois de percorrer todo o seu corpo com os olhos.

– Obrigada. – senta na cadeira ao meu lado. – Alessandra. – se apresenta esticando a mão na minha direção.

– Logan. – cumprimentei-a, seco.

Ela ri.

– Pois é… – estico as pernas debaixo da mesa. – Meu pai era fã do Wolverine.

– Quem é Wolverine?

“Quem nesse mundo não sabe quem é o Wolverine?”. Penso antes de respondê-la. Você sabe quem é Wolverine, não sabe? Era a primeira vez que eu topava de frente com alguém que não sabia. Até tia Geralda sabia!

– Dos X-Men… – incrédulo. – Sabe?

– Não. – coloca a bolsa na cadeira à minha frente, do outro lado da mesa.

– É de uma história em quadrinhos, tem os filmes e tal… – pauso ao perceber que não adiantaria nada entrar em detalhes. – Deixa pra lá. Não vai mudar nada você saber a origem do meu nome.

Acho que esperava que fosse parecida com a Dominique. Ninguém é obrigado a saber da onde vem a porra do meu nome. Só achar engraçado já é o suficiente, afinal, não é todo dia que topa de frente com um brasileiro metido a escritor e com nome de personagem mutante de história em quadrinhos. Já encontrou algum?

O rapaz do quiosque traz mais um copo, enche e entrega em sua mão. Nem eu sei por que tinha aceitado a companhia daquela mulher, muito menos como estava disposto a saber quem ela era. Principalmente o que fazia ou deixava de fazer. Talvez meu subconsciente quisesse desabafar com alguém e com isso, tinha tomado controle total sobre mim:

– Um brinde ao meu livro, que está começando a dar certo. – digo forçando um sorriso e erguendo o copo no ar.

– Que legal! Você é escritor? – diz após bater de leve seu copo no meu.

“Não! Sou bailarino do Circo de Soleil”. Penso aos risos.

– Sim. Foi lançado há pouco tempo… Esses dias, na verdade. Sei que é meu, mas se eu fosse você, comprava. – brinco aos risos, procurando descontrair. – É realmente um bom livro, com uma ótima história. Garanto que vai gostar.

– Bacana. – sorri, mas sem esconder a falta de interesse na minha informação. – Eu até compraria se gostasse de ler, mas não sou muito chegada em leitura.

Não preciso dizer que me fez lembrar o dia em que Dominique me disse aquilo, certo? Ou, algumas horas atrás que ela relembrou esse fato e me fez contar a história da puta com o inocente escritor… Não, jornalista.

– Pois é. – olho a cerveja, com medo de olhá-la e ver o que não queria nem devia ver. – As pessoas hoje em dia não andam lendo como antigamente.

– Prefiro os filmes. Se virar filme, com certeza eu verei.

O silêncio reina, mas não como quando estávamos eu e Dominique. Nunca seria. Eu estava cabisbaixo olhando para os meus pés e relembrando o dia em que a encontrei no shopping, jogamos fliperama, assistimos ao filme e fomos parar em um sujinho na esquina. Não era ela ao meu lado, era outra mulher, que pelo visto não tinha nem metade do que ela tinha, mas conseguia me fazer pensar nela. E só.

– Estou te sentindo meio distante e triste. Aconteceu alguma coisa? – pergunta como se realmente se importasse.

Olhei-a. Sei que o fato de ter sido descoberto aumentou aquela tristeza e decepção comigo mesmo.

– Está tão visível assim? – me entrego.

– Não sei se é o seu jeito, pois acabei de lhe conhecer. – sorri. – Mas você não aparenta estar bem… Sinto o cheiro de longe.

Voltei os olhos para meus pés, acendi um cigarro.

– Está certa. – tomava coragem para desabafar com a estranha. – Esse não é meu jeito. É que, simplesmente, meu mundo desabou.

– Se quiser desabafar, fique à vontade.

Mal sabia ela que já estava me preparando para fazer aquilo. Ou já imaginava. Sei lá. Peguei outra cerveja e enchi nossos copos. Ajeitei-me na cadeira, respirei fundo e comecei.

– Há mais ou menos cinco anos atrás eu conheci uma mulher. – pauso para organizar os pensamentos. – Nos conhecemos por acaso. Eu tinha tirado o dia para sair por aí em busca de alguma novidade. – sorri ao lembrar e sem saber por que. – E ela acabou sendo a novidade perfeita!

– Que lindo! – sorriso largo.

Só percebi que eu estava sorrindo quando ouvi esse comentário. Pigarreei e engoli aquele sorriso, dando longa golada em seguida, para que descesse goela abaixo.

– Combinamos de fazer um jogo onde deixaríamos nossos encontros nas mãos do destino. Não trocamos telefone, nem nada. – já estava sorrindo de novo. – O destino seria o encarregado de nos colocar frente a frente, caso ele quisesse que nos encontrássemos…

– Legal!

Interrompe-me. Os pensamentos se embaralham novamente e perdi a vontade de distribuir as cartas de novo. Ela tinha mesmo que ficar fazendo esses pequenos comentários? Isso me irrita! Fora que não queria perceber que contar os fatos, por mais que para uma pessoa completamente estranha, me deixava feliz. Olhei-a e notei que estava visivelmente desinteressada na história, apenas se fazendo de legal para continuar bebendo de graça e as minhas custas. Foi então que me toquei… Devia ser prostituta. Que óbvio, babaca! Novamente demorou um século para perceber.

– Vamos deixar esse assunto de lado. – não resisto. – Vamos falar de diversão. – forcei um sorriso. – Quanto é que custa o teu playground?

– Duzentos reais. – sorri maliciosa.

Na mosca, Logan! Seu bobinho.

– Duzentos?

– Isso… Duzentos reais, trinta minutos, serviço completo sem anal.

– Vai descontar as cervejas que bebeu? – respondo pensando: – Serviço completo sem anal? Não faz sentido.

Ficou desconcertada.

– Relaxa, é brincadeira. – levanto. – Mas pode ir procurar outro cliente, não estou a fim de brincar.

Vou até o quiosque, pago o que bebemos e pego uma cerveja latão para me acompanhar.

– Eu deixo você me chamar pelo nome dela se você quiser. – diz atrás de mim.

– O quê? – virei-me rapidamente, furioso. – Ela é uma puta muito melhor que você! – esbravejo. – Pode ter certeza disso! – e saio com passos largos pelo calçadão de Copacabana.

Imagino que a pobre Alessandra não entendeu nada, mas realmente não tinha nada para que entendesse ou algo que realmente entenderia. Continuei meu caminho, me aproximando cada vez mais do mar. Eram quase quatro horas da manhã, semideserto, tirando as regiões onde ficavam os bares na calçada do outro lado da principal e os quiosques na calçada perto da praia, que ainda estavam pouco movimentados. Em um deles rolava até roda de samba.

Chegando bem próximo ao mar, tirei os tênis e deixei a água molhar os pés. Sentei na parte que o máximo que a água vinha era na ponta dos dedos. E lá estávamos nós: eu, cigarro, latão, mar, ondas indo e vindo, céu estrelado, lua rindo da minha cara e aqueles mesmos pensamentos. Parecia que a cada vez que a onda vinha em minha direção, trazia algo mais a se pensar, e quando partia, não levava nada. Cadê a Zebra nessas horas?

Olhei para o relógio, quatro e vinte três. Levantei com o maço na mão esquerda e os tênis na direita. Sei que é feio, mas o latão ficou ali mesmo na areia para que a onda fizesse o que eu deveria ter feito. Fiquei observando a onda vir e levar, imaginando como se fosse eu no lugar daquele pequeno objeto metálico, meio amassado e que ia afundando aos poucos conforme a água o adentrava. Assim que sumiu, calcei meus tênis, dei as costas para o mar e fui andando de volta ao calçadão. Estava decidido a me afogar mais ainda no álcool, como o latão que se afogou no mar. Quem sabe não seja salvo por coma alcoólico? Ajudaria a desligar esses pensamentos conectados a um potente gerador de energia.

Atravessei a principal e fui adentrando a primeira rua que vi, parando em um sujinho bem vazio. Sentei-me à mesa vaga que estava na calçada e logo pedi cerveja. Mal encho meu copo e uma mulher já aparece sentando na cadeira à frente e se anunciando:

– Oi gato. – me aborda, a versão feminina do Don Juan.

Respiro fundo enquanto a encaro e bebo. Essa já lembrava um pouco Dominique, mas não a nova, a antiga: cabelos negros e curtos, daqueles ondulados que queriam ser encaracolados e faziam questão de deixar isso bem claro; camiseta vermelha, bem justa ao corpo, avolumando bem seus seios siliconados e “acesos” por conta do frio e a falta de um sutiã. Encarando-me com sorriso e aqueles falsos olhos verdes, que até o mais leigo perceberia que eram lentes de contato.

– Carla. – estende a mão na minha direção sobre a mesa.

Depois de alguns segundos olhando sua mão, resolvo cumprimentá-la após pôr o copo na mesa:

– Logan.

– Posso te acompanhar na bebida?

– Por favor.

Levantou, foi até o balcão e voltou com copo vazio, sentando-se novamente.

– Então, de onde você é? – pega a garrafa e começa a encher o copo. – Nunca o vi por aqui.

Aquilo estava começando a ficar familiar de mais para o meu gosto. Será que todas as garotas de programa agiam iguais ou era mera coincidência? Não é possível! Tem um roteiro específico essa merda?

– Importa mesmo de onde sou? – pergunto indignado. – Sabemos nós que nem o meu nem o seu interesse, é de que nos conheçamos melhor. – incrível como estava ficando cada vez mais direto e ignorante. Mas, pelo menos, dessa vez percebi cedo.

Sorri, cruza os braços e dá um tempo para terminar de processar as informações.

– Mas nada impede que conversemos um pouco, não acha? – insiste.

– E sobre o que você quer conversar? – começo a ficar rabugento. – Não nos veremos mais depois disso e você sabe mais do que eu… Não tem essa de destino…

– Eu sei. – me interrompe. – Você parece ser bem interessante. – faz pouco caso da minha recente apresentação ogra.

– Vai me desculpar, mas não caio nessa conversa duas vezes. – sorri sarcástico.

Faz cara estranha, permanece em silêncio.

– Vocês são sempre assim? – pergunto impaciente.

– Vocês quem? – franze a testa sem entender. – Assim como? – olhava-me com cara feia. Acho que realmente já estava começando a deixá-la irritadíssima. Bingo! Continue assim, garoto.

– Deixa… Você não tem nada a ver com isso. – desvio o olhar para a barata passando perto da folha de alface no chão.

– Acho que sei qual é o seu problema. – com sorriso irônico, que me deixou puto da vida. – Apaixonou-se por uma garota de programa. – e diz com todas as palavras, como se fosse vidente ou já soubesse, mas estava evitando tocar no assunto para não cutucar minha ferida.

Meu coração dispara. Não é possível, devia estar jogando verde. Como saberia disso? Só se fosse amiga de Dominique, trabalhassem juntas ou algo do tipo. Explicaria o roteiro. Foi quando esse pensamento passou pela cabeça, que me entreguei:

– Você a conhece? Cadê ela? – pergunto me erguendo com as mãos apoiadas nos braços da cadeira, olhando tudo ao redor. – Onde ela está?

– Calma. – diz aos risos. – Não a conheço, muito menos sei quem é. Não é o primeiro que encontro passando por isso… E te garanto que não será o último. – como se fosse me confortar, mas consegue me domar.

– Sério? – recosto na cadeira e fico dócil. Só faltava abanar o rabo.

– Agora quer conversar? – gargalhada alta. – Vocês são TODOS iguais.

– Agora que tocou num assunto tão interessante… – digo tratando logo de encher os nossos copos. – Prossiga, por favor.

– Como assim? Diz o que quer saber ou me conte como foi. Só assim terei algo a dizer.

– Mas quem me garante que vai ser sincera?

– Como você mesmo disse. – faz uma pausa e olha para o alto, como se olhasse para alguma lembrança. – Não nos veremos mais depois de hoje. – volta a me olhar. – Independente de sinceridade ou não, você não é obrigado a acreditar no que não quiser acreditar.

Pelo menos essa parecia ser inteligente.

– E se nos virmos? – digo desconfiado. – O destino nos prega muitas peças.

– Pode ter certeza que se nos encontrarmos de novo, se quiser, finjo que não te conheço. Não vai mudar em nada a minha vida saber teu problema ou virar sua amiga. – respira fundo. – Pelo que vejo, estou muito mais familiarizada com esse tipo de problema. – começou a fazer trejeitos esquisitos com as mãos e meneava bastante a cabeça. – Só estou oferecendo uma pequena ajuda… Sei lá… Talvez uma pequena solução… Nada de mais, sabe? Assim como posso me levantar agora e ir embora. Simples. – sorri cheia de si.

– Desculpa. – baixo a cabeça. – É que foi muito recente.

– Se não quiser contar, não tem problema algum. Não é obrigado a me contar nada, não sou sua psicóloga. Podemos conversar sobre coisas bobas, que não existem, ou ficar calados e continuar fazendo companhia um ao outro na bebedeira. – dá uma golada. – Já que não vai querer sexo, eu vou ser legal e racho a conta contigo no final. – me analisa com os olhos. – Não tem mesmo o perfil de quem seria o último cliente da noite, e já chega de programa por hoje. – faz piada. – Quero relaxar, tomar umas e ir pra casa bem tranquila. – estica os braços para os lados.

– Eu vou contar. – coço o ombro esquerdo com a mão direita. – Deixa só me preparar para começar.

– Vou pegar outra cerveja enquanto isso.

Levanta e vai até o balcão. Quando volta, enche nossos copos e senta.

– Pronto? – sorri amistosa.

Afirmo cabisbaixo. Não conseguiria contar olhando-a. “Que ironia do destino… Desabafar sobre uma prostituta, com outra prostituta!”. Pensei enquanto me preparava para contar.

– Bom… – comecei. – Quando eu a conheci, não sabia que ela era pu…

– Garota de programa. – interrompeu-me rápido.

– Isso. – sorri sem graça. – Não sabia que ela era garota de programa. – reformulo a frase. – Eu tinha tirado o dia para sair para algum lugar que eu não conhecesse, pois estava cansado de ir para os mesmos lugares, ver os mesmos rostos… Precisava de alguma novidade.

Continuei contando entre um gole e outro, com algumas pausas para acender outro cigarro, pedir cerveja… Quando terminei de contar, já era dez para as seis da manhã, o céu já estava naquele tom laranja rosado e a rua estava completamente deserta. Raramente passava carro, ou ônibus, ou algum pedestre. Estávamos no único bar aberto naquela rua e prestes a ajudar o dono a fechar.

– E tem dúvidas que ela te ama? – me pergunta no fim do relato.

Fico sem saber o que responder. Olhava para ela enquanto procurava por resposta dentro de mim.

– Tem dúvidas? – insiste.

– Não é bem dúvida. – olho para o copo vazio, como se fosse meu reflexo. O encho novamente, mas não encontro boa resposta, nem me encho. – Realmente não é dúvida.

– Preconceito! – julga, corretamente. – Não aceita o fato de ter se apaixonado por uma garota de programa, mesmo sabendo que ela o ama.

Meu silêncio me condena.

– De todos os casos que já ouvi, o seu é o primeiro diferente.

– Por quê?

– Na maioria, o amor não é recíproco… Eles já sabem que a garota faz programa e são quase todos casados. A gente se molda ao jeito que eles preferem ou que gostariam que a esposa fosse… E acabam pensando que somos realmente daquele jeito e melhor que a mulher que está em casa cuidando dos filhos, preparando a janta para quando ele chegar ter o que comer… Ou então está se envolvendo com outro também… Mas programa com amor é mais caro. – riu. – Muito caro! E no seu caso foi completamente diferente. Você é solteiro… Ela te conheceu como ela mesma e não como garota de programa… Tanto é que nunca mencionou sobre… Muito menos te cobrou algo.

– Mas e quanto ao táxi? – tento fazer o júri ficar ao meu favor.

– Qual o problema? – dá de ombros. – Às vezes ela realmente precisava de uma ajuda para o táxi. Se fosse outra garota, você não daria?

– Daria.

– Então pronto!

– Mas por que ela nunca me disse que era? – continuo tentando trazer o júri para mim, mas já sem esperança. – Se tivesse dito no começo, talvez fosse mais fácil. Poderíamos dar um jeito de resolver.

– Tem certeza? E resolver o quê? Tá louco?

O juiz bate o martelo e o silêncio, minha sentença. Daqueles de quando nos vemos na parede, sem lugar para correr, só esperando o bando de indivíduos apontando armas na sua direção, atirarem. Bang!

– A veja como uma atriz. – apoia os cotovelos na mesa e junta os dedos de uma mão na outra. – As atrizes não interpretam papéis na TV, onde em cada novela ela beija e se esfrega em um ator diferente? Nós também somos assim. – sorri. – Contigo ela estava sendo ela mesma e não da forma que você queria que ela fosse… Ou fazendo programa… Está me entendendo? – averigua como se eu fosse idiota.

– Mas e se estava? – mesmo com sentença já decretada, não queria ceder e aceitar que poderia estar errado. Vamos tentar reabrir esse caso!

– Posso te dar certeza absoluta que não estava! – bate na mesa com o punho fechado. – Deixa de ser preconceituoso, garoto! É feio! Ainda mais nos tempos de hoje.

– Também amam? – pergunto com tom de criança que fica sabendo pelo coleguinha malvado, que Papai Noel não existe e vai perguntar aos pais: – ‘Mãnhê’, Papai Noel não existe?

– Lógico! – responde aos risos. – Somos mulheres como todas as outras. Não é só por fazermos programa, que nos tornamos pessoas sem sentimentos. Aqui dentro também bate um coração. Nunca viu o filme Moulin Rouge?

– Já. Mas, como assim?

– Não lembra a história do filme? O bonitinho de olhos azuis que é escritor se apaixona pela estrela lá do Moulin Rouge, que nunca amou ninguém que não fossem seus diamantes, e ela acaba se apaixonando por ele? A história é triste e ao mesmo tempo linda.

– Lembrei. – sorrio ao me deparar com algumas semelhanças.

– Então… É quase daquele jeito. Não seja tão duro consigo mesmo e com a garota. – pousa a mão na minha sobre a mesa e acaricia. – Você tem que largar de lado esse preconceito… Não vai te levar a lugar algum.

– É difícil. – digo cabisbaixo, já começando a ceder.

Olha para o relógio digital que havia em um painel no outro lado da rua.

– Já amanheceu e a conta deve estar cara. – solta uma gargalhada gostosa. – Vamos pagar logo isso… Aí você vai para sua casa e pensa bem. Mas pensa bem, mesmo, ouviu?

– Sim. Vai ser inevitável não pensar.

Pediu a conta enquanto eu acendia meu cigarro e já começava a pensar.

– Noventa reais. – diz esticando o papelzinho na minha direção.

– Isso tudo? – pego o papel e confiro o cálculo. – A cerveja é bem cara aqui. – coço a barba cerrada com a mão esquerda.

– Quarenta e cinco pra cada, nem fica tão caro. – abriu a bolsa e colocou quarenta na mesa. – Vou cobrar cinco reais pela conversa. – brinca. – Coloca cinquenta aí e fica tudo certo.

Quando abri a carteira, cinquenta reais era a única coisa que tinha além das míseras moedas de dez centavos, que não deviam chegar nem a dois reais. Fui gastando e gastando sem me dar conta do quanto poderia ter gasto. E agora? O que faria? Ainda não tinha deixado meu preconceito de lado e boa parte do orgulho. Nem morto falaria para aquela garota de programa, que eu não tinha dinheiro para pagar a minha parte na conta. Seria humilhante! Era só ligar para meu assessor, explicar a situação e pronto, viria correndo me buscar. Coloquei a nota e o papel em cima da mesa. Pegou-os e foi até o balcão. Abri o maço… Seis cigarros. Daria para fumar enquanto esperava minha carona. Levantei-me e acendi o primeiro.

– Pronto, conta paga.

– Foi uma boa conversa. – sorri amistoso. – Embaralhou um pouco mais minha cabeça, mas, creio que pra melhor.

– Isso, continua pensando. – disse enquanto nos despedíamos com um beijo em cada lado do rosto. – Continua mesmo! – sorriu.

– Pode ficar tranquila quanto a isso.

– Vai pra qual direção? – pergunta enquanto vasculhava algo na bolsa.

– Vou pegar o metrô. – minto.

– Ah, que bacana, eu também.

Péssima ideia. Não tinha como imaginar que também fosse pegar o metrô. Pensei que morava ali por perto ou que pegaria ônibus, nunca o metrô, que poderia, talvez, ser o mais óbvio se não estivesse tão preocupado e com a cabeça em tantos lugares.

– Vamos? – diz laçando meu braço direito com o esquerdo.

Fiquei sem reação. Sorri desconcertado e começamos a caminhar.

– Você parece ser uma pessoa bem bacana, por mais que tenha conhecido só o seu problema e nada sobre ti.

– Obrigado. – olhava o chão enquanto me concentrava em encontrar saída de mestre, que não fosse a de sair correndo do nada. Imagina a cena.

– Eu tenho vinte e cinco anos… E você, Logan?

– Vinte e nove.

– Legal, eu gosto de homens mais velhos. – brinca aos risos.

– Acho que vou de táxi. – digo ao ver um passando no outro lado da rua, como se fosse boa saída. Saída de amador.

– Pra quê? Vai sair mais caro e metrô é bem mais rápido. – solta meu braço. – Ou está com vergonha de ser visto com uma garota de programa?

– Não! – digo com os olhos arregalados e balançando as mãos. – Já tinha até me esquecido disso.

– É o que está parecendo.

Realmente era o que parecia, pelo fato dela saber que até antes da nossa conversa, o meu preconceito era grande… Enorme… Gigante! E de continuava, mas os pensamentos estavam tão embaralhados que não havia pensado naquilo.

– A verdade, Carla… – respiro fundo e desvio o olhar. – É que aquele cinquenta era a única coisa que eu tinha na carteira. – assumo envergonhado.

– E por que não disse antes?

– Preconceito.

– Você é bem idiota mesmo, hein, garoto. – assentia com a cabeça. – Ficou com vergonha de dizer pra uma mulher, que estava sem grana, quando ela já tinha lhe dito que iria rachar a conta contigo. Podia muito bem tirar sua passagem e dizer o quanto tinha de verdade.

– Pois é. – bufo. – Me perdoa.

– Vou levar em consideração que, a partir de hoje. – enfatizou o “hoje”. – Você vai diminuir cada vez mais esse seu preconceito escroto. – sorriu. – Certo?

Confirmo com a cabeça.

– Não esperava mesmo que fosse mudar radicalmente da noite pro dia. E por mais que já tenha me insultado várias vezes hoje com esse seu preconceito, vou apostar nisso. – me deu um beijo estalado no rosto. – Eu te dou a grana… É uma forma de, como defensora das garotas de programas… – ergueu o braço livre no ar. – Te mostrar que somos mulheres legais e interessantes como qualquer outra.

– Está sendo tão legal comigo… – não tem como descrever o quanto estava envergonhado com a boa lição de moral que estava recebendo. – Nem sabe se realmente mereço.

– Isso você vai me mostrar com o tempo. – esfrega meus ombros.

– Como assim? – olhei-a sem entender.

– Amanhã ou depois, nos encontraremos novamente, aí você vai me contar se encontrou com ela de novo, como está lidando com isso e vamos dar uma volta no calçadão. Combinado? – estendeu a mão.

– Com certeza. – apertei firme. – Vou voltar aqui amanhã pra te pagar.

– Não precisa.

– Faço questão! E nem vem com essa de que quero pagar só por você ser garota de programa e blábláblá, senão você que estará sendo preconceituosa. – brinco. – Faria questão até se fosse meu melhor amigo.

– Então está combinado. Amanhã, certo?

– Sim! Você está todo dia por aqui?

– De segunda a segunda minhas noites e madrugadas são por essas bandas.

– Me dá seu número pra combinarmos melhor.

Abriu a bolsa, tirou papel e caneta.

– Aqui está. – entregou-me e guardou a caneta na bolsa.

– Patrícia? – olhava para o papel. – Não era Carla?

– Carla é meu nome na noite. – fez careta. – Já que agora seremos amigos, meu nome de batismo é Patrícia.

E demos boas risadas. Ela da situação e eu imaginando se Dominique também não seria nome da noite. Não tinha como me desprender totalmente do meu pessimismo. Seria mudança extremamente radical para mim, que gostava de parar para pensar e analisar os fatos.

Acabou que ela não iria pegar o metrô. Só tinha dito aquilo, pois tinha reparado que a nota de cinquenta era filha única. Despedimo-nos e fiquei de ligar no dia seguinte, para nos encontrarmos novamente. Peguei o metrô começando a ter outra visão sobre garotas de programa e já desprezando, de certo modo, a forma como estava vendo e lidando com a situação. Vi bem, mais do que sabia, como nem tudo é o que aparenta ser. Somos quem podemos ser independente do que fazemos ou do que deixamos de fazer. No fim das contas, estava fazendo o que mais desprezo que façam… Julgar meu livro pela capa.


08 – Resistência


Cheguei a minha casa direto para a cama, e só acordei às quatro da tarde com o celular berrando. Meu assessor dizendo que estava chegando para que pudéssemos conversar melhor sobre o talk-show. Levantei, tomei banho e comecei a arrumar aquela bagunça, enquanto o esperava. Era inevitável não pensar nos últimos dias. Pelo menos agora, meus pensamentos se colidiam bem menos e não me deixavam tão perturbado como estavam causando. Patrícia tinha realmente feito uma revolução em minha cabeça. Quem sabe o próximo livro não fale sobre rapaz preconceituoso batendo de frente com tudo aquilo que desvaloriza e, do nada, aparece alguém o fazendo parecer tremendo idiota com seu preconceito? Só não poderia ser sobre pu… Garota de programa, Logan. Penso comigo. Duas vezes consecutivas, entregaria que tenho realmente problema com o assunto ou pareceria que sou adorador extremo.

Tinha acabado de lavar o banheiro quando a campainha tocou. Sequei as mãos na toalha de rosto e fui até a porta da sala. Era o Helder, meu assessor. Me deixe falar dele, pois é “personagem” de muita importância. O conheci quando tinha quinze anos e ele vinte e cinco, há quatorze anos. Sempre foi pessoa simples com bom coração, que acredita nas pessoas e está sempre disposto a ouvi-las, principalmente sobre novos projetos. Sabe quando você tem uma ideia artística e acredita com todas as suas forças que pode dar certo, mas seu salário mal ajuda a pôr comida em casa? É só passar algumas horas conversando com ele, e seu projeto vai sair do papel. Digo que é meu assessor, enquanto na verdade, também é meu empresário, patrocinador, melhor amigo e qualquer outro cargo que eu precise e ele esteja disposto a ser. Sempre está. E para ser sincero, tudo só começou a dar certo graças a esse fabuloso amigo que conquistei. Se não tivesse o conhecido, talvez, hoje nem seria escritor. Vou explicar melhor…

Quando tinha treze anos de idade, eu e meus pais estávamos saindo de madrugada de uma festa da família por parte de mãe. Meu pai estava alcoolizado e minha mãe nem tanto. Alguns tios e tias ainda tentaram convencê-los de dormir por lá e acordar pela manhã, mas meu pai, até bêbado, era responsável e preocupado com o trabalho. Fora o fato de que nunca gostou de dormir em casa de parente ou de amigos. E quando meu pai colocava uma ideia na cabeça, não tirava de jeito algum, nem por ninguém. Adorava quando ele dirigia bêbado e pisava fundo no acelerador. Ficava no banco de trás sentindo o vento batendo forte no rosto, olhando os carros ficando para trás e sumindo. Brincava de fingir que estávamos em uma corrida e me divertia com os gritos histéricos da minha mãe: “Cuidado Flávio”, “Olha para frente Flávio”, “Diminui essa bodega e para de palhaçada”, “Você é um escroto, para de se apresentar para o seu filho”. E meu pai aos risos, sempre dizia as mesmas coisas: “Estou atento, mulher”, “Estou olhando, cacete!”, “O possante quer correr, não vê?”, “O Logan é um mutante e um grande aventureiro, ele gosta”. É pai… Realmente gostava até acontecer o pior. Nessa madrugada chovia grosso e na má ultrapassagem, meu pai perdeu o controle do carro e batemos de frente em um poste, abrindo o carro em dois até a metade. Não lembro bem, só alguns flashes até a parte que vi o poste ficando cada vez maior, próximo. Apenas anos depois do ocorrido, que fui tomar coragem para ler os jornais que saíram na época, sobre o acidente. Foi trágico. Um dos piores acidentes daquele ano. Mas felizmente, não caiu no sensacionalismo, senão já teria aparecido algum repórter precisando de assunto, procurando pelo menino sobrevivente de um acidente horrível que levou seus pais a morte. Por onde anda? O que tem feito? Superou o trauma? O que acontece com jovens que perdem os pais em um acidente de carro? Essa palhaçada toda que só engradece a alma daqueles que gostam de saber que há por aí pessoas irresponsáveis chocando seus carros em arvores, postes, outros carros, pedestres e etc., as vezes para se sentirem melhores sabendo que “graças a Deus, não passaram por aquilo”. E se um de meus pais fosse alguém importante da mídia, todo ano teria a ajuda de alguns repórteres para relembrar o ocorrido e prestar depoimento no dia que completa mais um ano que blábláblá, merda de macaco. Enfim…

Acordei pela manhã em uma cama de hospital. Sem mover nenhuma parte do corpo, meus olhos percorreram todo o local. Quando dei por mim, estava entrando em desespero e me debatendo a fim de me desprender daqueles aparelhos. Até que, ao ver a enfermeira aparecendo para tentar me acalmar, comecei a gritar: “Eu quero ver meus pais! Eu quero ver meus pais! Cadê os meus pais?”. Lúcia, a enfermeira nada simpática, só conseguiu me acalmar dopando. Conforme minha visão ia escurecendo, a mente ia reconstituindo a cena do acidente, mas, novamente, só até a parte do poste se aproximando. À noite abri os olhos e ao ver minha tia madrinha sentada na poltrona ao lado da cama, já me senti mais seguro.

– Tia. – digo com dificuldades, mas ela cochilava. – Tia! – grito.

Acorda no susto.

– Ah, você acordou. – me olhava por cima dos óculos.

– O que aconteceu?

– Não lembra? – ajeitou-se na poltrona.

– Só alguns flashes. – olhei para o teto. – Acho que batemos em um poste voltando da festa.

– Foi exatamente isso. – levanta e vai à janela no meio da parede atrás da poltrona. – Como está se sentindo? – abre as cortinas.

– Estou bem. – olho na direção da janela, dava para ver parte do céu nublado, só não sabia se chovia. – Mas e meus pais?

– Cada um em um quarto diferente. – olhava a rua.

– Mas estão bem? – sabia que tinha algo estranho por ela evitar me olhar. – Por que não estamos no mesmo quarto?

– Acho que são perguntas que deve fazer ao médico, não a mim.

– E por que não está lá com eles ou com minha mãe? Ela é sua irmã! – esbravejei.

– Garoto, não me encha de perguntas. – virou-se para mim, ajeitou os óculos. – Se quer que eu saia, eu saio, é só falar. – virou-se de costas novamente e fechou as cortinas. – A enfermeira que pediu para que eu ficasse aqui te fazendo companhia. Por mim eu já teria ido embora.

Apesar de ser minha tia madrinha, sempre foi pessoa fria, e às vezes parecia demonstrar bem o quanto não gostava de mim e que não estava nem aí. Desde quando era criança, nunca conseguia imaginar por que meus pais tinham a escolhido para ser minha madrinha, com tantas outras tias legais, extrovertidas e amorosas. Verdadeiros anjos comparados à tia Geralda. Perguntava-me se algum dia já tinha sentido amor e demonstrado afeto por alguém. Só fui entender anos depois, quando fui morar com ela. De todas as tias, tia Geralda, mesmo sendo a caçula, sempre foi a mais responsável e que mais puxava a orelha das irmãs, quando jovens. Para os meus pais, realmente era a pessoa ideal para cuidar de mim caso acontecesse algo, já que o meu padrinho sumiu na vida com uma Angolana que conheceu em uma viagem que ele e meu pai fizeram à negócios. E de fato, querendo eu ou não na época, não estavam errados.

Depois de semanas sendo preparado psicologicamente por Psicóloga para receber a notícia de que meus pais haviam morrido naquele acidente, fui morar com tia Geralda. Foi aí que conheci o Helder. Ele morava na mesma rua e vira-mexe nos esbarrávamos voltando para casa, eu do curso de francês e ele… Bom… Não sei, assumo. Nunca tive curiosidade de saber. Até que em um desses encontros, ele bêbado, puxou assunto:

– Rapaz, eu te conheço de algum lugar. – me aborda cambaleando.

– Moramos na mesma rua. – digo aos risos.

– Ah é? – faz cara engraçada, surpreso.

– Sim.

– Já nos conhecemos? – para cruzando os braços, pensativo.

– Só de vista.

– Ah é? – fica olhando para o céu, devia estar tentando lembrar de algo.

– Sim. – fazia força para não cair nas gargalhadas com aquela situação.

– E é filho de quem? – voltou a andar, me acompanhando.

– Sou sobrinho da Dona Geralda.

– Ah é? – outra cara engraçada.

– Sim.

Estava cada vez mais difícil segurar o riso. Já não o olhava, pois o mais engraçado era as caretas que fazia surpreso e o jeito de andar ziguezagueando. De repente solta gargalhada e quase vai ao chão. Segurei-o, sem entender patavinas de sua crise de risos.

– O que houve? – pergunto curioso.

– Já perturbei muito a Dona Geralda com a molecada aqui da rua. – e ria muito. – Rapaz, sua tia me odeia.

Aí está algo bastante interessante. Pensei na hora.

– Sério?

– É rapaz, estou te falando. – se recompôs. – Já quebrei muita vidraça dela jogando bola na rua com a molecada, mandava-os tocarem a campainha dela e saírem correndo… Ela aparecia furiosa na porta e os chamando de tudo quanto é nome. Dizia que eu era o mestre da vagabundagem, que ficava induzindo e treinando as crianças para serem grandes vagabundos malandros como eu. – e ria de chorar.

– Ela é muito chata, não gosta de ninguém.

– Que isso, rapaz? Não diga uma coisa dessas. – sua expressão fica séria. – Ela só é durona por fora… E é sua tia.

– Por isso mesmo. Sou sobrinho e sei bem do que estou falando. Nunca vi aquela mulher dar um sorriso ou demonstrar afeto por alguém. Vai por mim, é experiência própria.

– Não significa que ela não goste. Às vezes é só o jeito dela.

– Duvido muito.

– Quem somos nós para julgar um mero mortal semelhante? – levanta o dedo no ar. – A única pessoa que ganha dinheiro fazendo julgamentos é o juiz. – ri. – E mesmo assim… – soluça. – Às vezes ele julga culpado, um pobre inocente.

Já dá para ver com quem comecei a aprender a não julgar livro pela capa, certo? Depois de ver aquele jovem-bêbado-sábio me quebrando nas ideias e dizendo coisas sábias e inteligentes que nunca tinha ouvido nem de um velho-sóbrio-sábio, passei a fazer questão de quase todo dia passar na sua casa para conversarmos e trocarmos conhecimentos. Com dezessete anos me senti à vontade para desabafar sobre meus pais e comentei que estava escrevendo uma história baseada no acidente. Encarava o que escrevia como forma de desabafar e ajudar a lidar com aquilo. No começo ele dava ideia de que eu poderia transformar em livro e tentar publicá-lo, mas eu só levava na brincadeira e dizia que publicaria em uma editora grande e faria enorme sucesso. Mas sempre era da boca para fora, não levava a sério.

Depois disso, pelo menos uma vez por semana ele me perguntava como andava o livro e me incentivava. Então, involuntariamente, comecei a ver como livro e não desabafo. Sempre que findava novo capítulo, o deixava ler. Cada vez mais dizia que realmente deveria tentar publicá-lo quando terminasse e que ele poderia me ajudar financeiramente, pois sabíamos que minha tia não apoiaria aquela ideia de “vagabundo”. Aos poucos fui cedendo e realmente acreditando na hipótese de que poderia vir a ser bom livro, não só mero livro.

Terminei na semana do meu décimo oitavo aniversário, quando já estava decidido que seria escritor, afinal, estava gostando demasiadamente de escrever. Sentia-me bem quando me trancava no quarto. Ficava horas escrevendo e relendo. Minha tia queria que fizesse faculdade de direito e vivia me recriminando desde que comecei a aprender a tocar violão com o Helder. Dizia que estava me induzindo a ser vagabundo malandro como ele. Então tive que começar a omitir sobre minhas visitas a sua casa e passei a dizer que tinha ido à casa de algum amigo da escola ou do curso, para fazer trabalho.

No dia do meu aniversário, como sempre sem comemorações, resolvi contar sobre a minha ideia. Discutimos feio quando começou a falar que era coisa de vagabundo e que não me traria futuro algum, que devia fazer o que ela falava, pois aí sim seria alguém na vida e etc. Mas estava decidido, e tia madrinha alguma mudaria a minha ideia ou os meus planos. O futuro é meu! Então arrumei minhas malas e saí de casa. Tia Geralda pediu para que só retornasse quando tirasse aquela ideia idiota da cabeça e resolvesse fazer a faculdade de direito, para me tornar advogado, fazer prova para delegado ou, quem sabe, me candidatar a Presidente da República. Era só o que faltava. Fui direto para casa do Helder, que me acolheu sem pensar duas vezes. Conversamos sobre e decidimos publicar o livro. Seria meu empresário e tudo que precisasse. E a única coisa que se tornou sem querer, foi um grande irmão mais velho e melhor amigo. Talvez, como tia Geralda, você me pergunte: “Mas o que esse vagabundo malandro faz da vida?”.

Helder veio de família rica, mas nunca quis ser o sucessor do pai na empresa renomada e bem sucedida. Sempre quis correr atrás dos seus ideais e ajudar as pessoas. Se seu pai deixasse em suas mãos, em um mês levaria à empresa a falência usando o dinheiro para projetos culturais, musicais e quem ele achasse que realmente precisava de ajuda financeira para construir um sonho. Bem mais bacana do que muito artista por aí que só faz caridade com a ajuda de algum patrocinador de seu programa e não precisa tirar um putinho do bolso de ouro. Então quando fez dezoito anos, Helder limpou a conta bancária que os seus pais tinham feito para ele desde seu nascimento (para quando tivesse idade ir cursar faculdade nos EUA), e saiu sozinho, levando só as roupas do corpo. Comprou aquela casa barata na rua da tia Geralda, móveis de segunda mão e começou a fazer seus investimentos. Com vinte e cinco anos já era empresário de duas bandas, produziu diversos eventos, tinha reformado uma instituição de caridade, e uma lista de coisas que não me recordo agora. Fora os investimentos que fez nesse meu primeiro livro, que não trouxe muitos retornos, mas o suficiente para Helder ter de volta o que tinha investido, me deixar com um livro publicado no currículo e tirar aquela mixaria, que me deixava feliz, como “salário”.

Com esse dinheiro que ganhava com as poucas vendas mensais, eu juntava para poder lançar novo livro sem que Helder tivesse que investir boa quantia sozinho. Terminei de escrever minha segunda obra chegando aos meus vinte anos. Desde então, Helder é o meu assessor, agente, irmão mais velho e etc. Só voltei a visitar tia Geralda para dizer que aos poucos tudo estava dando certo e levá-la para conhecer o apartamento onde eu estava morando sozinho. A última vez que a vi foi nesse dia. Estranho… Tenho que visitá-la mais vezes. Mas bem que ela podia me visitar também ou ligar, mesmo que seja pra saber se já mudei de ideia e seguiria seus planos para mim.

Voltando ao momento em que estava indo abrir a porta para o meu assessor:

– Meu escritor predileto. – diz Helder abrindo os braços e o sorriso. – Como vai?

– Com a cabeça embaralhada, mas tudo bem. – digo abraçando-o. – Entra.

– O que houve? – pergunta já entrando e sentando-se no sofá.

– Relaxa, já conversaremos sobre. – fecho a porta. – O que vai querer beber? – pergunto caminhando até o minibar.

– Não sei. – estica os braços no encosto do sofá. – O que temos aí para degustação?

Chegando ao minibar, agachei e notei que já tinha acabado todo o meu estoque.

– Merda. – lamento.

– O que houve?

– Esqueci que o minibar está vazio. Vou ver se tem algo na geladeira.

– Beleza. – acende cigarro. – Onde está o cinzeiro? – encara o bicho de pelúcia na mesa. – E que porra de Zebra é essa aqui?

Sempre contei tudo ao Helder, mas tinha omitido sobre a parte da Zebra.

– Vê se não está embaixo da mesinha. A Zezé é uma longa história… Já iremos conversar, relaxa. – e fui até a cozinha.

– Zezé? – se pergunta. – Ele falou Zezé mesmo?

Abri a geladeira e nada de cerveja. Voltei decepcionado para a sala.

– Sinto muito, não tem nada.

– Isso é um fato inédito! – diz aos risos. – É a primeira vez que visito Logan Harper e não tem nenhum tipo de bebida alcoólica… Impossível! Olhou direitinho? – levanta rápido e tira o celular do bolso. – Temos que registrar esse momento histórico. – me abraça com o braço esquerdo e estica o direito virando a câmera na nossa direção. Selfie.

– Que Logan Harper o que, rapaz?! – o empurro. – Não tem nada a ver. – não consegui conter a risada. – Mas tem álcool puro, serve? – brinco.

– Faz o seguinte. – guarda o celular no bolso. – Se arruma aí e vamos naquele sujinho ali embaixo tomar umas e pôr o papo em dia. – amassa o cigarro no cinzeiro. – Temos muitos assuntos para pôr em dia. Principalmente sobre o talk-show.

Troquei de roupa e saímos. A conversa já se deu início quando a porta do elevador se fechou, assim que apertei o botão do térreo.

– Não nos vemos desde a sua noite de autógrafo. – diz Helder.

– Você teve que sair às pressas e me deixou lá sozinho.

– Eram pepinos de emergência, não tinha como não ter ido resolvê-los.

– Nem deu em nada grave. Ocorreu como o planejado e cumpri o horário estipulado.

– Muito bom. – bate o ombro no meu. – E aí, gostou?

– De quê? – olhava para o painel do elevador que indicava os andares.

– Como assim? – deu cotovelada de leve na minha costela. – Foi sua primeira tarde de autógrafo, grande escritor.

– Verdade. – sorri orgulhoso. – Foi interessante e bacana. – respiro fundo ao lembrar o final. – Mas aconteceu outra coisa.

O silêncio pairou dentro do elevador e só se dissipou quando a porta se abriu.

– Ela apareceu? – pergunta saindo do elevador.

– Sim. – o acompanho.

– E aí? Pela sua aparência, ouso dizer que não foi positivo.

– Foi uma loucura, mas deixa chegar ao bar. – pigarreio. – É uma longa história que deu outra longa história e por aí vai.

Chegando ao bar, sentamos perto do balcão, pegamos cerveja, dois copos e uma dose de cachaça.

– É para dar uma moral na conversa. – digo a Helder depois do pedido e ao reparar sua expressão curiosa.

Virei-a em uma golada só, sentindo aquela ardência interior e fazendo careta.

– Essa é boa! – digo com os olhos cheios de lágrimas e com dificuldade por conta da ardência. – Danada!

– Você é muito doido. – diz aos risos enquanto enchia nossos copos.

Contei-lhe tudo e com os mínimos detalhes sobre aquela noite de autógrafo e meu reencontro com Dominique. Conforme contava, notava as expressões cada vez mais surpresas em seu rosto. Quando terminei a história, acho que nem ele acreditava que aquilo tinha acontecido.

– Você é profeta! – diz com os olhos arregalados.

– Profeta é o cacete! – já conseguia lidar aos risos com aquela história. – Profetizei sem querer… Eu acho. – coço a cabeça.

– Estou perplexo. Sério mesmo. Eu não sei como reagiria se soubesse que a Ivone é garota de programa. – cruza os braços. – Não consigo me imaginar na sua pele, Logan.

Esqueci-me de mencionar a Ivone. Só lembrei-me dela agora. Ela é completamente o avesso do Helder. Bom… Até anos atrás não fazia ideia de como ele tinha se apaixonado por ela. Vez ou outra ficava desconfiado que pudesse ter sido macumba ou algo do tipo, por que é impressionante o quanto ela o tem nas mãos, fazendo todas as suas vontades. Nos conhecemos há nove anos atrás, quando ele veio falando que tinha encontrado um futuro novo sucesso da Música Popular Brasileira e que iria produzi-la. Levou-me ao evento que estava fazendo em pequena casa de show, para divulgá-la, e nesse nosso primeiro encontro, tivemos já a primeira desavença. Era óbvio que a intenção do Helder não era só produzi-la, estava encantando por ela desde que bateu os olhos naquele pedaço de pecado, pois realmente, Ivone era linda. Independentemente do tipo de som que ela tocasse, ele estaria lá com essa ideia louca de produzi-la, pois não vi sucesso algum naquele show. Sei que não devia, mas por conta de muitas e muitas doses de uísque, fiquei sincero o suficiente para dizer que tinha achado uma boa merda o show, quando ela veio cheia de graça – e com intimidade que eu desconhecia – me perguntar: “E aí? O que achou? Seja sincero”. Acho que, talvez, se não tivesse pedido para ser sincero, poderia até mentir com: “Ah, é bacaninha seu show, hein! Uou!”. Mas, pediu sinceridade e não soube ouvi-la. É uma pena ter ficado tão nervosa, dito que não sou bom entendedor de música de verdade e que não apreciei a arte do seu show. Então retruquei dizendo que, talvez, se pintasse quadros no palco, poderia apreciar a porra da arte, mas não seria um show. E assim deu-se início a nossa discussão. Quando Helder nos viu batendo boca, ficou louco e sem saber o que fazer. Com certeza pirou na dúvida: “Estou do lado do meu melhor amigo ou do lado da, talvez, linda futura mãe dos meus filhos?”. Optou por uma terceira opção que lhe surgiu na hora, que era jogar a garrafa de uísque no chão. Olhei-o com os olhos arregalados enquanto o silêncio rendeu nossa discussão. Helder ria de nervoso, e do nada disse: “Opa! Esbarrei sem querer!”. Nessa hora, não sei o que deu em mim, mas caí nas gargalhadas e quase urinei nas calças. Juro. Afastei-me dela, o abracei e me despedi dizendo que não queria estragar a noite dos dois. Desde então passou a me odiar e tentar fazê-lo ficar contra mim, sem sucesso. Por isso, às vezes Helder não podia estar no mesmo lugar que eu e tinha que sair às pressas de uma noite de autógrafos minha. Compreensível, por sinal. Aí você pergunta: “E ela fez sucesso?”. Se tivesse feito, juro que teria me matado ou nunca mais ouviria MPB na minha vida. Sei que, no fim das contas, o que mais doeu nela foi saber que eu estava certo. Corretíssimo. E acabou tornando-se apenas a mulher do Helder, e dona dos saldos negativos dos cartões de crédito com bandeira internacional.

Voltando ao bar…

– Passei o dia todo mal e a noite resolvi ir lá pra Copacabana, espairecer e pensar na vida. Mal parei no quiosque da praia e já me aparece uma garota de programa, rapaz. Tinha que ver.

Contei-lhe sobre essa parte e entrei nos mínimos detalhes quando comecei a falar sobre Patrícia e a sua boa lição de moral.

– Cara, na boa mesmo? – cruza os braços, expressão séria. – Foi bom você ter encontrado com essa Patrícia. Não vou mentir pra você. Já me envolvi com muitas garotas de programa.

– Sério? – pergunto surpreso, pois achava que não fazia seu feitio.

– Muitas delas se mostravam frias, do tipo “Você tem meia hora, anda logo, seu merda”. – ri. – Outras eram muito amorosas, realmente a ponto de serem apaixonantes. – olha para o chão, pensativo. – Uma vez eu esbarrei na rua com uma dessas amorosas que já tinha me relacionado e ela agiu como se nunca tivesse me visto na vida. – voltou a me olhar. – Ela tem razão, a Dominique te ama. E agora?

Matei o copo de cerveja e fiquei cabisbaixo, com os braços cruzados sobre o balcão.

– Sinceramente, não sei. – murmurei. – Acho que joguei tudo para o alto dessa vez.

– Não tem como encontrá-la? Não tem o número dela ou não sabe por onde ela anda? Nenhuma pista? Nada de nada?

Apenas neguei com a cabeça, bastante desapontado.

– É irmão… – me abraça. – Quando a vida supera a ficção.

Silêncio.

– A quero de volta, Helder. – digo com tom triste, os olhos marejados olhando-o.

– Cacete! Não fica assim que isso me mata. – diz como se fosse culpado por algo. – Se eu ainda pudesse fazer alguma coisa… Ou se nós pudéssemos fazer algo. – respirou fundo, passou as mãos na cabeça. – Mas o que podemos fazer?

– Nós não podemos fazer nada. – jogo a cabeça para trás, olhava para o teto. – Vou ter que contar com o maldito destino novamente, para nos pôr frente a frente outra vez.

– Mas não fica assim. – me abraça novamente. – Levanta essa bola, vai. – enche meu copo. – Vão se encontrar novamente e poderá ajeitar tudo. O destino não vem colocando vocês frente a frente há anos? – dava o seu melhor para me reanimar.

– Será mesmo que nos reencontraremos de novo? – apesar do pessimismo, queria acreditar naquilo.

– Vai sim! Não foi assim das outras vezes? Então? Relaxa! – sorri. – Canta comigo agora…Amigo, estou aqui. Amigo, estou aqui. Se a fase é ruim e são tantos problemas que não tem fim. Não se esqueça o que ouviu de mim

– Amigo estou aqui!

As pessoas no bar já começavam a olhá-lo de cima a baixo.

Os seus problemas são meus também! E isso eu faço por você e mais ninguém. – bate no meu peito. – O que eu quero é ver o seu bem. – leva a mão ao próprio peito. – Amigo, estou aqui.

– Eu sei que está. – sorrio. – Agora chega, já estão te olhando e rindo da sua apresentação.

Os outros podem ser até bem melhores do que eu, bons brinquedos são. – e para piorar, começou a dançar. – Porém, amigo seu é coisa séria, pois é opção do coração. Viu? – sorriso largo e palhaço. – O tempo vai passar. – ergue o copo no ar. – Os anos vão confirmar as três palavras que proferi... – coloca a outra mão fechada no meu queixo como se estivesse segurando um microfone.

Amigo, estou aqui! – não resisti e cantei.


09 – Mudanças


Passamos a tarde bebendo e conversando. Helder disse que a gravação do talk-show seria na quinta, dia 17 de julho, e a exibição seria na madrugada do dia 21 de agosto. Me preparou dizendo que o entrevistador não ficaria fazendo só perguntas sobre o livro, então, era para ter muito cuidado com o que responderia, pois poderia ter alguma repercussão negativa. Já estava preparado, pois, afinal, vejo aquele programa há anos. Conheço bem o jeito de fazer piadas, brincadeiras e os eteceteras do entrevistador. Não tem como dar ruim. Tudo bem que a teoria nem sempre sai corretamente como esperamos na prática, mas vale ressaltar a possibilidade de que possa sair. Sempre! Perfeito!

Continuamos nossa conversa até Ivone ligar, por volta das seis e quarenta. Até achava engraçado, pois sempre que ela ligava e estávamos em um bar ou em outro lugar movimentado, ele olhava para o celular, arregalava os olhos, olhava para um lado e outro, e depois corria para a parte mais vazia do local. Eu já deduzia logo quem era. Minha confirmação chegava quando ele voltava minutos depois. Dessa vez não foi diferente.

– Era a Ivone. – disse ao voltar, colocando o celular no bolso.

– E aí?

– Ah… – expirou forte e com expressão de derrota. – Você já sabe. – e matou o copo.

– Terá que ir até ela, certo?

– Sabe como é, né? – sorri sem graça. – Está precisando de mim por perto. – cutuca os bolsos. – Está com grana pra pagar a conta? Vai continuar bebendo?

– Isso que eu tinha que falar contigo. – passo a mão na nuca, desconfortado. – Estou zerado de novo… Ainda tem alguma coisa minha lá na conta?

– Já disse que devia abrir uma conta bancária. É bem melhor do que eu ficar guardando e te dando conforme precisa. Tudo bem que rende, mas, e se precisar numa hora que eu esteja ocupado?

– Não gosto de bancos… E pelo menos assim não gasto mais do que devia. Fora que, o dia que eu precisar e estiver ocupado, vou saber que ela conseguiu concluir o plano de nos afastar. – brinco aos risos.

– Mas você sempre gasta mais do que devia, Logan. E não é bem assim que a banda toca. Sabe disso.

– Eu gasto certinho. Tanto é que você vive falando que sobrou tanto no último mês.

– Eu sei. Mas uma hora ou outra pode ultrapassar sua cota.

– Fica tranquilo. Tem ou não tem?

– Tem. – tira a carteira do bolso. – Vamos passar no banco pra tirar. – acena para o dono do bar, pedindo a conta.

– Pode me dar uma carona até o metrô?

– Aonde vai?

– Não disse que fiquei de encontrar a Patrícia, pra pagar o dinheiro que me emprestou?

– Já combinou o local e ligou pra ela? – pega o papel com a conta.

– Vou ligar no meio do caminho.

– Beleza. – tira algumas notas da carteira e entrega junto da nota. – Fica com o troco. – diz para o dono do bar e vira-se na minha direção. – Vamos?

Saímos do bar e fomos até seu carro, que sempre estacionava na calçada do meu prédio. Entramos em seu Cross Fox amarelo (e assumo desde já que sou apaixonado por esse carro) e seguimos viagem. No meio do caminho ele desabafou sobre seu relacionamento e assumiu que já estava começando a ficar desgastado, mas que tinha esperança que fosse apenas outra fase ruim. O que mais o deixava chateado, era o fato de Ivone continuar insistindo em tentar fazer a sua cabeça para ficar contra seu melhor amigo, se metendo em seus negócios, dando palpites e que o armário já não tinha espaço para as suas roupas, só as dela. Inclusive, certo dia ela tinha dado a ideia de comprar um armário só para ele, que aí ficaria um para cada. Aquilo o matava, pois Ivone estava cada vez mais se tornando mulher mesquinha como a mãe dele era, e não queria nada por perto que o fizesse parecer com o pai, principalmente uma esposa extremamente consumista.

Outro detalhe interessante que não contei, foi que, depois de fazer tudo aquilo anos atrás – raspar a conta bancária e sumir no mapa –, ele reapareceu na casa dos pais, dez anos depois, para dizer-lhes que estava bem e o que tinha planejado estava dando certo, como bem queria. Para sua decepção, fingiram não o conhecer, afirmaram que o filho deles tinha sido sequestrado há dez anos e já tinham perdido as esperanças de que ele estivesse vivo ou que voltaria um dia. Na inocência, sem entender que era proposital, ainda mostrou a identidade. Mas seus pais disseram ser identidade falsificada e brincadeira de mal gosto. Só foi entender que era tremenda encenação, antes de ir embora, quando sua mãe disse que deveria honrar o sobrenome que carregava ou mudá-lo no cartório, o que fez, naquele mesmo dia, assim que os deram as costas. Na época me surpreendi bastante e isso foi me dando coragem para reaparecer na casa de tia Geralda, ver qual seria sua reação ao me rever, pois, mesmo quando fui morar com o Helder, na mesma rua, ela raramente saía de casa ou olhava pela janela. Assumo, também, que não fiz questão de visitá-la. Nunca nos víamos, nem nos esbarrávamos na rua. Lembro até que certo dia, estava passando na frente de sua casa e uma senhora me abordou, perguntando se sabia sobre a casa estar para alugar ou não, pois era bonita e sempre que passava ali, não via nenhum sinal de vida. Fico imaginando qual seria a reação de tia Geralda se aquela senhora batesse em sua porta para tirar as dúvidas. É realmente difícil de imaginar. Pobre senhora, espero que não tenha ido perguntar.

Paramos no banco e fiquei esperando no carro. Liguei o rádio. De cara toca uma música que traz tudo de volta em minha mente. Começo a repensar naquela situação, mas, analisando minha vida desde o acidente dos meus pais. Não era a primeira vez que Stop Crying Your Heart Out da banda Oasis, me trazia aquela sensação. Já leu a tradução antes de ouvi-la? Depois que leu e entendeu a mensagem, ouviu e sentiu a magia que tem na música? É difícil explicar, só sei que…

“Segure-se! Segure-se! Não tenha medo! Você nunca mudará o que aconteceu e passou. Que o seu sorriso brilhe (que o seu sorriso brilhe). Não tenha medo (não tenha medo). Seu destino pode mantê-lo aquecido. Porque todas as estrelas estão desaparecendo, apenas tente não se preocupar, você as verá algum dia. Pegue o que você precisa e siga seu caminho… E faça seu coração parar de chorar. Levante (levante)! Venha (venha)! Por que você está assustado? (Eu não estou assustado). Você nunca mudará o que aconteceu e passou. Porque todas as estrelas estão desaparecendo, apenas tente não se preocupar, você as verá algum dia. Pegue o que você precisa e siga seu caminho… E faça seu coração parar de chorar. Onde todas nós, estrelas, estamos desaparecendo. Apenas tente não se preocupar, você as verá algum dia. Apenas pegue o que você precisa e siga seu caminho… E faça seu coração parar de chorar”.

Só quando Helder deu partida no carro, voltei à realidade.

– O que houve? – me pergunta preocupado.

– Nada. – diminuí o volume do rádio. – Viajei aqui pensando na vida. – me ajeito no banco. – Conseguiu?

– Toma. – me entrega duzentos reais. – Cuida bem, agora só terá mais na semana que vem.

– Beleza, já é um adianto e tanto.

Liguei e marquei com Patrícia de nos encontrarmos naquele sujinho que nos conhecemos. Comprei um buquê de flores no caminho e Helder me deixou na entrada do metrô. Durante a viagem só pensava em Dominique. Como seria bom encontrá-la repentinamente. Estava indo encontrar com outra, mas como se estivesse indo encontrar com a minha amada, levando flores e saudade. Seria muito interessante se, por ventura, elas fossem amigas, e Patrícia tivesse optado por não me contar nada e fazer surpresa. Já pensou? Seria maravilhoso.

Já de longe pude vê-la sentada, de costas para a direção que eu seguia, na mesma mesa. Trajava um vestido tomara que caia curto, cor vinho e sapatos vermelho escuro. Conforme me aproximava, pude reparar duas garrafas na mesa e dois copos, um cheio e outro vazio. Com certeza o vazio me esperava, pois não tinha nenhum vestígio de ter sido usado.

Chegando às suas costas, estiquei a mão com o buquê à sua frente e me anunciei:

– Boa noite, minha linda conselheira.

Segurei a cadeira no reflexo e ela não caiu por pouco com o susto que tomou. Virou-se rapidamente e me olhou.

– Cuidado. – brinquei.

– Boa noite, Logan. – diz sorrindo e pegando o buquê. – Que lindas. – abraçou-as ao peito. – Obrigada.

– Não há de quê. – beijei-lhe o rosto e sentei na cadeira à sua frente.

– Como vai? – apoiou o buquê em cima da bolsa, na cadeira ao seu lado direito.

– Vou bem e você? – enchi meu copo.

– Também. – encarou-me, esperançosa. – E quanto àquela nossa conversa? – enfatiza “àquela”.

– Pensei bastante e já posso dizer que sou uma pessoa menos preconceituosa que ontem. E creio que amanhã serei menos ainda.

– Bom. – aplaudiu sem fazer som. – Muito bom.

– Pra pagar o que emprestou ontem… – coloco o dinheiro em cima da mesa. – E pra agradecer pela ajuda que me deu, hoje é tudo por minha conta.

– Não precisa, somos amigos agora.

– Faço questão. – ergo o copo. – Um brinde a minha grande conselheira amorosa e mais nova amiga.

– Ao meu novo amigo… Menos um homem preconceituoso no mundo. – brinca.

– Isso. Agora que vamos nos conhecer melhor e fortalecer essa amizade, gostaria muito de saber mais sobre a sua pessoa. Acho que ontem não estava muito disposto e conversamos apenas sobre meu problema.

– Verdade. E o que quer saber? Já sabe meu nome verdadeiro… – soltou uma risada gostosa. – O da noite, minha idade e o que faço pra ganhar a vida. – dizia entre trejeitos. – E eu só sei seu nome e idade. Quem tem que me contar algo aqui é você.

– Moro no centro de São Gonçalo e sou escritor.

– Nossa! Você é escritor? Que bacana! Mas não tem cara de quem gosta de escrever.

– Sério?

– Sim! E eu nunca ouvi falar de você.

– Não sou um escritor famoso. – olhava para o copo na mesa, imaginando que realmente já poderia ser, mas infelizmente não era. – Eu escrevo fracassos. – olhei-a e sorri. – Mas são bons fracassos, garanto.

– Nada… Eu que tenho mania de só procurar pelos livros de escritores renomados. Às vezes um livro teu pode ser melhor que algum desses que já li. – sorri amistosa. – Me fale sobre seus livros. – pousa os cotovelos na mesa e apoia o queixo nas mãos. – Às vezes já ouvi falar.

– Em Dias Chuvosos, Emancipado… E agora escrevi Pierre & Marie.

– Acho que vi a propaganda desse último em algum lugar. – pensativa. – Acho que foi na traseira de um ônibus… Não tenho certeza.

– É isso mesmo. Está rolando uma boa divulgação.

– Legal! Quero ler. Onde compro?

– Posso te dar um exemplar de presente, se quiser.

– Jura? – seus olhos brilhavam, fazendo com que me sentisse grande escritor. – E quero autografado.

– Pode deixar.

– Agora fiquei curiosa… Quando pode me dar?

Na minha cabeça, parte do preconceito que não tinha ido embora se surpreendeu com o fato de Patrícia gostar de ler, analisando que Dominique não gostava e aquela tal de Alessandra muito menos.

– Se quiser podemos ir buscá-lo agora mesmo. – brinco batendo as mãos na mesa e levantando.

– Então vamos! – imitou-me. – Realmente estou precisando de um livro novo… Terminei o último na semana passada e ainda não escolhi um novo pra ler. Vai ser o seu! – aponta o dedo na minha direção.

– Vamos mesmo? – me espanto com sua reação.

– Se podemos ir agora. – deu de ombros. – Por que não?

– É que os exemplares que tenho para dar estão na minha casa.

– Qual o problema? Poderei conhecer sua casa. – sorri. – Nunca fui a São Gonçalo.

Fiquei em silêncio, completamente sem reação.

– Paga a conta e vamos logo, anda. – pegou a bolsa e o buquê.

– Você é muito doida. – digo aos risos. – Vou comprar algumas latinhas para bebermos até o metrô.

Paguei a conta e voltei com duas latinhas já abertas. Entreguei-lhe a destinada a ela e seguimos de braços dados, andarilhando rumo ao metrô.

– Demora muito pra chegar à sua casa?

– Vamos pegar o metrô, descer na Central e depois pegar um ônibus pra São Gonçalo. Simples e prático. Mas tudo depende de como está a ponte… Quando está engarrafado, parece que demora dias.

– Sério? – seus olhos quase saltaram no meu peito.

– Brincadeira. Mas demora… Às vezes uma hora de viagem… Às vezes duas horas… Como disse, depende do transito.

– E tem algum barzinho perto da sua casa para continuarmos bebendo?

– Já que vamos à minha casa, posso comprar cervejas e levar. Se não tiver problema, lógico.

– Problema? Só vejo solução, meu caro.

– Não sei. Pode achar que estou com segundas intenções.

– Mas quem insistiu em ir à sua casa?

Apenas sorri.

– Me diz… Como anda com seu novo livro? Quando foi lançado?

– Acontecendo rápido. – sorri feliz feito um bocó. – O livro foi lançado quarta passada, sexta teve noite de autógrafos em uma livraria dentro de um shopping em Niterói. – enumerava nos dedos. – E esse final de semana meu assessor disse que conseguiu uma entrevista no meu talk-show predileto.

– Sério? Que bárbaro!

– Sim! A gravação é quinta agora e vai ao ar mês que vem.

– Devia estar mais feliz do que aparenta, sabia? – olhou para o céu. – Eu, no seu lugar, estaria radiante.

– Mas estou!

– Não aparenta. – me encara.

– Deve ser por esses outros fatores recentes. Mas isso também tem abominado minha mente.

– Não se esqueça de me ligar mês que vem quando o programa for ao ar. – desvia do assunto que eu quase trouxe à tona.

Entramos na estação de metrô.

– Com certeza! – tentava fingir ser a pessoa mais feliz do mundo. – O único problema é que o programa é de madrugada.

– E o meu também. – riu com uma das mãos tapando a boca.

– Exatamente!

– Mas aí eu corro para algum lugar com TV e assisto… Sei lá. Tem a internet também. Dá-se um jeito a tudo.

Comprei dois bilhetes e passamos pela roleta.

– E se eu ligar e estiver trabalhando?

– Não precisa ligar na hora que for para o ar. Até por que, sempre deixo o celular desligado quando estou trabalhando. Ligue-me no dia, de tarde…

– Combinado.

– Imagina se eu deixasse o celular ligado enquanto estivesse trabalhando… Se quiser qualquer dia eu deixo, aí você me liga e eu atendo gemendo feito uma louca no cio. – soltou uma gargalhada.

Minha cara foi ao chão na hora.

– Imagina a cena… – apoiou-se no meu braço. – Iria gostar, garanto. Já teve cliente meu que pagou para que eu fizesse isso. Uma loucura só, nem te conto!

– Imaginar eu até consigo. – entramos no metrô. – Só não consigo imaginar alguém com esse tipo de tara.

– Ih, você está por fora. Existe cada um, que vou te contar, viu?

– Prefiro nem saber. – sentamos em um dos bancos vagos. – Posso ter pesadelos essa noite.

– Ou material novo pra masturbação.

Caímos nas gargalhadas. Algumas pessoas próximas ao assento que estávamos nos olhavam com caras assustadas, ouvindo os seus relatos. Se eu não forjasse uma pigarreada olhando-a com os olhos arregalados e dando de lado sutilmente com a cabeça, se empolgaria e continuaria falando alto. Patrícia me contou histórias e histórias durante toda a viagem, até descermos no ponto perto da minha casa. Algumas realmente tinham me dado uma excitação inimaginável, enquanto outras me brochavam completamente. Realmente é como dizem… Há louco para tudo.


10 – Passado


Comprei dez garrafas de cerveja um litro e fomos rumo ao meu prédio.

– O que achou de São Gonçalo?

– Apesar de estar conhecendo só essa parte, e as que vi rápido pela janela do ônibus… Digamos que estou curtindo. É aqui que mora? – perguntou assim que paramos frente do portão.

Afirmo.

– É um prédio bem bonito. – foi olhando por toda sua extensão, andar por andar, antes que o porteiro abrisse o portão. – Deve ser caro morar aqui.

O portão abriu. Entramos.

– O caro daqui é a pobreza do Rio, digamos assim. – brinco aos risos. – Lá você gasta mais até em uma bala Juquinha.

– Verdade!

Cumprimentei o porteiro e paramos na frente do elevador, esperando-o chegar.

– Acho que mudarei pra cá um dia.

– Tem um apartamento vago no meu andar.

– Morar sozinha é complicado… Quem me dera.

A porta do elevador abriu, entramos e apertei o nove.

– Atualmente mora aonde?

– Com algumas amigas que também são garotas de programa. – se ajeitava olhando-se no espelho.

Aquilo me trouxe outra cena, recriando completamente o momento em que estava ali com Dominique, seu novo corte de cabelo, falando do meu, minha barba e minha cara de trinta anos.

– Logan. – diz Patrícia me cutucando e trazendo de volta. – Terra chamando…

– Oi? – olhei-a como se nada estranho tivesse ocorrido.

– O que houve?

– Viajei em pensamentos. – disfarço. – Então mora com algumas amigas?

– Foi o que eu disse. – olhou-me de cima a baixo, desconfiada.

O elevador parou e abriu as portas.

– Em Copacabana mesmo? – pergunto saindo do elevador.

– Sim. – me acompanhou. – Com a Amanda, a Luísa e a Julia. Qualquer dia eu te levo lá pra conhecer as meninas.

Sorri satisfeito com a ideia.

– Se você se comportar, até lhe arranjo um três em um de graça. – me olha com uma cara, que me fez ouvir “quatro em um”.

Depois dessa, até deixei as chaves caírem no chão.

– Aí eu morro! – brinco, levando uma das mãos ao peito.

– Só se for de prazer, né, Logan? – solta uma gargalhada alta, típica dela.

Peguei as chaves no chão e abri a porta. Conforme fomos entrando, assim como Dominique, vi os olhos de Patrícia lentamente percorrerem por toda a sala, até pararem na janela, dessa vez fechada. Mas a reação foi diferente.

– É bem organizado. – disse caminhando girando lentamente, olhando tudo a volta, até o meio da sala. – E gosta mesmo de vermelho.

– Minha cor predileta. – tranco a porta. – Fique à vontade, vou guardar as cervejas na geladeira. – e fui até a cozinha.

Guardei nove, voltei à sala com uma aberta e dois copos. Sentou-se no meio do sofá de três lugares, colocou a bolsa do lado esquerdo e segurava o buquê com as mãos. Coloquei a garrafa e os copos na mesinha, tratando logo de torná-los cheios.

– Quer que eu coloque em um vaso com água? – perguntei estendendo as mãos na direção do buquê.

– Faz esse favor pra mim. – sorriu entregando-me.

Voltei à cozinha. Na pressa de voltar, não consegui ver nada que coubesse o buquê, além do liquidificador. Enchi-o d’água e depositei ali mesmo. O importante é que estava n’água, não é verdade? Ao voltar, notei sua curiosidade percorrendo mais ainda cada detalhe da minha sala.

– O que achou de minha humilde residência? – pergunto de trás do sofá.

– Muito bonita. – torceu o pescoço na minha direção. – Nem parece que é solteiro.

– Que nada. – sentei ao seu lado. – Não mereço méritos, arrumei tudo hoje. Se tivesse vindo aqui ontem e no mês passado, veria que estava do mesmo jeito. Faxina aqui é de mês, dois meses, três meses…

– Compreendo. Cadê meu livro?

– Ah! É verdade! – levanto em um pulo. – Aguenta aqui que já volto.

Corri ao quarto e puxei a caixa que guardava os livros embaixo da cama. Abri e contei quantos ainda tinham. Sem necessidade, pois tinha recebido vinte exemplares e dado dois: para Helder e o outro, mandei pelo Correio para tia Geralda. Tirei o terceiro, empurrei a caixa para debaixo da cama e voltei. Peguei caneta na estante e parei na frente de Patrícia, que olhava curiosa para a capa do livro.

– O que quer que eu escreva?

– Não sei, ué. – fez cara de interrogação. – Você que vai dar o autógrafo.

Sorri e escrevi “Para minha mais nova amiga e conselheira amorosa, Patrícia. Um enorme beijo e boa leitura. Ass.: Logan Machado ;)”.

– Aqui está. – fechei o livro e a entreguei. – Boa leitura. Se não gostar, por favor, não me processe. – fiz charme.

– Seu bobo. – fazendo desfeita do autógrafo, foi logo guardando o livro na bolsa, sem olhar. – Assim que terminar de ler, te ligo pra dizer o que achei.

– Positivo. – sentei-me ao seu lado e peguei meu copo.

– Logan… Fiquei bastante curiosa. – olhou-me. – Como um escritor que se diz escritor de fracassos, tem boas condições financeiras?

– São méritos do Helder. – sorri sem graça. – Deve perguntar a ele.

– E quem é esse?

Assim, passamos horas bebendo e falando sobre o Helder, desde aquela época de tia Geralda. Lembra? Quando bateu meia noite, já tínhamos bebido cinco garrafas e estávamos começando a ficar bem alegres.

– É um cara de sorte, devia saber disso. – comenta em determinado momento.

Não entendi o porquê de ela ter dito aquilo do nada, mas permaneci calado.

– É sério… – continuou. – Tem um amigo que qualquer um sonha ter. – olhou-me com expressão triste. – Um amigo de verdade, sabe?

Assenti com a cabeça e enchi nossos copos, não queria interrompê-la.

– Pelo que me contou, acho que se não o tivesse conhecido… – desviou os olhos para a fumaça saindo do meu cigarro no cinzeiro. – Talvez as coisas não fluíssem tão certas na sua vida, do jeito que estão fluindo… Ou talvez até estivessem mesmo, mas como advogado internacional. – olhou-me com um sorriso angelical. – Já pensou?

Sorri de volta. Sentia que não precisava dizer nada, apenas ouvi-la. Pelo visto, estava começando a se preparar psicologicamente para desabafar, pôr palavras para fora. E eu sempre soube ser um bom ouvido quando tenho que ser.

– Não precisa dividir o apartamento com outras pessoas, pra que fique mais leve no final do mês. – olhava agora na direção da janela. – E se parece muito com um cara de um seriado que vi algumas vezes na televisão. – olhou para mim, analisando algo que até hoje desconheço o que possa ter sido e repentinamente soltou leve gargalhada, como se tivesse encontrado o que procurava.

– Qual seriado?

– Não lembro o nome… Sei que a vida do cara é passar o dia bebendo em uma casa linda e se envolvendo com uma mulher diferente a cada episódio.

Californication? De um escritor e tal?

– Acho que não é esse o nome.

– Ele tem um irmão magro e um sobrinho gordinho? – pergunto desconfiado, o Helder tinha feito a mesma piada recentemente.

– Isso mesmo. Sabe qual é?

– É um de meus seriados prediletos. O Helder diz a mesma coisa… Mas não é bem assim, vai.

Patrícia riu e desviou o olhar para os meus dedos amassando o cigarro no cinzeiro.

– É, Logan… – suspiro carregado. – É um homem de sorte.

– Não é feliz? – saiu sem querer.

Olhou-me com expressão tão triste, que cheguei a engolir seco e com vontade de socar meu rosto.

– Digamos que não sou uma mulher de sorte. – sorriso frouxo. – E que as coisas nunca são como espero.

– Quer pôr pra fora? – coloquei minha mão sobre a dela, que estava pousada na coxa e dei leve apertozinho tentando encorajá-la. – Se quiser, estou bem aqui e totalmente disposto a te ouvir… E sem preconceitos… Somos amigos agora.

Outro sorriso frouxo. Apertou de leve minha mão e ficou olhando na direção delas, ali entrelaçadas sobre sua coxa.

– Não quero te fazer perder tempo ouvindo meus problemas. – matou o copo, deslaçou a mão da minha e tratou logo de enchê-lo novamente. – Vamos falar de coisas boas… Tipo a nova TekPix. – brinca tentando descontrair.

Tinha como não rir dessa? Mas a encorajo:

– Estou realmente disposto a te ouvir… E não estarei perdendo tempo algum, fique tranquila. – decido fazer charme para reforçar: – Se não confia em mim pra contar, eu entenderei.

– Não é isso! É que… – calou-se. Olhou para a janela. – Vou te contar minha história de vida… Vai que de repente você acha boa pra pôr em um livro. – tentou descontrair.

– De repente…

Respirou fundo tomando coragem e começou:

– Eu vim de família pobre. – segurava o copo com as mãos e olhava-o fixamente como se fosse espécie de fonte para suas lembranças. – A irmã do meio de seis filhos… Cinco homens e só eu de mulher. – passou a mão no rosto. – Miguel, Norberto, eu, Quincas, Roger e Saulo. Nasci no Amapá e não conheci meu pai… Assim como meus irmãos. Cada filho de um pai diferente. – sorriso de canto, quase escondido. – Minha mãe era cafetina e nunca foi fã de aborto e camisinha, daí deu nisso. Um grande risco, mas, enfim… Desde pequenos, ela sempre nos dizia que conforme fôssemos completando a maior idade, teríamos que viver debaixo de nossas próprias asas. Crescer no meio daquele bordel imundo foi… Digamos que, a minha escola… Era a única coisa que eu sabia que não pedia estudo, experiência, nem nada… Apenas o corpo e, nem sempre, beleza, mas quanto melhor o corpo melhor o seu valor de mercado. Sem minha mãe saber, eu fazia programa desde os quinze anos de idade, pra juntar dinheiro e vir tentar a sorte no Rio de Janeiro com dezoito, pois seria a minha vez de partir. – bufou. – Sabia que aqui ou em São Paulo, ganharia mais dinheiro. – pausa. – No dia do meu aniversário, ganhei de minha mãe um beijo, um abraço e as seguintes palavras: “Agora vai voar minha pombinha gostosa”. Já estava me preparando há anos, mas sempre imaginava que não fosse acontecer comigo, só com meus irmãos, pelo fato de serem homens. – uma gota de lágrima mergulhou no copo. – Chorei muito, pedindo pra que ela me deixasse ficar, que poderia trabalhar pra ela e fazer tudo que quisesse… Mas não adiantou, já tinha até aprontado minhas malas. – passou o pulso, da mão que segurava o copo, no rosto limpando as lágrimas. – Foi aí que vim pro Rio com aquele dinheiro que tinha juntado desde os quinze anos. Uma caipira de programa na cidade dos bacanas. – riu, seguido de uma fungada de nariz. – No começo foi difícil por conta da adaptação… Consegui trabalho num bordel mais imundo que o da minha mãe, e era difícil arrumar cliente por conta do sotaque e os erros de português. Era raro encontrar cliente com tara pelo sotaque “lá de cima”… Depois de um ano, perdi o sotaque, depois de muito esforço para ter apenas o sotaque carioca, mas não perdi os erros de português, e consegui um bordel melhor. E foi nesse bordel que conheci a Beatriz, uma mulher experiente, que, numa de nossas conversas, descobri também ser natural do Amapá, e que, inclusive, trabalhou pra minha mãe antes de vir. Parecia uma senhora rica e cheia de classe. – sorriu ao ter lembrança boa. – Todos os homens a queriam e ela não queria ninguém. Dizia que não conseguia sentir amor por eles, só pelas coisas que podiam presenteá-la de material. Com ela perdi totalmente o sotaque, aprimorei meu “carioquês” e melhorei meu português. Foi aí que me apaixonei por leitura e ficava fascinada quando descobria alguma palavra, que antes eu ouvia achando que era inglês… Estelionato, excomungar-vos-emos, e por aí vai. – soltou sua típica gargalhada, mesmo aparentemente abalada. – Com vinte e um, descobri que dava para ganhar mais dinheiro na rua do que em um bordel, porém, era mais perigoso e não teria um lugar pra ficar, pois a dona do bordel não poderia saber que estava ganhando alguns por fora… Então, lá fui eu começar a juntar dinheiro novamente pra poder alugar um apartamento e começar a trabalhar por conta própria. Um ano depois aluguei uma quitinete e comecei minha autonomia. – ergueu o braço livre ao ar, como se comemorasse algo. – Foi aí que conheci as meninas… E com isso, conheci outro mundo. – pausa demorada, fixou os olhos nos seios. – Elas me falaram sobre um cirurgião plástico e que eu precisava dar uma turbinada no meu corpo, melhorar meu valor de mercado. Só que é muito caro pôr silicone e teria que ficar anos juntando dinheiro… Então a Julia me contou que conseguia de graça, desde que eu fizesse uns servicinhos. Mas seria só para os seios, a bunda dava pra ganhar em academia, malhando freneticamente da cintura pra baixo. – tentou fazer graça e sorrir, mas dessa vez não vingou. – Nessa fissura de me sentir turbinada e ficar a altura delas, disse que aceitaria qualquer parada.

Silêncio. Preferi ficar imóvel como estátua, aguardando por alguma reação dela ou a continuação da história.

– Aí tive que ser o bolo de aniversário do filhinho escroto do cirurgião. – olhou-me, a maquiagem já completamente borrada, os olhos avermelhados e a expressão nada boa. – Sabe o que é ser o bolo, Logan?

– Não faço ideia. – engoli seco, previ o pior.

– Eu também não fazia ideia. – voltou a olhar para o copo. – Mas não dava pra voltar atrás quando cheguei lá e descobri o que era ser a porra do bolo de aniversário. – outra fungada de nariz. – Pra mim, teria que me deitar só com o filho dele e tudo estaria certo.

Outro silêncio. Nessa hora eu já estava quase pedindo para ela parar de falar, pois estava com medo do que poderia ouvir. Temia que o que viesse a seguir, mudaria meus pensamentos quanto a Patrícia, ou me daria nojo, ou raiva. Não sei explicar ao certo tudo que passou em minha cabeça naquele dia. O foda era começar a imaginar as cenas.

– Eu tive que transar com todos os convidados… De tudo quanto é jeito, e de diversas formas, que, até então, eu não tinha feito nem sabia que existia.

– E por que fez? – perguntei indignado. – Você não era obrigada.

– Por medo. Por que eu já tinha ganho as próteses. Fora que eu não sabia o que fariam se eu recusasse.

– Compreendo. – digo com a voz trêmula enquanto pego na garrafa vazia.

– Traz outra lá enquanto eu pego um pouco de ar.

– Tudo bem. – a voz quase não saiu.

Chegando à cozinha, mesmo me esforçando a não me aprofundar naqueles pensamentos, minha mente tentava criar a cena e conseguia de forma grotesca. Imaginava Patrícia nua, deitada em uma cama posicionada no centro de um quarto enorme, o grupo de moleques em volta, por cima e por baixo, fazendo o que bem queriam e outros na fila, que saía do quarto, esperando pelo seu pedaço do bolo. A mistura de tanto suor, baba… Peguei a cerveja, parecia que tinha Parkinson quando tentei abrir. Voltei perplexo. Sem dizer nada enchi nossos copos e sentei-me ao seu lado.

Silêncio. Patrícia estava com os olhos fixos nas cortinas vermelhas.

– Por que a Julia não te falou nada? – resolvi perguntar.

Olhou para os pés.

– Quando conheci as meninas, não queria dar de menos experiente. Pra ela, eu realmente sabia sobre ou já tinha feito parecido… Sei lá. Vai saber… Só quando ela viu meu estado decadente chegando a casa, que foi perceber a merda que tinha acontecido… Mas já era tarde, já tinha feito.

– O que ela disse?

– Primeiro me deu uma hora de bronca. Depois pediu desculpa. – respirou fundo e sorriu. – Pelo menos já passou e as próteses ainda estão aqui. – apertou os seios com os braços e olhou-me. – Não são lindos?

Assenti com a cabeça, desviando o olhar de seus seios para seus olhos.

– Não sei nem o que dizer. – confesso depois de tirar a última imagem da minha cabeça, que insistia em voltar quando eu, inevitavelmente, batia os olhos em seus seios.

– Não diga nada… Não quero que tenha pena de mim. Já passou. – esfregou o nariz com os dedos, enquanto dava uma fungada barulhenta, como quem queria acabar de vez com elas. – E uma vez me apaixonei por um cliente. – mudou de assunto. – Me prometia o mundo. – sorriu. – No começo não levava a sério, mas depois de um tempo, comecei a me encantar pelas suas juras mentirosas. Começamos a namorar. Rolou até uns papos sobre noivado uma época.

– Por que terminou?

– Descobri que não era nada do que afirmava. Dizia a mesma coisa pra outras e namorava várias garotas de programa. Acho que era um jeito que encontrou de ter sexo bom e de graça. – brincou.

– E a mulher que te ajudou quando chegou aqui? Nunca mais a reencontrou?

– Beatriz, né? A via com frequência, mas… – ficou cabisbaixa. – Foi morta dois anos atrás.

– No-nossa! – quase me engasguei. – Como isso?

– Um dos clientes que a amava não aceitou o fato de Beatriz viver recusando seu pedido de casamento. Pelo menos foi o que algumas meninas do bordel me disseram quando soube do ocorrido… Que ele tinha dito que se ela não queria ser só dele, não seria de mais ninguém. Matou-a e suicidou-se ao seu lado.

– Que loucura!

– Por isso tenho medo de morar sozinha. Sabe-se lá o que pode acontecer?

– Não gosta de morar com essas meninas que mora atualmente?

– A questão não é nem gostar. – esfregou as mãos. – É melhor do que morar sozinha. Tenho condições, mas, dividir as contas e o aluguel é muito melhor, sobra muito mais no final do mês. – bateu uma palma. – O que acontece é… – pensou antes de falar. – As coisas lá em casa não são mais como eram antes, e isso tem tirado meu sono vez ou outra.

– Como assim?

– No começo, o combinado era ninguém levar cliente e/ou namorado pra dentro de casa. Começa por aí. – falava entre trejeitos. – Segundo que, raramente alguém se presta a arrumar a casa quando está no seu dia. – enumerava nos dedos. – E terceiro… Estão começando a entrar num ritmo que não estou nem um pouco a fim de entrar.

– E qual é?

– Se envolver com policiais corruptos, usar e traficar drogas… Já não é mais só programa, agora elas vendem pra clientes viciados e usam junto, na maioria das vezes. Pior de tudo é que os caras pagam pra elas usarem com eles.

– Que perigo! – boquiaberto.

– Exatamente! Por isso entendo seu preconceito. É mais ou menos esse tipo de garota de programa que algumas pessoas criam na mente. Acham que todas são assim, principalmente você… Não é? – olhou-me, esperando o sim.

– Não bem assim… Mas… Não sei explicar. – enchi nossos copos. – Elas fazendo esse tipo de coisa, se der merda, pode feder pra você também.

– Isso que mais me preocupa.

– Entendi.

De repente ela salta do sofá e fica de pé com os olhos arregalados me olhando e cara de quem acabara de ver fantasmas:

– Meu Deus, Logan, que horas?

Olhei meu relógio. Eram duas e pouca da madrugada. Como o tempo voou.

– Era pra eu estar trabalhando uma hora dessas.

– Me perdoe, o tempo voou e nem vi.

– Muito menos eu. – colocou o copo na mesinha. – Pelo menos foram boas horas gastas.

– Exatamente. – levantei e comecei a juntar as garrafas na mesa, para levá-las até a cozinha. – Gostei de saber sua história de vida e um pouco mais sobre seu mundo, que até muitas horas atrás eu pensava barbaridades. Às vezes vocês são até vítimas…

– Então eu realmente consegui acabar com o seu preconceito? – perguntou vibrante, me interrompendo, para o meu bem. Tenho certeza que sairia besteira.

– Com certeza. – abri sorriso de orelha a orelha para ajudar a convencê-la mais que o firme tom de voz que manipulei. – Ainda mais depois dessa conversa. – abracei uma garrafa em cada braço e duas em cada mão.

– Deixe que te ajude a levar. – tentou pegar as do meu braço.

– Não precisa, é tranquilo.

Sentou-se novamente no sofá e fui à cozinha. Ensaquei cinco garrafas, deixei a sexta em cima da pia e voltei.

– Tem condução aqui até que horas?

– Ah! Pra ser sincero, uma hora dessas é difícil. Me perdoe, era pra eu ter ficado atento.

– Exatamente. – deu um soco leve no meu braço. – Mas vamos fazer o seguinte… – bateu palma juntando as mãos.

– O quê?

– Vamos supor que tirei dia de folga. – sorriu. – Pega mais uma que agora é você quem vai contar sua história de vida e viraremos a madrugada conversando. Estou realmente gostando muito disso.

– Tem certeza?

– Absoluta!

– Fechou.

Voltando da cozinha com outra aberta, enchi nossos copos, acendi meu cigarro e sentei-me ao seu lado.

– O que quer saber sobre minha vida pacata e nada interessante?

– Não sei. – cruzou as pernas. Não deu para não olhá-las por instinto. – O que quer contar? Como é a vida de escritor? Como e quando teve certeza que era isso que queria pra sua vida e que iria dar certo? Qual o grau de importância que dá pra tudo isso?

Fiquei estático olhando-a, impressionado com as perguntas.

– Pareceu até entrevistadora agora. – digo aplaudindo-a. – Vai ser bom, pois ajuda a me preparar pro talk-show.

Sorriu orgulhosa com os olhos fechados e encenando leve reverência.

– Então, minha cara e querida Patrícia…

Calei-me. Percebi que não sabia como responder àquelas perguntas. Depois de um tempo em silêncio, me olhando e esperando resposta:

– E aí, escritor? Travou?

– Bom…

Calei-me novamente. Acho que, na verdade, não queria dizer que tudo começou quando decidi desabafar sobre a morte de meus pais. Como explicaria sem tocar nesse assunto? Ou, o que inventaria para omitir e sobrepor esse, me reservando o direito de ter a realidade só para mim? Podia dizer que um dia acordei e escrevi… Mas poderia perguntar qual foi à influência ou algo do tipo. Fora que…

– Logan? – diz a me ver feito estátua com olhar vago.

– Oi? – a olhei, ainda tomado por aqueles pensamentos.

– O que houve? – perguntou preocupada.

– É que… – respirei fundo.

Calei-me novamente. Seria injusto, agora que o assunto caiu à tona, não compartilhar. Principalmente depois de ter me contado toda a sua história de vida. Mas será que era a hora de deixá-la saber sobre a minha? Nessa, me perguntei o que diria se o entrevistador fizesse uma pergunta parecida. Teria que inventar algo até o grande dia da gravação, ou ficaria mudo, como estava ali naquele momento.

– Aconteceu alguma coisa? – insiste, passando a mão no meu ombro e me trazendo de volta.

– É que… – travei.

– Estou ficando assustada.

– Bom… – olhei em seus olhos. Uma coragem involuntária veio à tona e decidi contar: – Seria injusto não contar. – pausa para dar o último trago no cigarro. – No começo era uma forma que tinha encontrado pra desabafar sobre a morte dos meus pais…

E fui contando tudo sobre aquela madrugada chuvosa. Quando terminei de falar, pelo alívio que senti, tive certeza que ainda tinha dificuldade com aquele assunto. Por mais que tivesse usado minha vivência, saudade e dor, para escrever o primeiro livro e lidar com aquilo, a minha saudade e dor ainda seguravam firmemente em minhas mãos, como duas crianças atravessando a rua com um responsável. Não era vergonha nem medo de que descobrissem um dos meus pontos fracos, mas também não sei explicar o que era. Patrícia foi a primeira pessoa que assumi meu trauma, pois até então, para mim, já havia superado. Acho que depois de escrever o livro, passei a ver a realidade como ficção… E a ficção como realidade.


11 – Coelhinhos


Continuamos conversando sobre diversos assuntos e quando vimos, já eram quase seis horas da manhã e não bebíamos desde as quatro (quando a última cerveja secou). A lâmpada acesa não tinha forças para disputar com a luz do sol que se fazia presente iluminando a sala. Estávamos alegres e sem sono quando Patrícia anunciou sua retirada.

– Acho que chegou a minha hora.

– Por que não descansa antes de ir embora?

– Quer que eu fique? – disse depois de um tempo calada, me olhando.

– Só acho melhor do que ir embora cansada. Pode descansar lá no meu quarto, eu fico por aqui na sala mesmo… Não há problema algum.

– Quer que eu fique? – insistiu na pergunta.

Olhei-a. Senti algo diferente, uma atração sexual que ainda não tinha sentido, por ela. Uma vontade de possuí-la, testar seu sexo e seu gosto. Patrícia é linda e já me senti atraído várias vezes, mas até aquele momento, não tão intenso e repentino quanto àquela hora. Por mais que soubesse que mesmo que ela ficasse, poderia não rolar nada ou a vontade não ser recíproca, resolvi entrar no que me parecia um jogo.

– Quero!

Patrícia jogou a bolsa no outro sofá e lentamente sentou em meu colo, laçando meu pescoço com os braços, encostando a testa na minha. Lacei sua cintura enquanto nos encarávamos sem soltar um pio. E então… Entregamo-nos ao momento. Seu beijo era bom e bastante compatível com o tipo de beijo que gosto: bastante calor e desejo, dando mordidinhas e sugadas de leve, vez ou outra, no lábio inferior. Não era o tipo de beijo que só espera ser domado, mas que doma ao mesmo tempo em que se dá ao luxo de ser domado. Suas mãos foram deslizando pela minha nuca, enquanto as minhas deslizavam por aquele belo par de coxas malhados. Em um piscar de olhos já estávamos nus na cama. Ficava me imaginando como se estivesse com uma daquelas dançarinas que a Playboy é doida para que aceite posar nua ou aquelas atrizes de filme pornô, que quando adolescentes, nós homens assumimos ser fãs. Não vou mentir, Patrícia era um “sonho de consumo” para qualquer heterossexual, e melhor ainda… Profissional do sexo!

Acordamos às uma da tarde com meu celular berrando no chão. Era o Helder.

– Bom dia. – digo com a voz carregada de sono, me espreguiçando.

– Bom dia não, Harper, boa tarde.

Patrícia levanta da cama.

– Bom dia, Logan. – diz ao passar ao meu lado, indo à sala.

– Bom dia.

– Já disse que é boa tarde. – diz Helder no celular.

– Eu sei cara. – ri da pequena confusão na comunicação. – O que manda?

– Não tenho nada pra fazer até a noite… Está ocupado?

– Acabei de acordar.

– Vida boa, hein… Vamos fazer algo depois do almoço?

– O quê, por exemplo?

– Sei lá… Não tem nenhuma sugestão?

– Cara, eu acabei de acordar… Minto! Ainda nem acordei direito e já quer que eu pense? Meus neurônios ainda estão iniciando o Windows!

– Acorda logo e me liga depois que almoçar. Combinado?

– Combinado.

Assim que desliguei, Patrícia entrou no quarto, já arrumada.

– Já vai?

– Já passou da hora faz tempo. – diz aos risos.

– Vamos almoçar antes. – fui catando minhas roupas no chão.

– Não quero incomodar, Logan… E até o almoço ficar pronto… – abanou-se com as mãos.

– Acha mesmo que eu sei cozinhar? – até ri da ideia, enquanto vestia a cueca. – Vamos a uma pensão que tem não muito longe daqui. – enfiei a perna direita na calça. – E você não incomoda, para com esse charme. Faço questão que almoce antes de ir embora.

– Se insiste, eu fico pra almoçar.

– Vai gostar, a comida é bem gostosa.

Terminei de pôr a roupa, coloquei o celular no bolso e abri a janela do quarto.

– Vai fazer algo hoje? – pergunto antes de sairmos do quarto.

– Hoje tenho que malhar quatro horas, depois ir me arrumar pra trabalhar. Por quê?

– Helder me ligou chamando pra fazer algo depois do almoço. – caçava as chaves embaixo do edredom. – Queria aproveitar que está aqui e que vou encontra-lo… – achei. – Aí está você. – continuei: – De vocês se conhecerem e tal. Vai ser maneiro.

Acho que depois dessa, Patrícia começou a suspeitar que eu estivesse pensando que por conta daquela noite, estávamos juntos ou algo do tipo. Não sei. Entenda você, como quiser. Foi assim…

– Logan… A noite de ontem não mudou nada. – diz com semblante sério.

– Como assim?

– Estou com a sensação de que está achando que…

– Estamos juntos?

Silêncio.

– Não! Claro que não! Fica tranquila que não mudou nada e ainda somos amigos. Tem problema minha amiga almoçar comigo e conhecer meu melhor amigo? Mesmo se agora fomos ter uma amizade colorida?

– Menos mal. – suspira aliviada. – Eu estava começando a achar…

– Ah, relaxa. – abracei-a. – Ainda somos amigos e isso não vai mudar nada. – beijei-lhe a testa. – Mas vou confessar que a noite foi maravilhosa.

– Verdade. Coloridos então? – estendeu a mão.

– Com certeza! – selei o trato. – Sabe bem que amo outra e o meu sentimento por ela não vai mudar da noite pro dia.

– Que bom! É exatamente isso que eu espero e vou confessar que acordei com receio de que fosse achar que agora temos um caso ou algo do tipo… – mordeu o canto da boca. – Sei lá. Pode ser neura minha.

– Repito. Pode ficar tranquila. – fomos caminhando para sala.

– Apenas surgiu vontade e colocamos pra fora… – queria ter certeza. – Certo?

– Exatamente! – abri a porta. – E aí, vamos ou vai ficar nessa neura?

Depois do almoço liguei para o Helder e combinei naquele sujinho perto de casa, que bebemos no dia anterior. Uma hora depois ele chegou. Os apresentei e passamos boas horas conversando e bebendo. O dia estava lindo!

Na quarta-feira acordei cedo a fim de me preparar para a tão esperada entrevista, que poderia dar uma alavancada na minha carreira e nas vendas do livro, de acordo com Helder. Chegou à minha casa depois do almoço e ficamos ensaiando, tentando imaginar como seria e o que eu responderia, dependendo da pergunta que o apresentador fizesse. Mas não tinha como ter ideia de como seria. Afinal de contas, era o Helder me fazendo perguntas, e ele já sabia todas as respostas e mais ou menos o que e como eu responderia.

Por volta das cinco horas, seguimos viagem rumo ao centro do Rio, no estúdio da emissora que transmitia o talk-show. Assim que entramos, a cada passo que dava, suava frio e meu nervosismo só aumentava. Tinha medo que fosse tudo por água abaixo ou que no fim, o entrevistador se perguntasse: “Mas quem teve a brilhante ideia de convidar esse idiota aqui?”. Fora que era ambiente completamente novo para mim: camarim, maquiagem e contagem regressiva para ser chamado e te encherem de perguntas, apontarem várias armas na tua cara e você lá no paredão, urinando de medo e gritando pela falecida mãe. Quando a mulher entrou e disse que tinha cinco minutos, eu só sabia dizer para o Helder: “Vai dar merda! Vai dar merda! Vai dar merda!” e ele, mais assustado que eu: “Calma! Calma! Calma, cacete!”.

Entrei com as pernas completamente bambas e sentindo como se fosse desfalecer a qualquer momento. Cumprimentei com as mãos tremulas o entrevistador e sentei-me no banquinho reservado para o entrevistado… No caso, eu. Divino, não?

– Estamos aqui com o escritor Logan Machado, que acabou de lançar o romance intitulado Pierre & Marie pela Editora Cherbourg.

Não sei por que, mas nessa hora fiquei igual um babaca, acenando para uma câmera desligada. Só percebi quando parei de acenar e vi a luz de “gravando” se acender. E também não tinha que acenar nada, apenas sorrir. Idiota sem jeito!

– Então, Logan… Esse é o seu primeiro livro? – olhava para o tal enquanto folheava rápido.

– Não. – quase gaguejei. – Na verdade eu tenho outros dois antes desse. – cruzei as pernas em forma de um quatro, esquerda por cima da direita.

– E quando foi que escreveu seu primeiro livro? – fechou o livro e o colocou sobre a mesa.

Nessa hora pensei: “Pronto, danou-se tudo… Já quer saber sobre os meus pais… Vai entrar bonito! Maldito seja!”.

– Não lembro ao certo a idade. – cocei a cabeça. – Acho que comecei a escrevê-lo quando tinha dezessete anos. – fiquei pensativo, esfreguei a barba. – E terminei perto de completar dezoito. Disso me recordo. – sorri sem graça pensando: – Não sei minha história.

– E está com quantos anos agora?

– Vinte e nove. – descruzei a perna.

– Então foram três livros em onze anos?

– Exatamente! – me ajeitei no banquinho. Preciso dizer o quanto estava inquieto?

– Conte-me mais sobre Pierre & Marie? – cheio de trejeitos. – De onde você tirou inspiração? Quanto tempo levou? Em que se baseou? – ele tinha mania de prolongar a pronuncia do ‘ou’, e vendo na TV não parecia tão engraçado quanto pessoalmente.

Nessa hora eu soltei uma risada baixa. Não sei se dessa mania dele ou se pela história ser quase a biografia da última temporada da minha vida. Fiquei me perguntando: “Será que ele leu? Será que alguém aqui leu essa bosta? O que eu vim fazer aqui? Sou virgem com essas coisas… Faço um resumo ou aproveito a sinopse?”.

– A história do livro acontece em Paris… – cruzei as pernas em forma de um quatro, direita por cima da esquerda dessa vez. – Pierre é um jovem que está iniciando a carreira jornalística em um jornal local de sua cidade, enquanto Marie é uma jovem garota de programa, já bem experiente para sua idade. – minha perna direita começou a balançar involuntariamente. – Pierre era daquele tipo de cara bastante preconceituoso e nunca imaginava que um dia poderia se apaixonar por uma garota de programa. – lembrei-me de Dominique. – E Marie nunca imaginava que Pierre descobriria sua verdadeira fonte de dinheiro. – olhei-o e fiquei com a sensação de que estava falando mais do que devia, não sei por quê. – Acho que vai ficar mais interessante depois que abrir o livro e terminá-lo… Ou não. – e me empolguei com a entrevista. De acordo com o Helder, enlouqueci com ela.

– Como assim? – olhou para a plateia, voltou a me olhar.

– Pra ser sincero, não imagino que o meu livro seja um grande sucesso e que tenha um linguajar estupendo, que faça as pessoas pararem toda hora pra dar uma conferida no avô dos burros. – sorri já imaginando a reação do Helder ao me ouvir dizer aquilo. – Sou um escritor de fracassos.

Silêncio. Pelo menos minha perna tinha parado de tremer.

– Está assumindo em rede aberta que seu livro não é bom? – espantado.

– Quem disse que não? – encarei-o com sorriso sarcástico, como se estivesse controlando o jogo. Mas que jogo? – Precisa ser ruim pra ser um ótimo fracasso? Precisa ser ótimo pra ser um sucesso de baixa qualidade?

Silêncio novamente. Pela sua expressão, percebi que o deixei confuso e pensativo. Devia estar pensando que eu estava de brincadeira, mas não estava.

– Entendi o que quis dizer. – olhou para as câmeras e depois voltou a me olhar. – Quer que isso vá pro ar? – falou baixo, quase sussurrado, se curvando na minha direção e colocando a mão na boca para abafar o som.

– Não precisa cortar nada.

Com certeza, Helder nessa hora estava arrancando os cabelos e pensando: “Pronto! Enlouqueceu de vez! Saindo daqui vamos direto ao hospício ou fazer tratamento psicológico”.

– Tudo bem. – disse ajeitando a gravata e recostando-se na cadeira. – Já que quer assim… – deu de ombros.

– Já leu o livro?

– Ainda não terminei, mas…

– Faremos o seguinte… – voltei ao sorriso sarcástico, realmente parecia maníaco lunático.

Isso geralmente acontecia quando lia as histórias do Coringa (meu vilão predileto, apesar de ter o nome de um dos X-Men) ou via o clássico filme do Batman em que o Heath Ledgerfaz o melhor Coringa de todos os tempos, na minha humilde opinião de fã. É uma pena ter morrido. Continuando…

– Quando terminar de ler, diz aqui no seu programa o que achou do livro. – lhe estendi a mão. – Sei que é um homem completamente culto, que devora muitos livros… E não me importo caso chegue à conclusão de que é uma boa merda o que escrevi. Mas, se realmente achar bom, vai dizer aqui… Assim como, e principalmente, se achar ruim… O que acha?

Ficou me encarando com expressão séria e assustada. Olhou para o Helder, que estava do lado de uma das câmeras.

– Ele está falando sério? – perguntou apontando o dedo na minha direção.

Olhei e me certifiquei do desespero de Helder, que estava com as mãos pousadas nas bochechas, os olhos arregalados e assentindo com a cabeça. Voltei a olhar para o entrevistador, que agora me olhava com enorme sorriso.

– Gostei de você. Com certeza é o que farei. Se for ruim, irei escrachar seu livro em rede nacional. – disse firme e orgulhoso.

Pelo seu tom de voz dava para perceber que estava certo de que iria ser daquela forma. Devia estar pensando que eu estava blefando ou brincando.

– Sei disso.

– Fascinante!

– É bem melhor que seja assim. Que graça tem eu ficar falando do meu livro? Sou um escritor desconhecido, ninguém me dará ouvidos. Se você falar bem, conseguirei milhares de vendas extras. As pessoas tem que parar com essa mania de procurar só por Best Sellers, autores estrangeiros ou brasileiros já renomados… Há muita cara nova e boa por aí… Há novas formas de passar mensagens, contar histórias e outros eteceteras.

– Concordo… E como surgiu inspiração para escrever esse livro?

– Honestamente… – lembrei-me novamente de Dominique. – Vivi uma história parecida. Metade do livro, realmente aconteceu – sabia que aquilo ia despertar ainda mais a curiosidade de quem não leu.

– Sério?

– Seríssimo, meu caro.

– E como foi?

– Não posso, senão vou acabar contando boa parte do livro e que prefiro que não saibam quais eu realmente vivi. – sorri vitorioso, como se tivesse acabado de dar xeque-mate, a cartada final. Mas que cartada?

Sorriu desconfiado. Acho que finalmente percebeu que eu realmente estava fazendo bom jogo ali na sua frente, no seu renomado programa. Alguns minutos depois, ficou sério olhando para o nada e:

– Recebi informações de que nosso tempo acabou, mas gostaria de chamá-lo para mais um… Tem problema?

– Nenhum! – vitória!

Chamou o comercial e ao mesmo tempo disse que estávamos de volta. Como não era ao vivo, não havia necessidade de fazer pausa de um ou dois minutos. Matei minha curiosidade de saber se até quando o programa era gravado, realmente faziam aquela pausa para os comerciais. A banda finaliza a música que tocou antes de chamar o comercial e inicia outra, para o retorno.

– Estamos de volta. – colocou a mão em meu ombro. – Aqui, comigo, o enigmático escritor Logan Machado, que acabou de lançar o romance intitulado Pierre & Marie pela EditoraCherbourg.

Não acenei para lugar nenhum, apenas sorri quieto na minha e sem tentar descobrir qual era a câmera. Que ela descubra meu melhor close! Já não estava nervoso, agia como se conversasse com algum novo amigo e como se não estivéssemos gravando nada. Perguntou-me sobre minha vida, tirou-me algumas histórias engraçadas que só o Helder sabia e lembrava. No fim da gravação fiquei surpreso quando o entrevistador humildemente assumiu para mim que estava ansioso para terminar de ler o livro, e que se realmente gostasse, faria questão de comprar os outros dois e cumprir o trato que selamos. Ficou de me ligar para dizer quando iria ao ar, o programa onde falaria sobre. Principalmente se tachasse o livro como péssimo, lixo. Agora era só esperar o mês passar e me assistir de madrugada na minha querida TV, em minha humilde residência, e de preferência, bebendo todas.

– Você é louco! – diz o Helder assim que o encontro enquanto saíamos do estúdio.

– Relaxa.

– Consigo uma oportunidade magnífica pra divulgar você e o livro, e joga tudo pro alto? – estava irado.

– Não joguei nada pro alto e você sabe disso.

– Era uma chance de aumentarmos as vendas.

– Aumentando ou não, não estaremos perdendo ou ganhando nada. Quero ver se quem assistir ao programa vai entender o recado. Só isso.

– Você é louco! Muito louco. – foi a primeira vez que Helder parecia minha mãe.

– É sério, mãe. – descontraí. – O que eu fiz foi ser realista. E aumentei a curiosidade das pessoas. Espera até depois da exibição e veremos qual será o resultado.

– Como pode ter tanta certeza?

– Juro que nem sei como falei aquelas coisas e como agi daquele jeito. Entrei lá nervoso e me transformei. As palavras foram saindo, fui agindo e falando… – acendi meu cigarro. – Não tinha como controlar, Helder. É sério! Acho que foi como daquelas vezes que me encontra depois de ter visto o Coringa do Heath Ledger ou lido alguma história do Coringa sapecando bonito o Batman. –gargalhada ao melhor estilo Coringa.

– Vou repetir mais uma vez… – respirou fundo. – Você é louco! Louco de pedra! E pode ter feito uma grande merda na sua carreira.

– Tudo bem, Helder, vou atrás da minha promissora carreira de advogado, futuro delegado, como tanto sonhava tia Geralda.

Quando cheguei à minha casa, a primeira coisa que fiz foi ligar para Patrícia e contar tudo. Teve a mesma reação que Helder, porém, mais brincalhona. Marcamos de nos encontrar na segunda, que era quando preferia tirar “folga”.

Os dias foram passando e cada vez menos, pensava em Dominique. Encontrava-me com Patrícia toda segunda, no mesmo sujinho que nos conhecemos, e às vezes, quando dava, o Helder aparecia comigo. Algumas vezes, também, nossos encontros eram no sujinho perto de casa, e no fim da noite, digamos que, coloríamos nossa amizade… Se é que me entende.

No dia que o programa seria exibido, liguei para ela depois do almoço, lembrando-a. Passei a tarde inteira ansioso, andando de lá para cá na sala, bebendo e fumando um atrás do outro. Conforme a noite foi dando seu sinal de vida, minha tremedeira aumentava e já estava quase recorrendo às unhas dos pés. Em instantes, estava perdido no medo de que as coisas que tinha dito realmente pudessem ter efeito negativo, como Helder temia, e em outros, estava repleto de confiança e otimismo, pensando que tudo daria certo como planejado e as coisas iriam melhorar. E o maldito filme que não acabava para que o programa começasse? Se ainda fosse algum filme que não tinha visto, poderia até ajudar a prender a atenção e fazer as horas passarem. Na última parte do filme, a campainha tocou. Quando olhei pelo olho mágico, para minha surpresa, era Patrícia.

– Surpresa! – diz ela com os braços esticados para o ar e sorriso de orelha a orelha.

– Ué… – abracei-a. – Não sabia que viria.

– Por que é uma surpresa, né, idiota? – brincou me dando soco de leve na testa. – Quero ver contigo. – foi entrando. – Tem problema?

– Nenhum. – fechei a porta. – Vai ser bom, que aí me diz qual o impacto deu em você, o que achou da entrevista e tudo mais. – pulei no sofá, sentando-me ao seu lado.

– Não vai me trazer nada pra beber? – já estava ‘abusada’ a esse ponto.

– Nossa! Olha como está folgada.

– O que tem hoje? – levantou e foi em direção à cozinha.

– Tem long neck lá na geladeira. – olhei a garrafa vazia na mesinha. – E traz mais uma por que a minha aqui já morreu.

Mal colocou os pés na cozinha, olhei para a televisão e estava nos créditos finais.

– Acabou o filme! – gritei. – Já chegou o disco voador!

Pronto. Agora era só esperar o comercial passar e o programa começaria. Patrícia voltou desesperada com as duas longs na mão e pulou no sofá. Acho que todo mundo que entrava na casa sabia que o mais bacana não é sentar com classe, mas sim, pular no sofá. Peguei a minha e brindamos:

– Viva a Literatura.

– Viva! Viva!

Começou. Além de mim, teriam mais dois entrevistados. Um fotógrafo renomado e um ator de Hollywood, que estava passando as férias no Brasil.

– O único fracassado sou eu… – decepcionado.

– Relaxa. Se for pela ordem, ficou para o último bloco…

– E?

– Geralmente a melhor entrevista fica para o último bloco.

– Que nada. Qualquer um que estiver vendo o programa vai estar mais ansioso pra ver o “bombadão” de Hollywood. – virei minha garrafa, engolindo metade do líquido. – Assim que a entrevista com ele terminar, a maioria dos telespectadores vão desligar a televisão e ir dormir.

– Para de ser pessimista. – revoltada, me deu soco no ombro.

– Você é uma pessoa muito violenta, sabia? – esfregava o local que havia sido impactado.

– Ah! Você fica de palhaçada. Vai dar tudo certo, idiota. – fincou os dentes me encarando.

Não sei como nem quando, Patrícia pegou essa mania de vez ou outra me chamar de idiota, mas acabei acostumando com o tempo. Era forma carinhosa de me chamar… Eu acho. Também não incomodava.

Diferente do que nós esperávamos, fui o primeiro. Em minha concepção era bem melhor, pois, assim, todos iriam ver enquanto esperavam a entrevista com o ator de Hollywood (que obviamente merecia muito mais ser o último). Estava tudo certo, ninguém iria desligar a televisão e dormir. Quando acabou a exibição, com certeza fomos os únicos a desligar a TV.

– Nossa! É louco mesmo. – diz aos risos colocando a palma da mão na minha testa. – Anda sentindo-se bem, filho?

– Não falei que baixei legal o meu Coringa interior?

– Pensei que estava brincando com a minha cara.

– Pois é…

– Confesso que fiquei curiosa e quero ler os outros livros. Tem algum exemplar deles pra me dar? Aí eu leio o primeiro depois de ler o Pierre & Marie e depois o segundo. Assim, saberei sobre todos os seus livros e poderei fundar seu primeiro fã-clube!

Pimba! Consegui o que queria! Matei os coelhinhos.


12 – Reencontro


Helder assistiu até o final, pois por volta do horário que finda o programa, recebi uma mensagem dele no celular: “Acho que você estava certo, Coringa Harper”. Como disse anteriormente, assim que acabou a minha entrevista, eu e Patrícia desligamos a TV e começamos a beber para comemorar. Estávamos sentados no sofá, luzes acesas, na mesinha o cinzeiro cheio de guimbas e long necks vazias.

– Você é muito inteligente!

– Acha mesmo?

– É sério! Eu, no seu lugar, não teria coragem de fazer o que fez. Correu o risco de jogar tudo pro alto, sabia?

– Sim. Desde o dia da gravação o Helder ficou falando isso no meu ouvido.

– Que loucura. Queria ter essa coragem… Começar vida nova e esquecer o passado.

– Como assim?

– Sei lá… – passou o cabelo por cima da orelha esquerda. – Tentar arrumar um emprego honrável e esquecer que já fui garota de programa… – me olhou, senti até pena na hora. – Essas coisas…

– E por que não faz?

– Como eu disse, não tenho coragem. – se arrastou para o lado e deitou em minhas pernas, com a barriga para cima e as mãos cruzadas na altura do umbigo.

– Se quiser, posso te ajudar. – lhe fazia cafuné.

– Como?

– Faz tuas malas e vem morar aqui. Se tudo realmente melhorar como espero, pode ser minha secretária ou assistente pessoal… Ou algo do tipo. A gente inventa.

– Jura? – suspirou profundamente.

– Juro. Podemos morar junto, sendo amigos, não? – beijei-lhe carinhosamente a testa.

– Lógico! – seus olhos chegavam a brilhar intensamente. – Mas como vou rachar as contas contigo? – ajeitou-se, sentando novamente.

– Não precisa. Suponhamos que aqui é o meu escritório e seu local de trabalho. Vai atender os telefonemas, arrumar a casa… Sabe fazer comida?

– Sei. – respondeu rápido, extrovertida.

– Então…

E foi assim que Patrícia veio morar comigo, como amigos e “a trabalho”. Naquele dia ela dormiu no meu quarto e eu no sofá. Assim que acordamos, fomos com Helder a casa onde ela morava, para buscar seus pertences. Tirei tudo do cômodo que eu usava como biblioteca e montei uma “versão para colecionador” em um dos cantos da sala, só com meus prediletos e os três que escrevi, em destaque, lógico. O restante foi empacotado e guardado embaixo da cama, junto com as caixas dos exemplares de “Em Dias De Chuva”, “Emancipado” e “Pierre & Marie”. Helder a presenteou com uma cama, que quase virou outro tipo de móvel quando tentamos montar. Por fim, quando resolvemos ser mais inteligentes, desistimos e chamamos alguém especializado no assunto. Sabe aquela taxa para montagem, que a gente resolve não pagar por achar muito caro e pensar que não deve ser tão difícil montar um móvel, ou, melhor, uma cama? Então, vale muito! Tive que pagar o dobro, pois o rapaz teve que descobrir como desmontar a merda que fizemos, antes de montar do jeito correto. O pior de tudo é que nem sou mão de vaca, realmente achei que não seria difícil montar cama. Que dificuldade tem montar um retângulo? Todas! Será que tem curso para montador de móveis ou somos burros em demasias?

O tempo voou e o mês do meu aniversário chegou. As vendas dos livros tinham duplicado e a Editora aproveitou o embalo para divulgar mais. Lembra-se do apresentador? Ligou-me dizendo que gostou dos meus livros, com um linguajar acessível a qualquer tipo de cultura ou classe e intelecto, e que o programa onde diria sobre, iria ao ar no dia dezoito de setembro. Certinho na data do meu aniversário. Passei à tarde com Patrícia e Helder bebendo, festejando meus trinta anos de vida e a alavancada que minha carreira literária estava dando. Quando a noite deu seu ar da graça, Ivone ligou e Helder foi embora, ficando apenas eu e Patrícia, como sempre. Para nossa alegria, dessa vez estava passando um filme inédito… Para nossa tristeza, era tão ruim, mas tão ruim, que pegamos no sono e acordamos de manhã, perguntando um ao outro se tinha visto o programa. Sem problemas, nada que um YouTube não resolva ou o DVD que Helder gravou com o depoimento do apresentador para guardar de recordação. Não vou entrar em detalhes, até por que, foi quase: “Lembram-se do Logan? Não, certo? Mas o livro dele é bom, eu recomendo”. Mesmo assim triplicou as vendas e sou grato por isso, só não gostei, pois fiquei com a impressão de puro descaso de sua parte.

A vida estava boa. Já estava me tornando escritor de fracassos “conhecido” e minha renda financeira estava aumentando, o suficiente para pagar Patrícia, que estava melhorando e muito sua função de secretária. Já atendia ao telefone com a agenda na mão, frase bem bolada de impacto na ponta da língua, script intermediário, e fingia muito bem que já tinha compromisso marcado para tal dia, quando eu não estava a fim de ir a lugar nenhum.

Em novembro, Helder me surge com a notícia de que Ivone estava grávida de um menino e para nascer no mês de Maio. No começo ouvia como: “A Ivone me deu um lindo golpe de barriga”. Depois de semanas, não sei se por conta da gravidez, mas, ela estava sensível de uma forma nunca vista antes, quando os encontrei, sem querer, no Shopping. Já estava preparado para fingir que não os tinha visto, mas ela me viu e gritou tão alto, que até surdo ouviria. Para minha surpresa, tratou-me bem e comentou que gostaria que fosse o padrinho da criança, e sem pré-acordo algum, esquecemos as brigas do passado. Intrigante, não? Dominique? É cada vez mais raro pensar nela, mas quando penso… O blog que tinha reativado sempre ganhava um post novo e uma folha de caderno é vez ou outra preenchida, quando quero restringir as palavras só a mim. Quem sabe um dia eu a reencontre e entregue as cartas que não mando? Como já bem cantou Leoni: “Guardo pra te dar as cartas que eu não mando…”.

Em dezembro, fiz festa surpresa para Patrícia, que completou vinte e seis anos. O mais bacana era a quantidade de convidados presentes: eu, Helder e Ivone com sua barriga já bem notável. Foi o suficiente para emocioná-la, já que nunca teve festa surpresa ou festa de aniversário mesmo. O ano virou, e em meados de abril, estávamos na sala da minha casa quando Helder me veio com a notícia de que iria entrar no mundo da produção de filmes. Já estava montando a equipe e queria que eu adaptasse o livro para roteiro.

– É o quê? – gritei quase caindo sentado no sofá.

– Isso mesmo que ouviu. Quero produzir o filme “Pierre & Marie”, rapaz. – dizia esticando os braços no ar, como se estivesse abrindo cortinas.

– Está louco?

– Qual o problema, Logan? É a sua chance! – diz Patrícia empolgadíssima, do jeito que eu deveria estar.

– Todos! – levei as mãos à cabeça, puxando os cabelos. – Pode falir se fizer isso, Helder.

– Relaxa. – diz aos risos. – Presta atenção… – sentou-se ao meu lado no sofá. – O livro só tem dois personagens principais e a história acontece praticamente no mesmo lugar. Não precisarei de um enorme montante em dinheiro para produzi-lo. Lembra daquele filme que vimos uma vez? O Once?

– E como vamos todos a Paris?

– No filme, a história pode acontecer aqui no Rio, não acha? Confia em mim, cacete. – colocou a mão no meu ombro. – Não confia mais em mim? Poderia até ser uma forma de passar que, acontecessem coisas parecidas independente de onde esteja. Uma história que aconteceu em Paris pode muito bem acontecer no Rio, e vice-versa.

O silêncio reinou na sala. Eu bastante pensativo e os dois esperando por alguma resposta. Pensando bem, tirando o caso de Ivone com a MPB anos atrás, tudo que Helder pegava para produzir, ou ajudar, ou expandir e etecetera, dava certo! Tinha bom faro artístico para as coisas que estava disposto a fazer. Fora que, qual escritor, na face da Terra, não sonha em ver seu livro nos telões do cinema? Por mais que não seja com uma produção milionária, queria ver o meu.

Respirei fundo. Olhei para os dois.

– Eu topo! Mas se der merda dessa vez, a culpa vai ser toda sua. Fechado?

Abraçaram-me e festejaram. Abrimos cervejas e comemoramos o novo passo que todos nós daríamos. De noite, assim que Helder foi embora para ficar com Ivone (que já estava com oito meses de gravidez), eu e Patrícia resolvemos “comprar” filme, para passar tempo, pela TV por assinatura que havia assinado. Não sei o que deu exatamente… Sei que o sinal ficou fora do ar no que me parecia ser a melhor parte do filme. Fiquei puto da vida, pois estava preso ao filme em um estado que chamo de “bêbado melancólico e mal-amado”. Peguei o telefone e liguei para central de atendimento, cheio de ódio, bufando, batendo o pé firme no chão e doido para soltar meus macacos articulados em cima de qualquer pessoa que atendesse. Só não esperava ouvir…

– Tevê por assinatura… Boa noite! Dominique. Com quem falo?

Silêncio, coração disparado subindo pela goela, os olhos querendo saltar da cara e um copo de uísque se espatifando no chão. Não tinha como soltar os macacos nessa pessoa.

– Tevê por assinatura… Boa noite! Dominique. Com quem falo? – repete.

– O que houve Logan? – pergunta Patrícia do sofá, assustada.

–– Por falta de comunicação estarei encerrando essa ligação. Caso esteja me ouvindo peço que…

– Oi, Dominique. – consegui falar depois de engolir seco o ódio, pé, meus macacos articulados e com a voz mais mansa do mundo. Boa, machão!

– Olá Senhor. Com quem eu falo, por gentileza?

Patrícia inquietou-se ao ouvir o nome. Não precisava ser inteligente para perceber o que estava acontecendo… Ou o que poderia acontecer. O destino pregando mais uma?

– Sou eu… Logan.

Agora foi do outro lado da linha que o silêncio foi fazer sua visita. Mas, como boa profissional, respirou fundo e:

– Boa noite, Senhor Logan. O Senhor já é cliente ou gostaria de fazer assinatura? Alguma reclamação ou sugestão? Em que posso ajudá-lo, Senhor?

Como disse anteriormente, se fosse qualquer outra operadora de telemarketing, já teria soltado meu clássico: “Senhor é o cacete!”. Como era Dominique… Como era a MINHA Dominique… Só senti meus olhos marejarem. Passei no rosto a mão que estava livre e deixei a testa pousada na palma da mão. Em momento algum passou pela cabeça que poderia ser outra Dominique. Estava convicto. Não tinha erro. Não erraria nem…

– Senhor, o que deseja? – insiste.

– Você! – respondi de imediato, sem pestanejar. Não deixava de ser verdade.

Deu até para ouvi-la soltando a respiração carregada no telefone.

– Não faz isso comigo, por favor. – diz com dificuldades.

– Precisamos nos encontrar, conversar e acertar as coisas. Mudei. Juro por tudo que me é sagrado! – não sou de ferro e comecei a chorar. – Preciso de você! Vamos…

– Logan… – interrompeu-me.

– Por onde tem andado? – continuei. – Onde mora? Ainda lembra onde moro? Vem me ver… Eu pago o táxi… Por favor. – se ela estivesse na minha frente, juro que estaria ajoelhado e abraçado a suas pernas.

– Tem certeza que é o que quer? – fria.

– Absoluta! Vou te mostrar e provar que mudei.

– Tudo bem, Logan. – soltou a respiração no telefone novamente. – Trabalho até às três da manhã, então…

– Pode vir! Vou te esperar. – agora, estaria beijando seus pés.

Silêncio.

– Mas…

– Por favor! Agora que te reencontrei, quero te ver logo. O mais depressa possível.

– Logan, Logan… Fala seu número, joguei fora naquele dia… Quando estiver no táxi, vou ligar pra que me espere na frente do seu prédio. Estamos entendidos?

– Sempre! Vou esperar. – olhei para o relógio, eram dez e onze.

– Deixe-me trabalhar agora.

Passei meu número e desligamos.

– E aí? – perguntou Patrícia sentando-se ao meu lado e me abraçando.

– Ela virá! – digo com sorriso enorme e o rosto todo molhado.

– Que bom! Bom mesmo. Que horas?

– Trabalha até as três. – olhei para o relógio novamente. – Quando estiver vindo vai ligar.

– Quer que eu passe a noite fora pra ficarem a sós?

– Não precisa! Quero que te conheça e… Saiba como e por que mudei. É minha testemunha!

– Tem certeza? – acariciou meu rosto, limpando as lágrimas.

– Absoluta!

Sorriu amistosa.

– Vamos arrumar essa bagunça pra recebê-la. – me ajudou a levantar.

– Pode ir arrumando sem mim? Vou comprar mais cigarros e cervejas.

– Vai. – beijou-me a testa e começou a arrumação. – Falar do problema sobre o filme, nada, né? – brincou.

– Amanhã a gente reclama com outro atendente. – digo correndo ao banheiro.

Joguei água no rosto, sequei na toalha e me ajeitei sem olhar para o espelho. Peguei a carteira no quarto, abri a porta da sala e saí.

– Volto já, não demoro. – e bati a porta.

Apertava o botão do elevador freneticamente, como se aquilo fosse aumentar a velocidade dele. “Por que fui morar no nono andar?” – pensei. Corri para as escadas, desci voando ao oitavo e voltei a apertar desesperadamente o botão. No painel, tinha acabado de passar pelo quinto andar. Quando cometeria a burrada de descer ao sétimo, voltei e olhei para o painel… Sétimo. Opa! Não sei o motivo de tanta pressa, já que ainda faltavam horas para que Dominique chegasse. Abriu no oitavo… Esqueci que como tinha apertado o nono, subiria até lá. Animal! Será que alguém do vigésimo havia apertado também? Para minha felicidade, não. Quando abriu no nono, logo se fechou e começou a descer. “Desce! Desce! Desce! Desce!” – pensava olhando para o painel. Olhei para o relógio. Dez e vinte nove. “Maldita hora, passa logo!”.

Chegando ao térreo, saí correndo e ignorei sem querer o: “– Boa noite, Senhor Logan” do porteiro. Fui direto ao, já famoso, sujinho perto de casa. “Cacete! Esqueci as garrafas” – pensei assim que entrei. Peguei dez de um litro e fiquei de trazer no dia seguinte. Voltei correndo para o prédio e: “– Boa noite, Severino” – respondi atrasado ao porteiro. Olhei para o painel e o elevador estava no décimo. Novamente sem raciocinar, fui para as escadas e subi correndo. Quando cheguei ao terceiro andar, o elevador estava no quarto e, com chute que nem eu sei como saiu, acertei o botão. A porta abriu, tinha um casal, e só quando entrei, o raciocínio acompanhou a lógica: “Idiota! Vai descer antes de subir”. Não deu em outra. Olhei para o relógio, dez e trinta e sete.

– Sai das dez, merda! – pensei alto. Melhor, gritei.

O casal ficou me olhando, assustados. Não os culpo.

– Desculpa. – digo baixo com os pés inquietos, corado e sem graça. – Preciso que a hora voe.

Continuaram me olhando calados.

– É… Eu sei… Não é da conta de vocês e estão pensando que sou louco. – o que o nervosismo e o não saber o que dizer faz com a gente? Deprimente.

Assim que chegou ao térreo, saíram às pressas e comecei a dedar freneticamente o botão do meu andar. A porta se fechou. Mais uma olhada para o relógio… Dez e quarenta e um.

– Bate três! Vai, ponteiro safado. – estava enlouquecendo.

Chegando ao meu andar, corri para o apartamento novecentos e três e abri a porta. Patrícia pulou no susto com o barulho das garrafas chocando-se umas nas outras dentro das sacolas.

– Que rápido! – diz toda bonitinha com a vassoura nas mãos.

Guardei-as na geladeira. Ainda tinham cinco para beber até que Dominique chegasse, pois as que acabaram de chegar eram especiais. Tirei uma das cinco, abri e voltei à sala. Ela já tinha terminado de arrumar a sala e estava sentada no sofá.

– Agora é só esperarmos.

– Nervoso?

– Muito!

– Não é melhor pedir pizza? Ela pode chegar com fome.

– Verdade! Vamos ao supermercado? Aí eu compro uísque e algumas daquelas pizzas que ficam prontas em minutos… Sei lá.

– Ué, vamos.

– Assim o tempo passa rápido, também. Espera só terminar essa garrafa.

Bebi rápido enquanto Patrícia bebia normalmente e com calmaria, que na hora achei impressionante. Quando matamos a garrafa, averiguei o relógio antes de sair… Onze e quatro. Saímos de casa. O mesmo desespero de antes, dedando freneticamente o botão do elevador.

– Isso não vai aumentar a velocidade, idiota. – diz Patrícia cruzando os braços.

– Eu sei… – e continuava.

– Para com isso, Logan! Está me deixando nervosa te ver nessa afobação toda.

Coloquei as mãos nos bolsos, respirei fundo:

– Desculpa. – não tirava os olhos do painel.

– Fique calmo… Vai dar tudo certo. – me abraçou forte.

– O problema é essa hora que não voa.

– É sempre assim. Quando queremos que voe, não voa… E quando não quer, voou.

Fomos e voltamos de táxi. Comprei quatro pizzas, garrafa de Red Label e algumas coisas que Patrícia afirmou estarmos precisando repor em casa. Voltamos perto de bater uma hora, direto a cozinha guardar as compras. Coloquei o uísque no minibar, abri cerveja e acendi meu cigarro. Fiquei pouco mais leve e tranquilo. Olhei para o relógio… Uma e onze. Larguei-me no sofá. Patrícia voltou da cozinha, encheu seu copo e sentou-se ao meu lado.

– Fica calmo. – passava a mão no meu braço. – Respira fundo. Não tenha um ataque antes de Dominique chegar. – sorriu.

– E se não vier? – baixei meu melhor ‘eu’ pessimista.

– Virá, fique tranquilo.

– Tem certeza?

– Não! Mas deve ser otimista.

– Estou com medo.

– Não fique… Qualquer coisa, eu estou aqui pra te proteger e amparar.

– Obrigado. – olhei-a com ternura. – O que seria de mim sem você?

– Eu que devo lhe dizer isso. – beijou meu ombro.

Quando piscamos, o celular tocou… Três e sete.

– Dominique? – atendi.

– Logan, eu esqueci o endereço.

Passei-lhe.

– Está mesmo vindo? – precisava ouvir de sua boca.

– Sim, fica tranquilo. – riu. Conhecia-me bem.

Ouvi-la sorrir antes de desligar, me deu um alívio estupendo.

– Está no táxi. – digo a Patrícia.

– Vou trocar de roupa pra recebê-la.

– Vou esperá-la lá na frente. Como estou? – perguntei olhando-me de cima a baixo.

– Impecável. Boa sorte. – e foi para o seu quarto.

Não preciso dizer como foi, assim que parei na frente do elevador. Certo? Vou pular para a parte onde estou na frente do prédio, olhando toda hora para o relógio e para todos os cantos da rua procurando por algum táxi a se aproximar. Meus pés inquietos, um cigarro sempre aceso, atrás do outro que mal acabou de ser jogado fora, o coração na mão e os pensamentos a mil por hora.

Exatamente as três e quarenta, um táxi para na minha frente e sai Dominique, mais linda que da última vez que nos vimos! Os cabelos negros e longos, daqueles ondulados que queriam ser encaracolados e faziam questão de deixar isso bem claro, estavam de volta. Aqueles belos olhos mais uma vez olhavam para os meus. Não sei se estava ou só parecia mais magra naquele uniforme de trabalho. Todo mundo sabe que é difícil um uniforme deixar alguém atraente como em outras roupas ou como a pessoa realmente é, mas ela ficava perfeita em qualquer tipo de roupa que usasse… Principalmente com a minha camisa branca do John Lennon.


13 – Contas


Não trocamos nenhuma palavra. Estáticos com cara de “Não sei o que dizer, começa você”, até que o taxista tossiu e anunciou o valor da corrida. Tirei a carteira do bolso e paguei. Assim que sumiu da vista, me aproximei e a abracei forte, com medo que fosse fugir caso a soltasse. Minha Deusa estava de volta aos meus braços, de onde nunca deveria ter saído. Depois de longa inspirada de ar, percebi que ainda usava o mesmo condicionador e o mesmo perfume, das poucas coisas que não tinha mudado. Seu coração ainda batia acelerado e sincronizado ao meu. Em lapso repentino, pousei as mãos em seu rosto e a olhei de perto, precisava ter certeza… Obrigado, destino. Não era um sonho. Dessa vez você acertou!

– Senti tanto sua falta. – assumo quase sem voz.

– Eu também. – seu queixo tremia e não fazia frio.

– Vamos subir, precisamos conversar… E tenho alguém especial pra te apresentar. – suava frio.

– Quem? – jogou o peso do corpo na outra perna.

– Surpresa.

No elevador, estava morrendo de vontade de beijá-la, mas faltou coragem. Será que tinha encontrado alguém que não se importava com o que faz para ganhar a vida, desde que seu coração pertencesse a ele? Será que a desapontei de tal maneira a começar a se interessar pelo mesmo sexo? Será que ainda ama? Estava ocupado com aqueles pensamentos, todo embasbacado com a cabeça e o ombro esquerdo apoiados no espelho e os olhos vidrados nela, garantindo que os dela ficassem presos aos meus, como foi na primeira vez que nos vimos. Dominique sorri ternamente.

– O que houve? – pergunto.

– É a primeira vez que te vejo sem barba.

Verdade. Me esqueci desse detalhe. Havia feito pela manhã, depois de perder aposta para Patrícia. Teria que ficar sem barba durante três meses. Não é uma tarefa tão difícil quanto seria se ganhasse: ela deixaria os cabelos do sovaco crescerem por dois.

– O que achou?

– Esqueceu que sou fã da sua barba? – levou a mão ao meu rosto.

Fechei os olhos. Cheguei a suspirar sentindo aquela pele macia passeando pelo meu rosto depois de tanto tempo. Sua respiração chega ao meu queixo e quando abro os olhos, seus lábios avermelhados pelo batom estavam se aproximando dos meus, cheios de sede desde o nosso último beijo e intensificado com esse reencontro, tamanha saudade. Me entreguei, e finalmente me senti vivo.

Chegando a casa, quando abri a porta, Patrícia estava no sofá vendo televisão e bebendo. Dominique me olha com expressão mista de curiosidade e surpresa. Pigarreei chamando a atenção enquanto entrávamos. Patrícia levantou.

– Boa noite, Dominique. – diz sorrindo e se aproximando.

– Boa noite…? – diz Dominique com certa indiferença.

– Patrícia. – estende a mão.

– Boa noite, Patrícia. – cumprimentou-a, me olhando com cara feia.

– Ela é minha secretária e grande amiga. – digo desviando os olhos para Patrícia. – Quando te contarmos a história toda, vai entender tudo. – sorrio juntando fé.

Sentamos no sofá enquanto Patrícia foi à cozinha pegar outro copo. Comecei contando-lhe o ocorrido depois se sua partida, até quando conheci Patrícia e a grande conversa em Copacabana, embalando os dias seguintes, que serviram para mim como espécie de tratamento.

– Fiquei decepcionada naquele dia. – diz Dominique depois de digerir toda a informação que coloquei à sua frente.

– Imagino… Perdoe-me… Fui um tremendo idiota!

– Sei disso… Mais do que você imagina. E nem sei como aceitei vir aqui tão fácil assim… – olhou para a porta.

– Não fala assim e não pensa em fazer isso.

– Fazer isso o quê, Logan? – me encarou furiosa.

– Vou deixá-los a sós. – diz Patrícia se retirando. – Boa noite Dominique, foi um prazer enorme conhecê-la.

– Boa noite. – seu tom de voz deixa claro ser apenas por educação.

O silêncio de nossa tristeza e a fúria de Dominique parecia gritar na minha consciência. Estava disposto a lutar para que dessa vez não fosse embora e ficasse de vez. Era o que mais queria desde o dia que a deixei ir embora à toa. O que mais queria desde que me apaixonei por ela. O que mais queria, naquele dia, na minha humilde vida, era aquilo. Sabe quando às vezes chegamos naquelas fases de pensar em jogar tudo para o alto por conta de uma só? Era um desses dias.

– Por favor, me perdoe. – tentei colocar minha mão esquerda na dela em sua perna, mas tirou. – Fui um tremendo idiota preconceituoso, falei um monte de asneira, te deixei partir à toa, te fiz sofrer esse tempo todo e…

– Cala a boca, porra! – gritou raivosa. – Não faz com que eu me lembre do que passei depois daquele dia… Só eu sei o que passei, não faz ideia nem da metade. – sua respiração ofegava. – Só eu sei da turbulência que eu tive que enfrentar por conta daquele dia!

Quase me engasguei com as palavras, todas recuando de uma só vez, com medo de saírem.

– O que estou fazendo aqui? – diz baixo para si, mas ouvi.

– Não diz isso… – quase chorando com a voz trêmula. – Dá uma chance, por favor. – segurei suas mãos, me aproximei mais. – Iremos ficar juntos e nada irá nos separar… Eu juro! Acredita em mim. É pra valer!

– Será? – me olha céptica com as sobrancelhas arcadas.

– Confia! Por favor… Ajoelho na sua frente se quiser… E imploro mil vezes até.

– Não faz isso.

Ajoelhei. Tentava me levantar puxando pelos ombros da camisa.

– Logan, não faz isso! – diz irritada. – Para com essa babaquice! Que coisa mais infantil.

Levantei e sentei novamente ao seu lado. Juntei as mãos entra as pernas, de cabeça baixa, já sem esperança e noção do que poderia fazer para convencer aquela mulher.

– Precisou de outra garota de programa… – calou-se. Respirou fundo. Esfregava as mãos no rosto. – Desculpa. – bufou. – Acho que agora eu que estou sendo insensível contigo.

– Eu mereço.

– Não merece nada!

– Só quero que fiquemos bem. – segurei em suas mãos novamente e beijei cada uma. – Te amo! Preciso de você na minha vida. Preciso saber o que tem feito e o que pretende fazer… Onde está morando?… Vamos recomeçar?

Silêncio.

– Apesar de saber sobre essa mudança toda, ainda me dói muito, Logan. – seu queixo voltou a tremer.

– Eu sei. – respiro fundo, esfrego a testa. – Me perdoa, vai… Por favor! – e os olhos se enchem de lágrimas. – Vou te fazer muito feliz. Vamos ficar juntos? Vem morar comigo, ser um casal… – levanto e a puxo de leve, fazendo ficar de pé. – Dominique… – acaricio seu rosto. – Quer ser minha mulher?

Me olhava nos olhos. Passou a mão carinhosamente em meu rosto.

– Tem certeza que quer dar esse passo? – sorri angelicalmente. Sorriso que só Dominique tinha.

– Absoluta!

– Mesmo sabendo que já fui garota de programa?

– Sim!

– Mesmo sabendo dos riscos que pode correr namorando uma mulher que já foi garota de programa?

– Sim! Sim! Sim! – dei-lhe um selinho. – Na alegria ou na tristeza… – outro. – Na riqueza ou na pobreza… – outro. – Na saúde ou na doença… – outro.

– Chega. – diz descontraída.

E me cala com beijo cheio de paixão.

– Obrigado! – sussurro em seu ouvido.

– Só não me machuca de novo, por favor. – parecia criança pedindo trégua.

– Prometo! – com sorriso tão grande que parecia estar com cãibra. – Onde está morando? Amanhã de manhã vamos buscar logo suas coisas e trazer.

– Assim tão rápido?

– Lógico que sim! – a encho de beijos pelo rosto. – Minha mulher! Vamos comemorar nosso reencontro, e que agora em diante seja eterno!

– Podemos comemorar atrasado o meu aniversário. – seus olhos cintilavam.

– Verdade! Fez no início desse mês, não foi?

– Sim. – sorria com os olhos fechados, fazendo uma cara engraçada, moleca. – Vinte e oito aninhos! – levantou os braços para o ar.

– Com cara de vinte! – digo ‘babando’. – Vou chamar Patrícia pra comemorar com a gente.

Corri na porta de seu quarto e bati. Não atendeu. Quando abri, já dormia feito pedra. Na volta, lá estava Dominique namorando a brasa de seu filtro branco. Magnífico! Tudo estava voltando a ser como era e como nunca deveria ter deixado de ser. Ficamos a sós no sofá, bebendo, fumando e colocando o assunto em dia.

– Apareci na TV, ficou sabendo?

– Sério? – fascinada. – Quando? Não vi.

– Naquele talk-show que passa de madrugada.

– Ah… Não posso ver, é no mesmo horário que meu expediente. Mas me diga como foi.

Contei-lhe minha vida sem economizar palavras ou histórias, até os dias de hoje, inclusive a proposta de Helder.

– Que bom que tudo finalmente está dando certo na sua vida, Logan. Fico muito feliz por você! Merece muito!

– E você voltou para intensificar tudo isso. – beijei-lhe a testa. – Me conta o que fez desde…

– Quase nada! – me interrompe aos risos.

– Quero recomeçar. Saber tudo sobre sua vida… Depois que mudei meus pensamentos, vira-mexe ficava tentando imaginar o que já passou, o quanto…

– Não faz ideia. – me interrompe. Meneava a cabeça.

– Pior que faço. Um pouco. Eu acho, pois… Patrícia me contou a dela e um pouco da de suas amigas, e… Sei lá. – segurei forte em sua mão. – Não quero que tenha medo de me contar. Pode ser um livro sempre aberto comigo.

– E se eu não quiser contar? – sua expressão mudou da água para o vinho.

– Não tem problema. Só quero que conte se estiver à vontade… E o que bem quiser. Ainda não acredita que mudei, não é?

– Não é bem isso… Não sei explicar. – pausa. Esfregou as bochechas com as mãos – Já que quer tanto ouvir… Depois daquela nossa última cena, peguei o primeiro ônibus para qualquer lugar, parei no primeiro bar que vi e comecei a beber sozinha. A raiva era tão grande, que queria arrumar uns dez clientes, no mínimo. – desviou os olhos para o chão. – Não sei bem o que aconteceu comigo, pois… No primeiro cliente já não conseguia me concentrar durante a… – calou-se. Pegou o copo e bebeu todo o líquido. Tratei logo de enchê-lo assim que o depositou na mesinha – Ficava pensando em tudo que tinha dito e só conseguia sentir-me imensamente suja e um tremendo ódio de você. – sua perna direita começou a balançar inquieta. – No segundo cliente, nem tive cabeça para esperar até o final e o mandei embora. Quando amanheceu, minha vontade era de voltar à sua casa e dizer que não queria mais ser garota de programa, e suplicar pra, por favor, retirar suas palavras e me aceitar na tua vida. Durante dias tentei, mas não conseguia ir até o final… – olhava para as mãos sobre as coxas, passava o polegar direito nos pequenos calos da palma da mão esquerda. – Sentia-me cada vez mais suja! Então, aproveitei para tirar um tempo e pensar na minha vida, no por que que eu fazia aquilo, por que vim parar aqui e… Pensando seriamente em voltar para o Sul. Mas, se eu voltasse… – uma lágrima pingou na palma de sua mão esquerda. Fechou o punho na hora, prendendo o polegar na palma da mão. – O que eu diria aos meus pais?

– Por que fazia aquilo? Por que veio parar no Rio? – minha curiosidade saiu pela boca.

– Foi o mais fácil que encontrei como fonte de dinheiro quando cheguei e… Digamos que meus planos não deram certo. – sorriso frouxo. – Ninguém me conhecia. Não tem ninguém da minha família aqui. Não teria como meus pais saberem. – estalou os dedos. – Pra eles eu fugi de casa pra morar com um mauricinho babaca microempresário e trabalharia na empresa dele aqui.

– Como assim?

– Quando tinha dezesseis anos, conheci um guri na net… Nem lembro mais o nome do desgraçado. – fechou a cara. – No começo era só amizade. Ele tinha vinte e cinco anos na época, dizia ser vice-presidente da empresa do papai e que morava na Zona Sul do Rio de Janeiro. Conforme o tempo foi passando, começou a fazer declarações, dizendo que não entendia como sentia minha falta quando eu não aparecia na net, que às vezes estava com a guria dele, mas só pensava em mim, que era uma pena não poder tirar férias pra ir me ver em Osório… – pegou o copo, deu uma golada e o manteve nas mãos. Mesmo assim o enchi. – Começou a fazer minha cabeça pra vir pro Rio morar com ele, que poderia trabalhar na empresa e blábláblá… Fiquei fascinada com a ideia, pois já estava apaixonada. Quem não ficaria? Fora o fato de que sempre quis conhecer o Rio. – colocou o copo cheio de volta a mesinha. – Conversei com meus pais e, de cara, não gostaram nem um pouco da ideia. Diziam que antes de qualquer coisa, ele teria que aparecer em Osório pra que o conhecessem antes de qualquer coisa do tipo ou parecido. – girava o anel que tinha no indicador esquerdo. – Contei pra ele a reação deles e ele disse que não podia sair do Rio, pois a empresa precisava muito dele por perto e só quem viajava era o pai, e a trabalho. Então bolamos um plano de que depois que eu fizesse dezoito, abriria uma conta no banco e ele depositaria dinheiro pra eu vir ao Rio. – acendeu um cigarro. – Mas não poderia contar nada sobre os planos pros meus pais, pois havia o risco de não dar certo ou fariam algo pra destruir nosso relacionamento. – coçou a ponta do nariz. – Era muito boba, tola e ficava encantada com tudo que dizia e fazia… – novas lágrimas começaram a vira-mexe descer-lhe a face. – Assim que completei dezoito, pedi pro meu pai me ajudar a abrir uma conta no banco, alegando que iria começar a correr atrás de emprego, pois queria pra já a minha independência e precisaria ter uma… E pra juntar meus trocados também. Abrimos a conta e meu pai depositou trezentos reais de presente, só que não me disse nada, era pra ser surpresa. Então quando vi, pensei que tinha sido o guri aqui do Rio, até por que, falei com ele na net e confirmou que realmente tinha sido dele o depósito. – seus olhos arregalados estavam fixos no cinzeiro. – Peguei o número de seu celular e fiquei de ligar quando chegasse. Fui à rodoviária e comprei passagem pra madrugada de quarta pra quinta daquela semana, que era quando meu pai e meu irmão ficavam na rua até tarde assistindo jogo do Colorado, e minha mãe dormia cedo. – piscou algumas vezes e seu olhar voltou ao normal. – Assim que cheguei ao Rio, liguei e ele atendeu. Ficou de ir me buscar na rodoviária e eu esperei… Esperei… Esperei… – passou na testa o pulso da mão que segurava o cigarro. – Não apareceu. Dormi na rodoviária e acordei de manhã com o celular tocando… Olhei pro visor… – estendeu a palma da mão olhando-a, como quem estivesse revivendo a cena. – Era meu irmão. Rejeitei na hora e logo vi várias chamadas perdidas dele e do meu pai. – olhou-me. – Desliguei o celular e saí da rodoviária sem saber pra onde ir, o que fazer e com medo de contar o ocorrido aos meus pais… Só sabia chorar e chorar. – e começou a chorar e fungar o nariz. – Fiquei dormindo na rua durante quase dois meses.

E chorava de soluçar. Enquanto eu só conseguia ficar em silêncio, sem reação, engolindo seco, toda aquela informação. Quando voltou a si e conseguiu segurar o choro, deu continuidade com dificuldade:

– Era muito besta e orgulhosa. – sua voz começou a perder e ganhar tom. – Fora que achava que meus pais iriam me matar… Ou eles… Ou meu irmão. – seu nariz estava mais vermelho que nariz de palhaço. – No fim da primeira semana, a conta bancária já estava limpa e tive que vender meu celular pra poder me alimentar. Procurava emprego, mas não tinha como esperar que entrassem em contato, já estava sem celular. Procurava empregos que fossem me dar uma resposta concreta na hora ou algum bico que não assinasse carteira. – humedeceu os lábios com a língua. – Passaram-se duas semanas e tive que começar a pedir esmola na rua, por puro instinto de sobrevivência. – respirou fundo, olhou para os olhos da minha alma. – Sabe o que é pedir esmola pra sobreviver de migalhas?

Apenas neguei com a cabeça e engoli seco, arranhando goela a baixo.

– Um dia vi um grupo de garotas de programa fazendo ponto entre uns taxistas. Tomei coragem e fui perguntar o que precisava pra fazer programa como elas, e… Uma delas disse que precisava de um banho e roupas novas, enquanto as outras riam da minha cara. Vendi tudo que tinha na mala, me hospedei em uma pousada vagabunda, comprei roupas novas… – pausa. Olhou-se. – E assim me transformei em Nicole. – riu. – E não foi difícil arrumar cliente. Rapidamente peguei a manha das ruas. Confesso que conforme o tempo foi passando, fui cada vez mais me desapegando ao amor e gostando daquela vida. Riscos, dinheiro fácil e total independência. Até que, certo dia, enquanto bebia as custas de um cliente em um bar qualquer da vida… – soltou uma risada gostosa. – Me deparei com alguém que chamou muito, muito mesmo, a minha atenção. – me olhou. – Você! Com aqueles seus cachos bem feitos, – meneava a cabeça. – Um jeito “estou nem aí” de se vestir, seu olhar seguro, o jeito de tragar o cigarro. Não sei por que, depois de tanto tempo, foi o primeiro que me despertou atração. E não foi na Nicole, foi na Dominique. – suspira apaixonada. – Como correspondia bem ao meu olhar, resolvi me aproximar e ver no que iria dar. Não tinha nada a perder. No máximo, trocaria o cliente. – mostra a língua e pisca. – Aí vem você com aquele papo de que estava atrás de novidade, aumentando mais a minha curiosidade de você. Quando me fez a proposta de irmos pra outro lugar, nem pensei duas vezes… Só pensei: “Por que não?”. – acariciou a maçã do lado direito do meu rosto. – E me deu a noite mais maravilhosa de minha vida… – sorriu. – Deixando um gostinho de quero mais, como eu bem imaginava que seria.

Confesso que nesse momento já estava completamente derretido com seu relato. Não ousaria dizer nem fazer nada para interrompê-la. Parecia que não tinha ouvido, ou até esquecido, as partes tristes que tinha contado antes.

– Não esperava que fosse te encontrar novamente. Por isso deixei aquele bilhete sem nome, endereço, telefone, nada… Mas pode ter certeza que, vontade, eu levei comigo. – pegou minha mão e deu um beijo demorado nela. – Então, por ventura, nos reencontramos dentro de um ônibus. Naquele dia estava indo fazer programa. – olhou para o copo. – Mas você, Don Juan, me aparece cheio de criatividade, charme, dengo e jeito… – outro suspiro. – Não resisti, precisava matar aquela vontade, mesmo se fosse pela última vez. E nem me importei em perder outro cliente. O que não me faltava eram clientes. Aí tive aquela ideia de deixar nossos encontros ficarem nas mãos do destino. Se tivéssemos que ficar juntos, com certeza nos encontraríamos depois daquele dia… E depois… E depois… – mordeu o canto da boca enquanto olhava meus lábios. – E então as coisas foram acontecendo, e quando dei por mim, já estava completamente apaixonada por alguém que eu não sabia nada e temia que fosse sumir se soubesse sobre a minha vida… Sobre o meu trabalho, o que faço pra ter meu pão de cada dia. – sua expressão ficou séria, desviou os olhos para a almofada ao meu lado. – Por isso fugi naquele dia depois do cinema… Por isso te pedi que colocasse Folhetim do Chico Buarque, pra que ficasse no ar e eu fingisse pra mim mesma, que era como na música e estava lhe dando o recado. Imaginava que seria inteligente o suficiente pra entender minha indireta. Quando entrou no bar, deixei o frio bilhete de adeus embaixo da Zebra e fui embora… – olhou-me, agora com expressão de garota sapeca. – Falando nisso, ainda está com a Zezé?

– Está lá no meu quarto. – respondi aos risos. – Dorme comigo sempre!

– Depois quero vê-la.

Silêncio.

– Quando soube do seu livro e a noite de autógrafo, eu resolvi passar lá pra te ver. – continuou. – Ficava te olhando por trás das pessoas, bem escondidinha pra não correr o risco de que batesse teus olhos em mim. Parecia uma criança brincando de se esconder. – me olhou feito uma. – Por curiosidade peguei o livro e vi a sinopse… Imaginei que tivesse pescado no ar aquela minha indireta com Folhetim. Por isso tomei coragem pra entrar na fila, decidida a fazer com que me visse e pra que eu pudesse ver qual seria sua reação… E pra minha surpresa, ficou todo afobado e nem autografou o livro. – riu. – Escreveu seu telefone, pediu pra te ligar e que podia ser a cobrar… Onde já se viu um autógrafo desses? – brincou. – Ao perceber seu desespero, tive a ideia de jogar aquele bilhetinho informando que não iria embora. – olhou-me. – Daí em diante, Logan… Sabe bem o resto da história.

Peguei seu copo em sua mão e coloquei junto do meu na mesinha. Fui até a estante da televisão e do rádio, abri a gaveta de CD e tirei o da banda Oasis que tinha a faixa Stop Crying Your Heart Out. Coloquei no rádio. Play.

– Essa música sempre faz com que me lembre da minha vida, e principalmente de você. – fui me aproximando dela no sofá, deitando por cima de seu corpo.

Enquanto nos entregávamos a calorosos beijos apaixonados no sofá, Liam, Noel e companhia tocavam no rádio:

Hold on… Hold on… Don’t be scared… You’ll never change what’s been and gone…


14 – Sinceridade


Tinha tudo para dizer que a vida estava perfeita e sorria de jeito maravilhoso. Dominique estava de volta e tínhamos nos resolvido. Agora, morava comigo e era minha mulher, minha companheira. A carreira subindo e subindo. Tirava pelo menos cinco horas por dia para trabalhar na adaptação do livro, de segunda à sexta. Fui convidado para alguns eventos literários, palestras, entrevistas em jornais de diversas cidades, canais de TV por assinatura… Em algumas delas até conheci alguns escritores renomados e donos de Best Sellers, que me renderam boa colheita de dicas e ideias.

Helder conseguiu toda a equipe que precisaria para a produção do filme. Começariam a fazer os testes para os dois papeis principais e alguns coadjuvantes, e fazia questão que eu fosse para escolher quem os interpretariam. Fiquei tão empolgado com o poder de escolha, que, no dia anterior ao teste, sonhei que quem faria o Pierre seria o Selton Mello e a Marie seria a Paola Oliveira. Sonho bom! Sensacional! Mas apenas sonho… Baixa renda, Logan. Baixa renda.

Fomos até o local onde seriam os testes. Nesse dia conheci o Túlio, jovem de vinte e cinco anos que estava terminando a faculdade cinematográfica. Inteligente, criativo e esperto, com postura e jeito de se vestir bem “Steven Spielberg” rejuvenescido.

– É um prazer enorme conhecê-lo, senhor Logan. – diz Túlio, me surpreendendo com a formalidade.

– Que nada. Quem sou eu? – brinco cumprimentando-o.

– O senhor pode sentar aqui comigo pra conversarmos sobre os candidatos?

– Rapaz, eu tenho idade pra ser teu irmão… Vai mesmo ficar o tempo inteiro me chamando de Senhor?

– Não, Se…

– Logan.

– Tudo bem. Me perdoe.

Sentamos na segunda fileira, bem no centro, enquanto Helder sentou lá nos fundos com Ivone, Patrícia e Dominique. Cada candidato tinha dez minutos para fazer apresentação de sua escolha e sobre qualquer tema. Ficamos de oito às doze horas, quando demos pausa para o almoço e debater sobre os primeiros candidatos. Continuamos de treze às dezessete horas, pausa para o lanche e debater sobre a segunda parte. E depois, de dezoito até às vinte e duas horas.

Como não entendo nada, só ouvia e meneava a cabeça com os comentários que Túlio fazia sobre cada um que se apresentava. Eu, por falta de experiência, não estava ali para analisar técnica, abordagem, drama… Sei lá o que se analisa nessas horas. Honestamente, fiquei procurando candidatos que tivessem o estereótipo do Selton Mello e da Paola Oliveira. Consegui dois genéricos razoáveis. Túlio até disse que, por ele, não teria escolhido os dois, mas como os personagens eram meus, ele seria o último a discordar.

Terminei o roteiro na última semana de maio, quando o Valério (filho do Helder) nasceu. Nada contra o nome, mas, até essa criança se tornar homem, vai ser muito estranho ouvir: “Valério, quer doce?”, “Valério! Já para dentro, guri!” ou “Tio, o Valério pode brincar?”. Pior ainda seria começarem a chamá-lo de “Valerinho”. Imagina mais além, a menina chegando a casa e a mãe pergunta onde estava. Ela responde: “Na casa do Valério, mãe”. Estranho. Muito estranho. Será difícil me acostumar. E essa mãe vai pensar que a filha estava na casa de algum velho pedófilo. Certeza! Coitado do meu afilhado. Mas hoje em dia tem esse lance de leis contra bullying, não é? Que é deveras engraçado, pelo menos para mim. Na minha época era só bando de idiota querendo me pôr para baixo por eu ser mais forte e bonito… Como dizia minha mãe. Quando era violência, também não era bullying, era violência mesmo. Isso meu pai resolvia com os pais. E não vou explicar como, não quero incentivar a nenhum pai ou algum filho, mas meu pai resolvia. Do seu jeito, mas resolvia.

Voltando ao assunto que realmente interessa. Como não temos religião, fui padrinho por consideração e a irmã de Ivone, madrinha. Nada de batizado ou papéis para assinar. Na mesma semana entreguei o roteiro ao Túlio e as gravações foram marcadas para a primeira semana de julho. Seria daqueles filmes que algumas cenas ocorrem narradas pelo personagem principal. Amo filmes assim. Amo livros assim!

Dominique tirou férias em junho e aproveitamos o mês para viajarmos. Queria levá-la até Osório, para que revesse os pais e resolvesse os problemas que deixou para trás, mas não gostou da ideia e reprovou de forma que parecia o fim do mundo. Fomos passar duas semanas em pousada na belíssima Angra dos Reis. Foi maravilhoso! Tiramos várias fotos em diversas poses, juntos e das paisagens, e fizemos planos para futuramente tirar um ano de férias e passar um dia em cada ilha. Loucura não? Loucura também foi essa viagem… Magnífica! Acordávamos todo dia por volta das onze horas, fazíamos amor, almoçávamos e voltávamos para o quarto. Assistíamos a um filme para descansar o almoço, fazíamos sexo e saíamos para conhecer algum ponto da cidade ou alguma praia. Sim, há diferença entre sexo e amor, e sei bem qual é qual. Assim que a noite surgia, ficávamos abraçados olhando o mar, fazendo juras de amor e brincadeiras de casais, se é que me entende, quando pintava a sorte de parar em algum ponto deserto da praia. Voltávamos por volta das onze para a pousada, jantávamos e íamos para o quarto. Colocávamos no canal pornográfico e brincávamos de imitar cenas. E isso rolava até altas horas da madrugada. Antes de dormir, fazíamos planos para o dia seguinte, trocávamos mais juras de amor e nos embalávamos em profundo sono. No dia seguinte, tudo de novo. Uma maravilha só. Amor e sexo já estavam mais do que feitos, quase perfeitos.

Voltamos de Angra no início da última semana do mês, cheios de fotos e histórias para contar sobre os lugares que conhecemos. Tive ideias para novo livro, mas resolvi guardá-las a fim de usá-las no futuro. Minha cabeça agora era toda para o filme. Só pensava em vê-lo pronto e rodando no telão de qualquer cinema. Resolvi tirar carteira de motorista. As aulas começariam em Julho, toda terça e quinta, de nove às onze horas. Comprei o antigo Cross Fox – que já havia dito anteriormente que sou apaixonado – do Helder, que agora andava em seu Citroën C4 Pallas GLX ‘zero bala’.

Julho deu-se início, assim como as gravações. Dominique não gostava de ir, preferia ficar em casa e esperar para vê-lo na telona. Patrícia adorava toda aquela novidade. Helder raramente aparecia por conta do filho, preferia ficar em casa paparicando-o e prestando assistência a Ivone. Eu ficava com a responsabilidade de vigiar e tomar conta de tudo, fazer seguir o fluxo em perfeitas condições, como ele mesmo disse.

Já deve estar pensando: “Já está tudo bonitinho, encaixadinho e parecendo final de livro… E estou vendo aqui que as páginas já estão acabando… O que mais falta acontecer? Cadê alguma tragédia? A vida não é esse mar de rosas”. Concordo plenamente! Nada fica bonito, encaixado e parecendo final de livro o tempo inteiro, não? Pois é, sempre haverá novo capítulo enquanto o personagem principal tiver fôlego para interpretar o seu papel. Somos todos nós, livros biográficos, com idades-capítulos, coadjuvantes entrando e saindo, sendo coadjuvantes dos capítulos alheios, até que deixemos de respirar no nosso último capítulo. E as rosas murcharam no meu mar em Agosto. Estávamos a sós na cama, quando repentinamente dou de cara com uma Dominique pensativa, me olhando, parecendo estar em outro mundo.

– O que houve?

– Nada. – pisca como quem saísse de um transe. Desvia os olhos e repete, aumentando a minha curiosidade: – Nada mesmo.

– Te conheço, bebê. Sei que tem alguma coisa rondando essa cabecinha. – beijo-lhe a testa.

Permaneceu em silêncio, desviou os olhos.

– Fala comigo. O que houve?

– Não sei se devo. – olha para o teto.

– Agora quero saber… Está me matando de curiosidade.

Voltou a me olhar em silêncio.

– Fala… Por favor. Quero saber.

– Eu…

Silêncio.

– Você…?

– Melhor não.

– Diz!

– Não sei se te amo. – e saiu como soco de direita bem encaixado.

Meu coração disparou de jeito que até então nunca havia sentido.

– Como assim? – sentia como se ele fosse pular pela boca a fora e esganá-la aos berros: – Que porra é essa, mulher? Está ficando maluca?

– Não sei explicar…

– Como não sabe? – respiração começa a ofegar cada vez mais. – Já disse várias vezes que me amava.

– Eu sei. – respira fundo. – Acho que não é amor… Deve ser paixão. – voltou a me olhar. – Não é mais como antes, Logan.

– Como? Não dá pra te entender, Dominique. – não precisava pôr a mão no peito para sentir o quanto pulsava a ponto de explodir a qualquer momento.

Silêncio.

Levantei furioso. Onde já se viu uma coisa dessas? Como alguém ama e deixa de amar assim do nada? Saí injuriado do quarto, com as mãos trêmulas peguei o maço e acendi cigarro, parando de frente para a janela da sala. Veio atrás. Senti aquele calafrio na nuca de quando notamos que alguém se aproxima. Lentamente foi deslizando as mãos pelas minhas costas, sem dizer nada. Como eu queria ouvir: “Desculpa, acho que falei besteira. Foi da boca para fora, sem pensar” ou algo do tipo. Mas não dizia nem um A, e aquilo me deixava ainda mais puto.

– Você tem outro? – perguntei friamente, ainda de costas.

– Não! Está louco?

– Se alguém está maluco nessa porra aqui, esse alguém é você, Dominique. – esbravejo. – Como alguém deixa de amar sem motivo? Como um amor some assim do nada?

– Não foi do nada…

– Como foi então? Me explica. Desenha!

– Desde quando nós nos reencontramos, não tinha certeza do que eu sentia.

– Mas você disse que me amava! – nessa parte eu já procurava minha cabeça.

– Eu sei… Acho que me enganei, Logan… Acho que é só paixão mesmo.

– Acha. Acha. Acha. Só fica no acha, porra? Tem que ter certeza, mulher! Mas que inferno! – e os vizinhos, com certeza, já conseguem me ouvir.

Se afasta e encosta as costas na parede ao meu lado, pousando o peso do corpo.

– Desculpa. – voz triste, arrependida. – É por isso que não queria dizer nada. Sabia que iria ficar revoltado.

– Quem não ficaria? Isso não se faz com nenhum ser humano, Dominique. – e as lágrimas brotam, não dava para controlar. – Como pôde me enganar assim?

– Não era a minha intenção… Pensava que meu amor tinha esfriado por conta do que aconteceu e que se reacenderia. – me abraçou forte, senti suas lágrimas caindo em minhas costas. – Gosto muito de você e quero ficar contigo… Mas não é amor, Logan, só isso.

Passei a mão livre no rosto, pressionando os dedos nas laterais da testa. Como era difícil ouvir aquilo. As palavras entravam como facas enferrujadas no meu ouvido e iam direto para o coração, como agulhas pontiagudas. Não podia perder a cabeça, explodir e sair pondo para fora, como geralmente faço quando estou nervoso. De novo não. Já estava quase saindo pela boca: “Sente falta de quando era puta! Me amava quando eu era só um brinquedo sexual que encontrava vez ou outra te procurando igual um babaca”. Conseguia segurar e lutava para ver só como: “Não me ama mais, só isso… Só isso… Como ela mesma disse: só isso… Quer ficar comigo, isso que importa… Só isso”. Mas era difícil digerir a ideia. Já passou por isso, ou por essa porra de “só isso”? Imagina a cena, mesmo se não.

– Logan, me perdoa. Eu quero ficar contigo, só não queria continuar mentindo… Gosto muito de você… De verdade! – suspiro carregado. – É sério! Quero mesmo continuar contigo. Você me faz bem… É romântico, gentil, educado… Fora o fato de que mudou radicalmente a minha vida pra melhor.

– E se seu amor continuar diminuindo? – não conseguia encará-la de jeito algum. – Seria justo com o meu que só se engrandece? Seria, Dominique? O que devo fazer? O que você faria no meu lugar?

Silêncio. Continuo:

– Pra amanhã ou depois terminar comigo alegando não sentir mais nada, enquanto posso correr o risco de estar completamente perdido de amores por você? É injusto! Muito injusto! – dei um soco na parede, que até deixou minha mão dormente de tanta dor, nada comparada à que sentiria quando o sangue esfriasse. – Não tem por que você continuar comigo com um coração em regressão.

Joguei o cigarro pela janela, passei as mãos no rosto e respirei fundo. Tentava me acalmar o mais depressa possível.

Depois de muitos minutos em silêncio:

– Tudo bem. – virei-me de frente e segurei em seus ombros. – Quer continuar comigo?

Assentiu com a cabeça. Sua face parecia cachoeira de tanto que chorava.

– Tem certeza?

– Absoluta! – sua voz falhava.

– Então dá pra esse amor voltar com o tempo. – tentei sorrir, mas foi difícil contraí-lo.

Assentiu mais uma vez e me abraçou forte.

– Agora entendo por que certa vez uma garota na escola falou que nem sempre o amor é o suficiente. Cresci pensando que era uma tremenda materialista… Mas… Acho que agora faz sentido.  – beijei-lhe a testa. – E Hebert Vianna me ensinou que: saber amar é saber deixar alguém te amar…

Voltamos à cama e fizemos o amor mais amargo e frio que já fiz/fizemos. Não conseguia sentir a excitação de sempre. O beijo parecia seco e sem sal. Não sentia vontade de tocá-la. Acho que só não brochei por que meu órgão sexual às vezes parece ter vida própria, e é um tremendo tarado que nunca nega fogo. Assim como, também, foi o sexo mais rápido que já fizemos.

Foi tenso! Trágico! Até hoje não sei se fiz tempestade em copo d’água ou se outro, em meu lugar, a mandaria para o raio que a parta com toda aquela frieza e insensibilidade. Ou… Ou… Sei lá… Realmente não sei. É difícil dizer. O que você faria no meu lugar? Conseguiu criar a cena? Não entro em muitos detalhes, para lhe dar o livre-arbítrio de imaginar como quiser. O que sei é que sou completamente a favor de qualquer tipo de sinceridade, até essas que fazem doer à alma, então, conforme os dias foram passando fui lutando, e aos poucos conseguindo esquecer aquele dia fatídico de quando descobri que o meu amor não me ama. Como se fosse bem simples, resolvi ter paciência para que com um tempo, pudesse ouvir o “Eu te amo” sincero…


15 – Déjà Vu


Como Helder havia previsto, as gravações terminaram em meados de dezembro. Estávamos ansiosos e otimistas para ver Pierre & Marie na telona de cinema. O livro terminou o ano em primeiro lugar nos mais vendidos da Editora, o que motivou para já começar a pensar no próximo. Mas sobre o que falaria agora? Falar de amor novamente, não teria graça. Fui ficando cada vez mais preocupado, conforme começava a escrever algo e do nada perdia toda a excitação. Pensei em vários temas: policial, investigação, drama, fantasia, terror, ficção-científica… Acho que pensei em todos os gêneros e subgêneros. Nada parecia legal quando terminava o primeiro capítulo. Joguei uns vinte ‘primeiro capítulo’ fora.

Em Maio, Pierre & Marie estava pronto e com data marcada. Na pré-estreia, em um dos melhores cinemas da Zona Sul, fiquei fascinado ao ver que além da equipe do filme, foram alguns atores, diretores, críticos e escritores famosos, prestigiarem. Será que leram o livro? Não importa, pelo menos veriam. Na primeira fileira estávamos eu, Dominique, Patrícia, Helder, Ivone, Túlio, Alberto (que fez Pierre), Cecília (que fez Marie) e outras pessoas que eu desconhecia, representantes dos patrocinadores. Vez ou outra olhava para trás, curioso, a fim de dar conferida nos famosos que já haviam chegado e os que chegavam aos poucos, até que as luzes apagaram e meu coração disparou. É agora! Chegou a hora!

O filme começou. Enquanto assistia, não conseguia parar de pensar na vida. Como as coisas mudam conforme vamos saindo da infância, pré-adolescência, adolescência… Será que mudaria ainda mais quando me tornasse idoso? Caso eu chegue lá, no caso. Não vou dizer que sou otimista quanto a isso, pois, afinal, sou tabagista há anos. Quando criança, queria ser, além de grande, ator de Hollywood, depois de desistir da ideia de ser Super-Herói cheio de poderes inimagináveis como o Wolverine. Conforme fui chegando à pré-adolescência, os planos foram mudando: queria crescer só um pouco mais e ser como meu pai; e ter bom emprego, desde jovem, para poder crescer dentro da empresa. Na adolescência, depois do acidente, no começo ficava agradado com os planos que tia Geralda fazia para mim: curso de inglês, francês, espanhol e começar a me preparar psicologicamente para fazer faculdade de direito, a fim de me tornar advogado internacionalmente conhecido ou delegado, juiz… Se hoje falo três línguas a mais, os méritos são todos de tia Geralda. Por mim ficava só no francês. Nunca imaginaria que, a forma que encontrei para desabafar, alguém me convenceria a transformar em livro. Difícil de imaginar, também, que me faria perceber que ser escritor, era o que sempre quis, só não sabia. E na época não dava para imaginar que um de meus livros faria sucesso… Muito menos que viraria filme. Olha onde estou agora.

Tudo de bom que tenho na vida foi por ventura. Nada bem bolado ou planejado, as coisas foram sempre chegando, se acomodando e acontecendo, às vezes até, sem pedir licença. Reconheço que boa parte não aconteceria se Helder não tivesse aparecido em minha vida. Minto! Nada disso aconteceria se tia Geralda não me acolhesse em sua casa, pois foi assim que acabei parando na mesma rua que o Helder, e, por ventura, o conheci. Se não tivesse conhecido Dominique, não teria escrito Pierre & Marie. Assim como, se não tivesse conhecido Patrícia, talvez tivesse nojo do que escrevi e Dominique não estaria de volta. Céus! Parece que o destino, no fim das contas, é um cara bem legal, não? Realmente como Patrícia disse uma vez: sou um cara de sorte.

Já chegando ao fim do filme, chorava litros d’água com o personagem narrando o final, fazendo o desfecho falando de como Marie, independente do que fazia ou deixava de fazer, tinha mudado sua vida de forma maravilhosa e que nenhuma outra mulher tinha conseguido mostrar-lhe o que é um sentimento tão intenso. A cena dos dois se reencontrando naquela ponte também me matou. E para piorar, quando ele termina de falar e os dois param de frente, olho no olho, Pierre sorri e começa a tocar no fundo a música She do Elvis Costello… Só de lembrar, me arrepio. Sem sombra de dúvidas, assim como Stop Crying Your Heart Out é o tema da minha vida, She foi feita anos atrás para que eu pudesse declará-la a Dominique.

Quase enfartei quando os créditos finais subiram e todo o público aplaudiu de pé. Toda a equipe se dedicou e fez ótimo trabalho, estava estupendo. Vieram nos cumprimentar e parabenizar pela “produção boa e barata”, como dizia Helder. Sabe o que é agir feito idiota dizendo “Sou seu fã” para os seus ídolos se aproximando para parabenizá-lo pelo seu trabalho e não você pelo dele? Era eu naquela sala. Queria que o Selton Mello estivesse lá para poder fazer amizade e jogar verdes do tipo: “Quem sabe se rolar futuramente outro filme de algum livro meu você não faz o papel principal? Acho que iria ficar bem bacana. O que você acha, amigão?”. É querer abusar de mais da sorte, não? Falando em sorte, filme, livro… Será que, agora, Alessandra iria ver o filme e lembrar-se daquele escritor que conheceu na praia? Duvido.

Fomos para casa de Helder, comemorar. Rolou Champanhe, Black Label, cervejas e aperitivos. Toda a equipe estava presente e foi uma festa e tanto! Certa hora da madrugada, já quase bêbado, Helder me puxa no canto da sala:

– Cara… – laçou meu pescoço com o braço direito. – Quero muito agradecer por ser essa pessoa tão especial na minha vida.

– Não fala isso. – o lacei pelo tronco com o braço esquerdo. – Sabe que só sou o que sou graças a você, meu mestre! – bati de leve em seu peito com a mão direita.

– Nem tanto! Só o que fiz foi te dar suporte naquilo que era bom e no que precisava! Não escrevi seus livros… – enumerava nos dedos sem soltar meu pescoço. – Não fiz aquela jogada de mestre na entrevista… Não adaptei seu livro para o filme. Só o que fiz foi te mostrar alguns caminhos das pedras, facilitar um pouco aqui e ali, gastar umas verdinhas em divulgações… Enfim… Minha parte foi só investimento, e de certa forma, experiência. É um cara inteligente além do normal e que admiro em demasias… – esticou o braço para os lados como se estivesse medindo algo. – Fico lisonjeado em ter você como grande amigo… Como irmão! – laçou meu pescoço novamente. – Por saber que posso contar contigo em qualquer hora da minha vida, e se um dia acontecer alguma coisa comigo e com Ivone, meu filho vai ter alguém incrível para educá-lo!

Poderia ser o cara mais famoso do mundo: Buda, Moisés, Iemanjá, ou sei lá quem, dizendo aquilo, mas ouvir daquele ali, era sem sombra de dúvidas melhor, sem comparação. Sempre o idolatrei pelos seus ideais, as ideias, o grande coração, o bom faro, caráter, fidelidade, amizade e etc. Tinha até medo de descobrir que minha vida toda foi dando prejuízo financeiro, ou que, no fundo, os méritos sempre seriam todos dele. Não mudou muito… Continuo pensando dessa forma, mas foi magnífico ouvir aquelas palavras saindo de sua boca, por mais que estivesse bêbado. Helder nunca foi o tipo de pessoa que fala besteira quando bebe, era completamente o contrário. Certo dia me disse: “Quando bebo, digo coisas que não saberia dizer sóbrio. Sempre faço uma jura de amor fantástica para Ivone, quando estou bêbado. É surreal!”. Quem sou eu para duvidar?

– Não seria nada sem você. – insisto. – Se não tivesse feito tudo que fez por mim, talvez hoje, poderia ser um advogado fracassado ou não tão feliz quanto sou hoje, como escritor.

– Tá bom. Vamos parar com isso, nossos ovos já estão muito babados. – solta uma gargalhada alta. – Somos dois caras de sorte! Certo?

– Concordo plenamente, meu caro amigo-irmão!

– E antes que eu esqueça, quero que comece logo outro livro, pois vou querer outro filme. O próximo vai ser maior e fará sucesso recorde! Ouviu?

– Se eu te falar que ando tendo dificuldades com o novo livro, acredita? Há  meses não consigo sair do primeiro capítulo.

– Quer uma ideia?

– Sim! Sua, é sempre bem-vinda.

Ignorando completamente todos os convidados, ficamos sentados na escada para o segundo andar, conversando sobre a ideia brilhante que teve. Fiquei tão empolgado que nem esperei a festa acabar. Peguei Dominique e Patrícia, entramos no carro e saímos rumo a casa. Assim que deixamos o estacionamento:

– O que houve? – pergunta Dominique desconfiada.

– Helder deu uma ideia para o novo livro e quero aproveitar que estou inspirado. Se duvidar, termino ainda hoje. – otimista, inocente.

– A festa estava tão boa… – lamenta.

– Quero começar logo antes que a inspiração vá embora. – olhei-a. – Você sabe que já estou há meses tentando começar um novo e não consigo sair do primeiro capítulo. – voltei minha atenção para a estrada. – Agora vai acontecer.

– Se está dizendo…

Começa a pingar. Só assim fui reparar o quanto o céu estava negro.

– Era só o que faltava. – digo depois de bufada carregada, ligando o para-brisa. – Tinha mesmo que chover?

– Nem estava com cara de que iria chover. – comenta Patrícia, sentada atrás do meu banco, olhando o céu pela janela.

– Gosto de chuva. – assume Dominique.

– Eu também. Adoro chuva e frio. Mas odeio os dois quando estou dirigindo.

A chuva começou a apertar.

– Não é melhor voltarmos e esperar essa chuva cessar? – diz Patrícia.

– Preciso chegar o mais rápido possível para começar a pôr a ideia no papel. A inspiração pode ir embora e continuarei preso em mais um primeiro capítulo. O que não vai ser nada bom.

– Logan, vai mais devagar ou vamos voltar. – sugere Dominique.

– Estou devagar.

– Aqui, coloca o cinto. – diz Patrícia no meio do banco de trás, puxando o cinto que Dominique já deveria estar usando.

– Pra quê essa pressa? – diz Dominique irritada, encaixando o cinto de segurança.

– Já disse. Para chegar logo em casa, cacete! – olhei-a furioso pela insistência. – Pare de desviar minha atenção. – voltei os olhos para a rua.

– Olha para frente!

– Estou olhando. Porra, Dominique, já está enchendo o meu saco! Que merda!

– Calma gente. – diz Patrícia assustada tentando diminuir o peso do ambiente que estávamos criando.

– Quer fazer a mesma burrada que seu pai? – Dominique grita furiosa.

Preciso dizer? Deixei bem como aconteceu sem me importar que ficasse escrachado o que viria a seguir. Nesse momento, foi como receber choque. Tudo a minha frente sumiu, não via nada. Meu coração disparou, as lembranças do acidente voltaram perfeitamente em minha cabeça e não ouvi os gritos: “Presta atenção na rua, Logan” de Patrícia e Dominique. É, meu caro… Quando voltei para a realidade, com a pancada que Dominique deu no meu braço, só deu tempo de ver a luz de cegar se aproximando da lateral direita do carro. Tudo apagou.

Acordei pela manhã em uma cama de hospital. Parecia que tinha voltado aos meus treze anos. Sem mover nenhuma parte do corpo, meus olhos percorreram todo o local, e quando dei por mim, estava entrando em desespero, me debatendo a fim de me desprender aquela fiação toda espalhada pelo meu corpo. Quando a enfermeira surgiu para tentar me acalmar, só gritava: “Quero ver meus pais”. Veio correndo até a cama e me dopou. Conforme tudo escurecia, minha mente, outra vez, foi reconstituindo a cena do acidente, mas o que sofri com meus pais. Parecia um pesadelo sem fim. À noite abri os olhos e ao ver Helder sentado na cadeira, já me senti mais seguro. Não sei se por não ser tia Geralda ou por me garantir que realmente foi um pesadelo.

– Helder. – digo, mas ele cochilava. – Helder! – gritei com dificuldades.

– Logan. – diz com os olhos arregalados. – Você acordou. – suspira aliviado.

– O que houve? O que estou fazendo aqui?

– Não se lembra?

– Como assim?

– Do acidente.

– Sim, mas foi há anos. Como sabe que estava tendo pesadelo com a morte de meus pais?

Ficou em silêncio. Sua expressão começou a me assustar.

– O que houve? Que cara é essa?

– Rapaz… – passou as mãos no rosto. – Não lembra que estava lá em casa?

Fiquei pensativo. A única lembrança recente era aquele pesadelo.

– O que fui fazer na sua casa? – perguntei desconfiado.

– Depois que o filme estreou… – dizia devagar como se fosse difícil explicar. – Fomos todos comemorar na minha casa… Lembra?

 As lembranças foram voltando em flashes.

– Sim. Deu-me uma ideia… – fiquei pensativo. – Que não recordo agora, mas era sobre o novo livro…

– E foi embora cheio de pressa, querendo chegar a casa logo pra pôr em prática.

Aos poucos, conforme Helder foi narrando, fui lembrando. Entrei em desespero.

– Cadê Dominique? Cadê Patrícia? – e me debatia na cama. – Helder, me tira daqui, cara. Me leva até elas, por favor.

Sem saber o que fazer, começou a chamar pela enfermeira.

– Não, cara! Não chama! Ela vai me dopar, cacete! Não faz isso, porra. Está maluco?

Quando vi a enfermeira entrando na sala, meu desespero só aumentou.

– Não! Não me dopa! – gritava. – Não faz isso comigo, Helder! Você é meu irmão. Não me trai agora. Não deixa… – minha voz foi ficando cada vez mais serena. – Ela fazer… Isso… Co…migo – apaguei.

Acordei na tarde do dia seguinte. Olhei ao redor e lá estava Helder sentado na cadeira, me olhando com olheiras profundas:

– Como está se sentindo? – perguntou bocejando e se espreguiçando.

– Helder… – respirei fundo. – Nunca mentimos um para o outro… Não é verdade?

Assentiu com a cabeça.

– Espero que diga a verdade agora… – o olhei nos olhos. – Elas estão bem, não estão?

– Estão!

Suspirei aliviado:

– Alguma delas já acordou? Aconteceu alguma coisa grave? Me conta tudo…

– As duas ainda dormem profundamente. – desviou o olhar para o chão. – Nada grave.

– Quem está com elas?

– Eu e a Ivone estamos revezando os quartos.

– Vai lá dar uma olhada pra mim… Às vezes alguma delas já acordou… Sei lá. Por favor!

– Tudo bem. – levantou-se. – Já volto, fica tranquilo.

Assim que saiu do quarto, senti vontade de fumar e ter um canivete na mão para poder cortar todos aqueles fios. Fiquei neurótico quando lembrei que depois do primeiro acidente, precisei de acompanhamento psicológico para analisar quando estaria preparado para receber a notícia de que meus pais tinham falecido. Se algum psicólogo todo simpático entrasse naquele quarto, já poderia temer pelo pior. O médico entra:

– Como está se sentindo?

– Precisando urgentemente de um cigarro.

– Sinto muito, não poderá fumar enquanto estiver nas dependências do hospital.

– Já estou bem… Não posso dar uma saída só pra fumar um cigarro e voltar? Não preciso ficar preso nessa cama o dia todo.

– É para o seu bem, e espero que seja sincero. – foi se aproximando. – Tocarei algumas partes de seu corpo e irá dizer onde dói ou não.

Permaneci em silêncio o encarando.

– Dói? – foi tateando meu pé esquerdo e subindo lentamente até a coxa.

– Nada.

– E aqui? – na outra perna.

– Nada.

Foi repetindo o procedimento por todas as partes do meu corpo. Nada doía. De verdade.

– Tem certeza?

– Absoluta! Por que iria mentir?

– Mesmo assim, terá que ficar um tempo de repouso.

– Sim. Doutor… Não é a primeira vez que sofro acidente. Sei que rola acompanhamento psicológico antes de dar alguma notícia péssima. – olhei para o teto, tendo imagens perfeitas de Patrícia e Dominique rindo e dançando juntas na festa. – As duas mulheres que estavam comigo no carro… Diz a verdade… Já estou preparado para o pior.

– Que pior?

– Ah, Doutor. Não sou idiota… – o encarei, com vontade de voar em seu pescoço. – A luz veio da direita! Por isso estou ileso! No mínimo, alguma coisa grave aconteceu com Dominique, que estava no carona… Sejamos francos. Só quero saber se ela aguentou… Como ela está…

Seu silêncio não confortava.

– Ela morreu, não foi?

– Não sei. Sou seu médico e não delas.

– Para com essa palhaçada! Deixe de ser hipócrita! – meus nervos afloraram. – Trabalha nessa bosta ou não? Como não sabe? Incompetente!

– Não sabendo… E se acalme.

– Essa tempestade toda que estão fazendo só vai piorar minha situação. Preciso saber… Não aguento ficar nessa dúvida. – comecei a chorar como criança fazendo pirraça para ganhar o brinquedo tão esperado. – Por favor… Tire-me daqui. Quero vê-las. Já estou melhor, Doutor. Não me torture! Por favor!

– Sinto muito.

Fui dopado novamente. Acordei de madrugada. Olhei direto para a cadeira e lá estava Helder dormindo.

– Helder! – gritei.

Acordou assustado.

– Vai lá… Manda aquela maldita enfermeira escrota que só sabe dopar os outros, vir fazer a porra do trabalho dela. Não aguento mais… Toda hora essa mesma merda! E pede pra pôr uma dose que eu fique dopado durante uns trinta anos, por que enquanto não me tirarem dessa porra aqui, vou causar o inferno nesse caralho! Já é?

– Está muito nervoso, precisa ser mais paciente, amigão.

– Amigão? Amigão de gato é o rato, pra não dizer outra coisa. Ninguém me diz a porra da verdade! Nem você que se diz meu irmão, meu melhor amigo! – perdendo a noção.

– Tem de se que acalmar, Logan. Se continuar agindo assim, vai continuar não sabendo de nada!

– Sabia!

– O quê?

– Aconteceu alguma coisa!

– Não! Quem disse? – dava para perceber que não gaguejava por pouco.

– Se não tivesse acontecido, não diria que vou continuar não sabendo de nada.

Helder nunca foi bom ator e nem Ivone o conhecia tão bem quanto eu.

– Te conheço, cara. Sabe que não vai conseguir esconder de mim. – insisti, sabia que já estava quase lhe tirando a verdade.

– Não faz isso comigo. – baixou a cabeça.

– Que deu merda, já sei. De que vai adiantar trazer psicólogo e ficar adiando?

Depois de um silêncio:

– A Patrícia está bem, mas ainda não acordou.

– Sei que Patrícia está bem, estava atrás de mim no carro.

– Como assim?

– Helder! – respirei fundo tentando manter a calma. – A luz do que nos acertou… Avião, disco voador, ou seja lá o que foi… Veio da direita, compreende? Dominique estava no carona. O impacto não foi nada leve, tenho certeza absoluta! Por que ficar adiando a minha tortura? Fala a verdade… Preciso ouvir da sua boca.

– Dominique… – mergulho a cabeça nas mãos. – Morreu! – e começou a chorar.


16 – Terapia


Pobre Helder, os médicos ficaram revoltados por ter me contado a verdade e, por conta disto, ele precisou de acompanhamento psicológico enquanto eu entrava no mais belo labirinto de lembranças e culpa. Psicólogo nenhum me confortaria. Não teria como me preparar para receber aquela notícia. A culpa era toda minha. Por ventura, cometi o mesmo erro que meu pai e matei a mulher que amo. Preferia ter ido junto, assim como ele. Porém, não deixaria em terra um filho para reviver por anos aquele pesadelo, e fazer remake do filme.

Recebi alta no dia seguinte e fiz questão de ficar no quarto que Patrícia estava. Não podia mostrar a ninguém o quanto estava morrendo por dentro, tinha que fingir estar sabendo lidar com aquele trauma. Não aceitaria de jeito nenhum passar por acompanhamento psicológico. Por puro livre arbítrio quis ficar com a culpa, os traumas e tudo que tivesse direito. Seria a minha sentença! Tinha que ser forte até que Patrícia acordasse e pudéssemos ir embora. Infelizmente a vida teria que continuar. Só não tinha ideia que aquela dor por dentro iria se intensificar cada vez mais, dia após dia.

Quando Ivone apareceu, decidi ir para casa e voltar no dia seguinte. Estava precisando de tempo para ficar sozinho comigo mesmo, perto de boa quantidade de álcool, tabaco, e, talvez, um trinta e oito para estourar os miolos e perder a razão de vez. Peguei dinheiro emprestado com ela e fui de táxi para casa. Assim que abri a porta, fui relembrando nossos momentos. Desabei no chão aos prantos. Ivone deve ter ligado para Helder e avisou que o assassino estava indo para casa, pois do nada surgiu atrás de mim tentando me erguer. Insisti em permanecer, mas me levantou na marra.

– Precisa ser forte! – me abraçou. – Estou aqui contigo.

– A vida perdeu o sentido. – digo com dificuldades.

– Não perdeu. Temos que ser fortes por ela e pela Patrícia.

– Como a minha vida vai continuar sem ela, Helder? Me diz!

Fechou a porta. A sala estava iluminada apenas pela luz da lua entrando sem pedir licença pelas frestas da janela.

– Não sei! Mas tem de ser assim!

– Não pode!

– Pare de se martirizar! – segurou em meus ombros e me sacudiu três vezes.

– Preciso beber! – me desprendi de suas mãos e fui cambaleando até o minibar. – Pega os copos.

Enquanto Helder foi à cozinha, peguei duas garrafas de Jack e sentei no chão perto da janela. Abri as duas e comecei a beber no gargalo feito água e como se estivesse sedento. Helder voltou com dois copos e sentou ao meu lado. Colocou um deles no chão, tirou uma garrafa da minha mão e encheu o que tinha ficado em sua posse. Peguei o outro e enchi, deixando o gargalo de lado. Nenhum de nós dizia nada. Qualquer coisa que se diga nessas horas, não é o certo. E as frases feitas que utilizamos involuntariamente, por pleno costume e o não saber o que dizer, só fazem correr o risco de piorar mais a situação. A vida segue, tem que continuar? Isso é óbvio. Então, por que essa maldita frase sempre sai nessas ocasiões? Iria querer que levantasse a cabeça e desse a volta por cima? Ela me amava, sempre iria querer o meu melhor. Não sabe o que faria no meu lugar? Não consegue imaginar como estou me sentindo? Está em lugar melhor agora? Ah, quer saber? Vai pra puta que lhe pariu, filho(a) da puta!

– Helder… – olhava para a minha sombra no chão ao meu lado. – Por que eu não fui junto?

– Não fala isso, cara. Parte o meu coração.

– Deveria ter morrido… Não ela. Não era nem pra Patrícia estar em coma. – olhei para o sofá. – Por que fui o único ileso?

– Não contesta essas coisas. São as leis da vida…

– Que lei da vida? – olhei-o. – Desde quando acreditamos nisso?

– Nessas horas é bom acreditar… Em alguma coisa. – respirou fundo, desviou os olhos para a televisão desligada. – Onde quer que ela esteja não deve estar gostando nada em nos ver desse jeito. – olhou-me, olheiras mais profundas que a última vez que o vi. Sofria tanto quanto eu. – Ninguém lhe culpa nem vai culpar pelo o que aconteceu.

– Como saberemos?

– Com certeza iria querer que estivesse bem…

– Como vou ficar bem sem ela?

– Vai ter que ficar… Por ela… Por você, tam…

Interrompo:

– Nunca te vi mais idiota do jeito que está sendo agora!

Não aguentei. Helder me abraçou e ficamos horas em silêncio enquanto eu só sabia chorar e soluçar de forma que até dificultava a respiração. Queria que aquele copo de uísque fosse um oceano de álcool, para que pudesse mergulhar ao fundo e permanecesse até que entrasse no ápice de um coma. Sabia que de gole em gole poderia não ser tão eficiente do jeito que gostaria que fosse naquela hora. No escuro daquela sala, nada conseguia distrair aquele forte aperto no peito. Era como se tivessem colocado meu coração entre as palmas das mãos, pressionando bem forte para esmagá-lo, e ele se debatia desesperadamente tentando sair, respirar, fugir. Meu sangue percorria todo o corpo velozmente e tão intenso, como as ondas do mar em dias que a maré sobe e faz estrago nas cidades próximas… O tão famoso “fenômeno natural”, porém, sem o vai-e-vem, só o intenso vai-e-vai. Mais difícil mesmo era desligar aqueles pensamentos de culpa, que com o tempo só intensificavam minha dor e tristeza. Fui entrando naquele labirinto, sem saber para onde ir ou o que fazer. Enquanto isso, o copo estava sempre cheio, enquanto a garrafa esvaziava aos poucos… Esvaziando… Esvaziando… Esvaziando como eu sem o líquido: Dominique. No momento em que a mente resolveu dar momentâneo alívio, cheguei à conclusão de que o melhor amigo do homem é o uísque, e não o cachorro… Ou pode ser só dos alcoólatras, dependendo do ponto de vista. Não tem importância alguma debater sobre isso. De repente me encontro rodeado de palavras, exclamações, interrogações, vírgulas e frases, que eu queria encontrar lugar ideal para o ponto final. Nada de vírgulas ou reticências, mas aceito um etecetera provisório… Sem reticências!

Começa a turbulência de emoções, com os pensamentos no replay e aquelas mãos invisíveis pressionando forte o coração. O rosto se transforma em cachoeira, não como as belas cachoeiras de Santo Aleixo, mas sim em rosto detonado pela tristeza. Agarro forte o cabelo como se cada fio fosse um daqueles pensamentos que tanto me torturavam, e como se pudesse tirá-los da cabeça, em tufos. Não adianta! Era a festa das minhas maiores fraquezas… E parecia que não queriam ir embora de jeito algum. Os principais convidados estavam presentes: insegurança, medo, saudade, dor, culpa, insônia, depressão, tabaco, álcool… Cabem mais coisas. Só faltava arrumar o trinta e oito para estourar os miolos. Queria coragem para ir atrás. Covarde! Fraco!

Não dava para procurar forma de aceitar e perceber que sou humano, e todo ser que é humano, erra. Somos todos suscetíveis ao erro, a erros, diariamente, frequentemente… Queria que Dominique estivesse ali para ajudar a mandar todos os convidados embora. Tudo poderia não passar de brincadeira de mal gosto ou acontecer algo especial, miraculoso, que a fizesse voltar, ressuscitar. Mas não era daqueles livros com final feliz e outras facetas extraordinárias que nunca vemos na vida real, pessoas de verdade. Dominique não fazia o perfil de quem faria a versão feminina do Patrick Swayze em Ghost.Não mesmo.

– É estranho ser o culpado pela morte de quem você ama…

– A culpa não foi sua. De nada vai valer esse lamento. O que temos que fazer agora é seguir em frente, já disse.

Shiu. Fica quieto… Deixa pôr para fora…

– Desculpa.

Silêncio. Reorganizo os pensamentos.

– Será que meu pai morreu com esse sentimento? – paro para refletir, tentar me pôr no lugar. – Acho que não deu tempo dele fazer ideia que minha mãe iria morrer junto. E não imaginava que fosse morrer. Não imaginava nada. – funguei o nariz esfregando-o com força. – Como vou continuar minha vida, acordando todo dia sabendo que matei minha amada? Como vou acordar, sabendo que Dominique não vai estar ali ao meu lado? Como vou deitar, sabendo que ela não vai deitar comigo? Como vou viver sem minha Deusa? Como vou jogar o jogo da vida sem minha Dama de Copas? Não dá pra imaginar. Estou jogado… Jogando Buraco. Não! Minto! Joguei Copas Fora. Ah, sei lá! Foda-se o jogo!

– Deve procurar um psicólogo pra te ajudar a lidar com isso. Não fique lutando consigo mesmo, não tem como ganhar… Só perder.

– Até que enfim você falou algo com sentido. Já estava começando a não reconhecê-lo mais.

Quando as duas garrafas acabaram:

– Vou deitar. – levanto com dificuldades. – Amanhã vou procurar um bom psicólogo. – baguncei o cabelo, estava desnorteado. – Ou tomar coragem pra conseguir um trinta e oito. – penso.

– Vou ficar por aqui pro caso de você precisar de alguma coisa. Posso dormir no sofá?

– Me consiga um trinta e oito. – digo em voz baixa.

– O que disse?

– Pega o lençol e o travesseiro da Patrícia ou dorme lá no quarto dela. Tanto faz.

– Tudo bem. Mas o que você disse que não entendi.

– Pareço ter trinta e oito.

Desconfiado fica me olhando, não dou brecha e me afasto.

Praticamente me arrastando, cheguei ao portal do quarto. Abri a porta lentamente. Conforme minha visão do quarto ia se expandindo, o coração acelerava. Foram surgindo tremedeiras pelo corpo, suor frio, arrepio na nuca… Quando a porta se arreganhou toda, fiquei parado observando o quarto. Não consegui tomar coragem para entrar, principalmente conforme meus olhos avistavam seus pertences. Ao ver a Zebra sentada no meio da cama, antes que meu coração explodisse, fechei rapidamente a porta e bati com a testa nela. Inevitavelmente, fez-se cachoeira na face do monstro.

– Ficarei aqui na sala também. – digo a Helder, que voltava do quarto de Patrícia abraçado ao travesseiro e lençol mal enrolado.

– Quer ficar com esses? – me estende os dois.

– Não! Fique à vontade… Parece que não vou conseguir dormir agora.

– Sinto muito por não poder ficar acordado contigo. Estou mor… Cheio de sono. Passei dias dormindo de duas a três horas.

– Eu sei. – o abracei. – É um grande amigo. Fique tranquilo e durma em… Durma bem. – e fui até a cozinha.

Abri a geladeira e me deparei com sete long necks. Abri uma na camisa e voltei à sala. Sentei-me no canto escuro, acendi cigarro e os pensamentos voltaram automaticamente como se o riscar da pedra do isqueiro fosse um interruptor. Tick! Um filme iniciou em minha cabeça. A versão mais original de Pierre & Marie. No caso, Logan & Dominique, livro sem final feliz… Livro sem Dominique. E a falta da porra do trinta e oito que não sai da minha cabeça!

Passei a madrugada toda acordado entre tragos, lágrimas e vontade súbita de suicídio. Por volta das seis horas tomei banho, troquei a roupa e fui passear pelo quarteirão, tentar organizar os pensamentos, sentimentos. Comprei pão, outro maço, cinco long necks e voltei. Guardei quatro na geladeira e preparei um pão, que não consegui comer. Parei na frente da porta do quarto, tomando coragem para olhar novamente. Golada carregada na cerveja, a fim de ajudar na coragem, e comecei abrir a porta lentamente. Quando chega à metade, como estava claro por conta do sol, não resisto e fecho às pressas, desabando no chão. Helder levanta no susto:

– O que houve? – a respiração ofegante, como se tivesse acabado de acordar de pesadelo.

– Ela não vai voltar. Me tira daqui, por favor.

Direto para clínica psicológica. No meio do caminho, Ivone ligou informando que Patrícia havia acordado e o médico tinha pedido para não aparecermos por lá. Boa!

A notícia do acidente repercutiu em todos os jornais impressos e televisivos. Pouco me importava com relação à carreira, mas sim pelo fato de que as pessoas poderiam especular (e com razão) que eu tinha assassinado Dominique. Cadê o C.S.I. São Gonçalo para investigar e descobrir o que só eu descobri até agora: minha culpa na praça?

O primeiro dia no psicólogo não foi nada produtivo. A sessão inteira o Dr. Agnaldo tentando conversar comigo, puxar assunto, me fazer pôr para fora. Praticamente só falei: “Matei minha mulher e meu amigo me convenceu de que você poderia me ajudar com isso. Ainda tentei convencê-lo de que preciso mesmo é de um advogado e não de psicólogo. Mas, enfim, cá estamos. Como vai o Senhor?”. Me aconselhou aqueles grupos de terapia onde as pessoas falam de seus problemas e o ouvinte graduado (nem sei se realmente é) ajuda a lidar com aquilo. Guardei aquele cartão de visita no bolso e fiquei de começar a frequentar ainda naquela semana, mas só eu sabia que não iria. Pelo menos pretendia não ir, se não fosse por Helder dando uma de pai quando foi conversar com o Psicólogo antes de irmos embora. Meu novo pai falou tanto no meu ouvido que resolvi procurar o tal grupo de transição, só para acabar com aquele sermão. Me deixou na entrada do local onde ocorriam as reuniões e só foi embora depois que entrei.

Tirando eu e a terapeuta, havia mais cinco pessoas: Margarida, solteira, trinta e dois anos, estatura mediana, pele clara como a neve, cabelos ruivos escorridos até o ombro, franja na altura das sobrancelhas e a face estrelada de sardas; Douglas, divorciado, trinta e oito anos, negro, alto, magrelo e de cabeça raspada; Zaira, viúva, sessenta e sete anos, baixa, pele branca e cabelos curtos e grisalhos; Gustavo, solteiro, vinte e três anos, moreno, baixo, acima do peso, cabelos ondulados e longos até o meio das costas e barba mal feita; e Dafne, solteira, quarenta e sete anos, alta, siliconada e cabelos loiros encaracolados. O problema de cada um? Irá conferir mais abaixo.

Sento em uma das cadeiras que formam a roda onde os outros estão sentados de frente para a terapeuta Noêmia – que quando se apresentou, entendi que seu nome era Boêmia –. Desconfortado com todos aqueles olhares curiosos querendo saber qual era o meu problema e incomodado com o sorriso amistoso da menina graduada:

– Desde já seja bem-vindo. – ela diz. – Gostaria de se apresentar?

Cruzo os braços e as pernas, e nego, não me entrego.

– Tem certeza?

Afirmo.

– Bom… – bate uma palma muda e percorre os olhos aos outros. – Quem gostaria de começar hoje para o Senhor… – me olha. – Para o Senhor Sem Nome se sentir mais à vontade? – faz graça após ser ignorada.

Gustavo levanta a mão.

– Prossiga, por favor, mas se apresentando para que o Senhor Sem Nome o conheça.

Aquele sorrisinho forçado que ela me lançava estava começando a dar nos nervos. Resumindo: Margarida não conseguia aceitar que seu coelho Roger tinha falecido tão cedo há três meses; a mulher do Douglas o trocou por um rapaz de dezenove anos; Zaira só foi descobrir que amava o marido, dois anos depois que ele bateu as botas; Gustavo recebeu recentemente a notícia de que era adotado e não conseguia lidar com isso, não conseguia mais vê-los como pais; e Dafne se apaixonou por uma mulher e queria voltar a ser Jorge, mas o que tirou na cirurgia não tinha como pôr de volta, como ela queria e estava fazendo falta. Pois é, o caso da Dafne ou Jorge, me fez cair da cadeira. E não foi literariamente falando. Agora imagina a cena.

Então assim, lá estava eu. Já percebeu que a gente tem mania feia de sempre achar que o problema dos outros é inferior ao nosso? Sempre somos quem sofre mais. Para mim, naquele dia: Margarida precisava de um psiquiatra e não de terapeuta ou psicólogo; Douglas tinha que levantar aquele lustre de corno que carregava na cabeça e seguir em frente; Zaira estava tendo o que merecia; Gustavo, tremendo ingrato mimado e sem vergonha na cara; e Dafne… Jorge… Sei lá como chamo, precisava nascer de novo. Simples e frio assim.

Duas horas depois a sessão findou sem eu dizer um pio. Enquanto aguardava Helder vir me buscar, Noêmia tentava me explicar por que eu não tinha dito nada, por conta de ser minha primeira vez e que esperava me ver ali novamente no dia seguinte e mais à vontade, e eu só pensava em não voltar nunca mais para aquele grupo de pessoas completamente retardadas e com problemas pequenos. Já que era para ficar em grupo de terapia, que fosse um de pessoas que mataram alguém ou a pessoa que ama. Pensava.

Helder chega e vem na nossa direção. Sabia o que faria, então resolvi não esperar e tratei logo de sair de perto. Pelo retrovisor eu avistava os dois conversando e Helder olhando com cara de reprovação para o carro.

 – Como foi? – pergunta ao entrar e dar partida.

 – Por que pergunta se ela já lhe disse?

 – Não tínhamos combinado que você iria recorrer a esse tipo de ajuda? Por que agora está dificultando as coisas?

 – Cara! Aquele psicólogo maluco me encaminhou para o lugar errado.

 – Ah é? – riu irônico. – E qual o grupo certo?

– Sei lá qual é o grupo certo. Um de pessoas que assassinaram a própria mulher, talvez? Sei que um grupo com uma maluca, um corno, uma velha carente, um adotado mimado e escroto, e um travesti que quer voltar a ser heterossexual, não é o grupo que eu preciso.

Quase bati de cara no painel do carro com a freada que Helder deu.

– Espera! – me olhou espantado. – Que história é essa de travesti querendo voltar a ser heterossexual?

– É a porra do grupo que aquele teu amigo psicólogo me enfiou.

Fica calado digerindo a informação.

– Mas se sugeriu esse grupo, ele sabe o que está fazendo.

– É, Helder. O maluco sou eu.

      

Chegando a casa foi aquela tortura: medo de abrir a porta do quarto. Mais uma noite embalada a álcool, tabaco e sentimentos ruins. Pela primeira vez senti vontade de pular da janela. Resolvi trancar antes que tropeçasse “sem querer”. Havia alguma pequena faísca de luz dentro de mim fazendo, ao menos, tentar continuar a vida e que me mantinha, em parte, lúcido.

O segundo dia no grupo de transição não foi muito diferente do primeiro. O diferente foi descobrir novas curiosidades de meus colegas retardados e que não mataram ninguém: Margarida mais uma vez usava camisa com desenhos de coelhos felizes e eu não havia notado que ela agia como uma criança de doze anos; Douglas mais uma vez não tirou os olhos da aliança na mão enquanto falava de seu problema; Zaira ficou tentando me seduzir enquanto Douglas falava e os outros prestavam atenção nele, me deu até vontade de dar com a cabeça na parede ao vê-la como se fosse tia Geralda; Gustavo estava chateado, pois não tinha dinheiro para ir ao show de uma de suas bandas prediletas e não queria pedir “a aqueles dois”; e Dafne… Jorge chamou a atenção de todo mundo quanto entrou na sala com uma banana na calcinha/cueca ou, seja lá o que ela ou ele usa. Até que foi divertido contar ao Helder como foi esse segundo dia.

No terceiro dia, por conta de meus colegas retardados terem cumprido o que Noêmia havia pedido no encontro anterior: Dafne não foi com roupa com desenho de coelhinhos felizes e se vestiu como mulher madura; Douglas estava sem aliança e tinha começado a ir à praia para sumir a marca branca do dedo; Zaira se comportou e não deu em cima de ninguém; Gustavo estava puto da vida por que tinha pedido o ingresso aos pais; e Dafne foi sem a banana. Depois de todo mundo, Noêmia acabou conseguindo me fazendo falar.

– Já é seu terceiro dia. Tem certeza que prefere ficar vindo só para ficar olhando e ouvindo?

– O problema é que eu acho que isso aqui não ajuda ninguém e não passa de uma tremenda palhaçada.

– Nossa! Que bom! Você fala! Já estava começando a ficar desconfiada que o gato tivesse comido sua língua.

– Achava que uma pessoa graduada teria muito mais a oferecer do que esse tratamento infantil e esse seu sorrisinho falso.

– Você agindo desse jeito desde que chegou, queria que eu te tratasse como?

Senti aquele tapa verbal na cara e meu sangue ferveu principalmente com a risadinha baixa que todo mundo soltou.

– E vocês seus merdas? – me exaltei, levantei da cara. – Se martirizando por problemas pequenos e solucionáveis. Querem ver como não preciso da porra de um diploma pra solucionar de uma vez essas porras que vocês ficam chorando aqui todo dia?

Todos em silêncio me olhando com os olhos arregalados, com exceção de Noêmia, que permaneceu com aquela cara de babaca que só ela tinha.

– Margarida. – olhei em sua direção. – Compra outro coelho porra. Põe o nome dele de Roger, Pernalonga, Orelhudo, Coelho ou qualquer outro, e coloque roupas de mulher madura, não tem mais doze anos. Te garanto que não vai sentir falta do Roger quando estiver segurando o outro Roger ou fodendo com um cara que se chama Roger. Finge que é o mesmo, sei lá. Improvisa! – virei na direção de Douglas. – Você! Aceite o fato de que foi corno e pronto! Se tua mulher te trocou por um guri de dezenove anos, quem está perdendo é ela. Põe isso na tua cabeça. Fica aí chorando pelos cantos, merda. Que ela se foda! É isso que você tem que pensar. Que ela se foda! Seja sujeito homem! Se duvidar a Dafne… Ou Jorge, sei lá. Que se dane também! Se duvidar é mais homem que você! – virei na direção de Dafne. – E você, volta a se prostituir por um tempo para arrecadar dinheiro e faz uma cirurgia pra tirar esses silicones e enfiar um postiço entre suas pernas. E para de agir hora como Dafne e outra como Jorge, cacete! Se quer ser Jorge, seja o tempo inteiro! – apontei para Zaira. – Você! Sua idosa safada! Sente falta do marido, porra nenhuma! Sente falta é de alguém na tua cama pra apagar esse incêndio no asilo. Grupos de terapia não é o local ideal para se encontrar um consolo. – agora na direção do Gustavo. – Você! Você é o mais merda que tem aqui! Você não vale nem o arroz que come, seu ingrato! Um monte de criança na rua, na casa de adoção querendo um lar e você se queixando de ter um! Aposto que se for procurar, sua mãe te esqueceu numa lata de lixo enquanto usava crack. Se ela usava crack justifica por que você não tem porra nenhuma na cabeça. Eu não sei que merda estou fazendo aqui. Eu sim tenho um problema, não vocês… Seus merdas! Eu matei a mulher que eu amo! – gritei.

– Não matou! – Noêmia me corta firme.

– Matei sim!

– Não matou!

– Matei, porra! – cada vez mais alto. – Você não sabe de nada!

– Sei sim, Logan.

Não foi o fato de ela o tempo inteiro me chamar de Senhor Sem Nome por eu não ter me apresentado e agora dizer meu nome, que me assustou. O tom de voz foi igual ao de Dominique, principalmente a postura que tomou ao dizer. E aquilo quebrou minhas pernas. Chorei mais do que aquela vez que o Helder me abraçou no primeiro dia que retornei a casa. Chorei mais ainda quando todas aquelas pessoas que eu tinha ofendido, agacharam-se ao meu redor e me abraçaram.

– Todo problema é um problema, Logan. – Noêmia diz no meu ouvido. – Independente da gravidade de cada um.


17 – Ventura


Depois daquele terceiro dia eu passei a ser o primeiro a abrir a boca e dar mais atenção aos relatos de meus colegas, agora nada retardados, mas sim doces pessoas passando por dificuldades chatas. E já estavam bem mais adiantados do que eu. Margarida arrumou namorado, não agia mais como garota de doze anos e de acordo com Noêmia já havia se libertado, mas insistia em continuar indo, pois tinha se apegado ao grupo e queria ajudar os demais. Douglas estava conseguindo abrir seu coração para tentar um novo amor e estava indo para o quinto encontro com uma colega de trabalho, mas quando bebia ainda chorava pela ex-mulher. Zaira finalmente assumiu que realmente não amava o marido, e o que sentia falta mesmo era de um homem para apagar seu fogo toda noite, mas há tempos não conseguia atrair ninguém, como quando era mais jovem. Gustavo já estava começando a aceitar seus pais adotivos como pais, mas ainda não conseguia voltar a chamá-los de pai e mãe, só por seus nomes. Noêmia o disse que não importava a forma que os chamava, mas sim o sentimento que tinha por eles e que fazia questão de trancafiá-lo à toa. Jorge… Digo, Dafne… Quando finalmente me acostumei a chamá-la de Jorge, ela/ele entrou em depressão, pois descobriu que a mulher por quem estava apaixonado não valia nada e assumiu que nunca aprovou a ideia dele voltar a ser heterossexual e isso o/a fez perceber que nunca deixou de ser Dafne. Confuso, não?

Antes que eu esqueça, o que eu posso adiantar quanto ao fim do tratamento deles é: Margarida juntou os panos com o namorado na casa dele e não pôde mais frequentar o grupo por conta de tempo e distância; Douglas percebeu que havia se libertado do fantasma da ex-mulher quando saía de um restaurante com sua nova namorada (a colega de trabalho), e sua ex, que estava passando pela região, o abordou com aquele famoso: “Douglas? Quanto tempo!”. E saber que ela não estava mais com o moleque não lhe deu nenhuma faísca de recaída. Depois desse dia ele só apareceu para dar seu último relato e nunca mais apareceu; Zaira depois que passou a fazer aulas de dança de salão e começou a sair com um aluno (de aproximadamente sua idade), também não mais apareceu; Gustavo sumiu do nada, mas acredito que por orgulho não quis aparecer para assumir que tinha superado; e Dafne… Sim, agora só Dafne… Se aceitou como era depois que decidiu não ser mais Jorge. Sempre complicado, não? Até hoje em dia quando a encontro, ela é uma incógnita. E vez ou outra ainda chamo de Jorge.

Conforme fui acompanhando cada um deles, lidando melhor com a própria dificuldade, me sentia mal, pois às vezes parecia que eu não tinha saído do lugar, só tentava pensar e agir que sim, e me enganar além de tudo. Ficava feliz por eles, mas nem um pouco por mim. E enquanto isso Patrícia ainda estava em um quarto de hospital. Ivone me mantinha informado sobre seus progressos e, de acordo com ela, uma ou duas vezes por dia Patrícia acordava dizendo que havia sonhado com Dominique e perguntava por nós. Não recebi mais informações quando Noêmia disse ao Helder que isso só retardaria meu “tratamento”. Mas, assim como Patrícia, também sonhava com Dominique. Não eram sonhos, eram pesadelos, que, felizmente ou não, se tornavam menos assustadores conforme passavam os dias. Em alguns eu vivia novamente o acidente, porém, sabia que iria acontecer e fazia de tudo para evitá-lo. Não importava para onde fugia dentro do sonho, o pior sempre acontecia. Até na vez que voltei para casa do Helder, o nefasto carregador de almas apareceu por lá para tirá-la de meus braços. Sabe o que é dormir no máximo três horas por dia, raramente se alimentar e não ter forças nem para se levantar da cama? Era como eu me encontrava dia sim, dia não. Tudo dependia do pico da recaída, da depressão oculta. Se não fosse Helder, passaria minha vida toda deitado no chão da sala. Ele quem me preparava o café da manhã e eu só bebia o café e comia metade do pão. Depois me levantava e levava ao grupo de transição. No começo parecia criança que precisava de todos os carinhos e cuidados para se locomover, se alimentar, tomar banho e trocar de fralda. É feio para um homem de trinta anos, mas, para mim, era como se a vida tivesse acabado e minha alma só tivesse permanecido no meu corpo a fim de me fazer viver na tortura de saber que tinha matado Dominique. Cheguei ao fundo de uma depressão maior e quase não voltei. E se não fosse pôr Noêmia e meus doces colegas de grupo enfrentando e vencendo os seus próprios problemas, acho que realmente não voltaria.

Patrícia recebeu alta. Eu praticamente na mesma situação que relatei a pouco. Na verdade ela já estava melhor do que eu, e agora ajudava Helder a cuidar de mim. Foi tenso quando retornou. Estava deitado no chão, no meio de uma bagunça que nunca se fez presente em minha casa. Fumando e olhando para o teto, feito vegetal, com olheiras profundas, magrelo, cabelo grande e completamente despenteado, barba enorme e abraçado a uma nova garrafa de uísque, a qual poderia muito bem chamar de Wilson ou Jack Só conseguia sair sozinho quando era para comprar mais bebida e tabaco, pois Helder tinha dito que não faria mais esse favor. Noêmia já tinha tentado me convencer a fazer a barba e o cabelo, parar de me entregar ao álcool e fumar menos, mas nada me animava além de beber e fumar no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar. Salve Raul!

Estava em um dia de recaída, bêbado e completamente pessimista quanto ao grupo quando ouvi a porta abrindo:

– Olha… Cheguei à conclusão de que aquela mulher não está conseguindo ou querendo me ajudar em nada e… Ficar com pessoas com problemas tão menores que o meu só está aumentando a minha culpa. E a Noêmia no fundo no fundo só quer tirar meu dinheiro. Encaremos os fatos, estou extremamente certo! – digo parecendo velho rabugento com problemas de incontinência e afirma que não precisa de fralda geriátrica.

– Está completamente errado, Logan, isso sim. – diz Patrícia se ajoelhando ao meu lado. – Já estou sabendo de seus progressos graças a ela.

Olhei-a completamente assustado, como se estivesse vendo fantasma, e lá estava ela em carne e osso. Não tão quanto eu, mas estava magricela. Os olhos cheios de lágrimas me olhando naquela situação decadente. Se tirassem uma foto para mostrar meses depois, até eu choraria ao me ver.

– Me perdoa, não queria que isso tivesse acontecido. – saiu da minha boca antes de abraçá-la e começar a chorar.

– Não chora, por favor. – diz acariciando meus cabelos. – Não teve culpa. Infelizmente aconteceu… Deve ser forte como sempre foi.

– Tive culpa sim, Patrícia! – gritei me rastejando para longe e encarando-a como se estivesse com medo de algo. – Matei Dominique e você sabe disso! Você estava lá! Não vem com essa de fingir que não sabe de nada e querer tirar a culpa de mim. Seja franca como sempre foi!

– Não faz assim. Precisa continuar frequentando o grupo.

– Não! – estava entregue a insanidade. – Só quer tirar o meu dinheiro. Se conhecê-la, vai concordar comigo.

– O que ela quer é tirar essa culpa que te perturba, idiota!

Silêncio. Agora sim tive certeza que ela estava de volta e que não era um clone ou alucinação.

– Helder foi me buscar no hospital e me contou que não tem levantado desse chão pra nada… E por mais que esteja melhorando só vai à terapia se ele te levar. – disse com tom de mãe dando bronca. Fechou a dupla perfeita: mãe Patrícia e pai Helder. – Só levanta pra comprar mais bebida e cigarro, bebida e cigarro… – irritada. – Ele tem que vir aqui fazer o café da manhã, trazer o almoço, a janta, e quase enfiar na sua goela pra que coma. – bufou impaciente. – Se ele não te levar você não vai por vontade própria. Olha o seu estado. Já se olhou no espelho, idiota? – meneava a cabeça em negação. – Vou cuidar de você a partir de hoje.

– Promete? – falei igual criança perdida, abraçando as pernas dobradas, tentando se esconder nelas.

– Prometo! – levantou e veio em minha direção. – Vem, por favor. – estendeu as mãos. – Vamos lá pra que você me apresente essa mocinha gente boa. – descontraiu, abriu sorriso. – Helder está nos esperando lá embaixo.

Assim que chegamos apresentei a Patrícia meus doces colegas e por fim, Noêmia. Tive que “dar uma volta” a pedido de Patrícia para as duas poderem conversar melhor. Me senti adolescente rebelde que andava aprontando na escola e finalmente a mãe foi convocada pela diretora. Mas diferente de Helder, Patrícia não me expressou nenhuma reação ao, seja lá o quê, que Noêmia havia lhe contado. Como não eram permitidas pessoas que não faziam parte do grupo assistir as reuniões, meu pai e minha mãe tiveram que esperar no carro.

Na volta, já estava mais tranquilo. Noêmia já tinha sugerido, mas Patrícia foi quem me convenceu de que, realmente, uma das atitudes a se tomar era de nos mudarmos, pois seria difícil continuar morando ali com tantas recordações. Enquanto Helder procurava o novo lar, eu e Patrícia nos hospedamos em hotel. Ela me levou ao barbeiro e cabelereiro, me alimentou e cuidou de mim, como prometido. No meu aniversário não teve nenhum tipo de comemoração, além de um bom porre de uísque e noite entregue a horas de choro. Por pouco não se desfez todo o trabalho árduo de Noêmia.

Em Outubro, Helder encontrou o apartamento “ideal”, eu já estava mais conformado com a situação e voltando ao normal, digamos que noventa por cento. Os dois agitaram toda a mudança, enquanto fiquei sozinho esperando chegarem junto do caminhão com nossos pertences. Não quis saber nem imaginar o que fariam com as coisas de Dominique, mas o meu “eu” mais são, queria que não jogassem nada fora. Sabia que um dia conseguiria e iria fazer questão de tirar um tempo para ver as suas coisas, me lembrar dela e de nós, com ternura e sem depressão. Não queria esquecê-la, nem iria. Mesmo se quisesse, seria impossível. O que queria mesmo era conseguir continuar levando a vida como se ainda estivesse ali do outro lado da porta esperando eu abrir. E de certa forma estava, sei disso mais do que ninguém. Mesmo não estando em carne, estaria sempre em meu coração, minha alma, nesse livro… Em mim! Dominique sempre estará comigo até o fim. Meu eterno amor. Minha Deusa. Minha Dama de Copas. Minha novidade perfeita. Meu tudo! E mais do que nunca, “Stop Crying Your Heart Out” do Oasis, era a trilha sonora de toda a minha vida até ali. Percebi, também, que é fácil mudar seus discos, livros, fotos, lençóis, hábitos, ares e, radicalmente, sua vida. Mas as lembranças, meu caro, estarão aonde quer que vá e nunca vão mudar de você… Por ventura.

 

– Logan Machado


Obra publicada na 5ª Temporada do Blog.
Publicação inicial: 02/03/2015.
Publicação final: 22/10/2015.